'Voto a ser disputado': eleitorado evangélico poderá decidir a eleição?

O voto religioso parece ser um dos focos das campanhas, principalmente com a circulação de vídeos nas redes que tentam contestar a religiosidade dos dois candidatos

(Foto: Reprodução/Lucas Rocha/Sputnik)


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Lucas Rocha, Sputnik Brasil - No segundo turno das eleições de 2022, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) buscam eleitores de outros candidatos para ampliar o eleitorado para conseguir a vitória no dia 30 de outubro. Essa estratégia esbarra em questões religiosas e até mesmo no poder coercitivo de grupos paramilitares.

A disputa no Sudeste deve ser o grande alvo dos dois candidatos. Bolsonaro venceu em São Paulo, Rio de Janeiro e no Espírito Santo, enquanto Lula levou Minas Gerais. A eleição está em aberto, conforme analisaram especialistas ouvidos anteriormente pela Sputnik Brasil, e os candidatos ainda montam as estratégias para disputar essa nova eleição.

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O foco principal está nos votos dos três candidatos mais bem colocados, Simone Tebet (MDB), Ciro Gomes (PDT), Soraya Thronicke (União), mas não se resume a isso. Outras dinâmicas acabam impactando na escolha do eleitor. Até o momento, Tebet e Ciro já declararam estar com Lula. Governadores reeleitos no primeiro turno já começaram a se dividir entre os dois candidatos.

O voto religioso parece ser um dos focos das campanhas, principalmente com a circulação de vídeos nas redes que tentam contestar a religiosidade dos dois candidatos. Na véspera das eleições, uma gravação com um apóstolo satanista com críticas a Bolsonaro teria assustado evangélicos. Posteriormente, o autor da "pregação" disse que o vídeo foi editado para comprometer Lula, que não tem relação nenhuma com ele.

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No dia seguinte das eleições, segunda-feira (3), ganhou ampla repercussão um vídeo em que Bolsonaro aparece discursando em uma loja maçônica. A relação do presidente com a maçonaria foi utilizada por apoiadores de Lula para contestar a fé do candidato a reeleição. Vídeos com pastores criticando a maçonaria também tiveram ampla circulação.

Apesar de estudos mostrarem que a bancada evangélica reduziu no Congresso Nacional, esse é um voto de peso na disputa eleitoral.

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Para Rodrigo Toniol, professor de Antropologia Cultural da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o voto evangélico tem a capacidade de decidir a eleição é "o voto a ser disputado" neste segundo turno.

"As campanhas tomaram uma decisão de logo no primeiro dia do segundo turno entrar no debate religioso. Isso está claro e explícito. [...] Mais do que um fenômeno, é uma decisão das campanhas. Tem algo de orgânico, mas tem algo de como se deseja disputar esse voto. E como se deseja disputar esse voto é em termos de valores", avalia o professor da UFRJ.

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O especialista, que integra o Grupo de Pesquisa sobre Religiões e Cidade da UFRJ (Passagens), aponta que a escolha de levar o debate religioso para o centro do embate no segundo turno não é uma novidade no Brasil. Ele lembra as disputas de 2010, quando o senador José Serra (PSDB) confrontou a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) com a questão do aborto, e de 2018, quando Bolsonaro usou temas de ordem moral para vencer o ex-ministro Fernando Haddad (PT).

"O peso do voto evangélico é grande, é uma parcela da população que bate os 30%. E também se conecta com questões fundamentais, que são de valores. A política no Brasil nos últimos segundos turnos tem se dado menos em propostas e mais em disputa moral."

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Toniol acredita que o voto evangélico "está em disputa, mas Bolsonaro larga na frente pela estrutura capitalizada que montou nos últimos quatro anos com relação aos evangélicos". "Esse é o terreno de excelência de disputa dos bolsonaristas e o tipo de relação que Lula estabeleceu com as religiões parece surtir pouco efeito", aponta.

"Eu diria que o voto evangélico é o voto a ser disputado, em termos de valores, em capacidade de comunicação. Essa parcela da população está tentando entender seus dilemas, econômicos e em termos de valores", apontou.

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Para a cientista política Clarisse Gurgel, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), a eleição vai ser decidida no detalhe. Gurgel prevê um cenário "apertado" e enxerga diversas influências para definir o resultado.

Gurgel avalia que Bolsonaro aposta em uma campanha de medo para que o eleitor opte por um voto conservador. Essa campanha, segundo ela, é montada com estratégias de fake news personalizadas nas redes sociais, mas também por pressões exercidas presencialmente.

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Relatos recebidos pela Sputnik Brasil dão conta de que milícias do Rio de Janeiro, um dos estados-chave para o segundo turno, se mobilizaram para exercer seu poder coercitivo no dia do primeiro turno da eleição. Segundo fontes ouvidas pela reportagem, grupos milicianos montaram uma espécie de bunker na frente de seções eleitorais da Zona Oeste da capital e na Baixada Fluminense para pressionar eleitores a votarem em determinados candidatos. Elas apontaram que houve distribuição de santinhos por homens que se colocaram de braços cruzados na porta de colégios eleitorais.

Para Gurgel, esses relatos indicam que há uma guerra de movimento.

"Muita gente fala de guerra híbrida, muita gente fala que a guerra é digital, pelas redes, [...] mas, ao mesmo tempo, há uma limitação também no espaço físico, da liberdade dos eleitores. Isso a gente precisa falar e fica uma luta de Davi e Golias, já estamos falando do imaginário religioso", destacou a pesquisadora. "É pela rede, mas é também por uma rede física", completou.

Gurgel explica que há um cenário de "território impedido", em que a política é suspensa. Ela aponta que, com a impossibilidade de fazer campanha em alguns territórios dominados por grupos criminosos, a campanha eleitoral passa a ser muito mediada pelas redes sociais e pela TV, o que a tira da presença no território.

"Com a política suspensa, a correlação de forças é de Davi e Golias de novo. Não dá para exigir coragem [do eleitor pressionado] se ele não está organizado, se nenhuma ferramenta coletiva ele tem. A ferramenta coletiva que ela tem é a igreja, que vai reforçar os [velhos] fantasmas [do comunismo, da expropriação de terras], o medo, [vai] disciplinar pelo medo. [...] As pessoas, se mencionarem o nome de algum candidato, elas são ameaçadas", argumenta Gurgel.

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