Pesquisador alvo do clã Bolsonaro diz estar com medo de trabalhar desde que vídeo com fake news foi divulgado

Imagens compartilhadas pelos irmãos Flávio e Eduardo espalham falsamente a versão de que uma entrevista de rua teria sido interrompida depois que eleitor declarou voto em Bolsonaro

Pesquisador é gravado por bolsonarista e interrompe pesquisa
Pesquisador é gravado por bolsonarista e interrompe pesquisa (Foto: Reprodução)


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Por Gisele Federicce - Um pesquisador alvo de fake news espalhada desde terça-feira (30) nas redes bolsonaristas não está conseguindo trabalhar na rua por temer por sua integridade física. “Estou impossibilitado de trabalhar desde que esse vídeo foi divulgado. Porque estou [com a minha imagem] em grupos do Exército, de policiais…”, relatou ao 247 a vítima da falsa narrativa, que não terá seu nome divulgado por segurança. Ele diz ter aceitado conversar com o 247 por achar que “a verdade não pode perder para a mentira”.

Entre as redes de maior alcance que viralizaram a história mentirosa estão a de Eduardo e Flávio Bolsonaro, filhos do presidente, que postaram em todas as suas plataformas, contabilizando mais de 1 milhão de visualizações.

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O vídeo divulgado pelos apoiadores de Jair Bolsonaro mostra o início de uma pesquisa sendo realizada dentro de um estabelecimento comercial na cidade de Américo de Campos, no interior de São Paulo, com cerca de 6 mil habitantes. O entrevistador faz perguntas como nível de escolaridade e grau de interesse nas eleições deste ano. Ele também questiona em quem o participante votaria se as eleições fossem naquele dia. 

O homem responde “Bolsonaro”. Em seguida, o pesquisador mostra um disco com os nomes dos candidatos, repete a pergunta, e o homem repete “Bolsonaro”. Neste momento, o entrevistador indaga se está sendo filmado e, diante da resposta afirmativa, recolhe seu material de trabalho e diz “deixa, moço”. O eleitor pergunta: “O que é que tem? É democracia”. O entrevistador finaliza a pesquisa e deixa o local.

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A falsa história divulgada pelos apoiadores de Bolsonaro foi a de que a entrevista foi interrompida assim que o eleitor declarou seu voto no presidente - uma forma de descredibilizar os institutos de pesquisa, que mostram o candidato à reeleição em desvantagem em relação ao ex-presidente Lula. “O vídeo é claro e mostra que eu interrompi a pesquisa quando soube que estava sendo gravado, e não quando ele respondeu que votaria no Bolsonaro”, explica o pesquisador.

“Vamos deixá-lo (sic) famoso, olha o tamanho da safadeza na coleta de dados, nesta (sic) pseudos pesquisas...”, diz uma das postagens. “Por que Bolsonaro perde nas pesquisas da Rede Globo (Ipec, DataFolha, Quaest)? Porque são os próprios eleitores do Lula que fazem!”, afirma outra. “Salsicha e pesquisa, duas coisas que se as pessoas soubessem como são feitas não consumiriam”, escreveu Eduardo Bolsonaro.

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O pesquisador criticou o fato de a empresa responsável pela pesquisa, instituto FSB, não ter lhe oferecido nenhum apoio ou respaldo jurídico. A empresa enviou o seguinte posicionamento ao 247 sobre o episódio: "O Instituto FSB não possui vínculo direto com o entrevistador, que é contratado como autônomo por um de nossos parceiros. O Instituto FSB foi informado do ocorrido pelo parceiro, e este prestou apoio ao profissional" (leia a íntegra ao final da matéria).

O entrevistador conta que trabalha como autônomo com todos os institutos de pesquisa e que é “completamente neutro, sério e imparcial” enquanto realiza as entrevistas. Ele afirma ainda que, logo no começo do questionário com o eleitor, lê os termos de confidencialidade daquela pesquisa, informando que as respostas são confidenciais e serão mantidas sob sigilo - o que uma gravação impediria.

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Tanto a FSB quanto a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) afirmam que a conduta recomendada em caso de gravação por parte de um entrevistado é informar que não autoriza a gravação, pedir educadamente para parar e, caso negativo, interromper as perguntas. Nesse caso, a entrevista é descartada para o levantamento.

“Estou vendo a hora de matarem um entrevistador na rua”

O pesquisador alvo da fake news relata que o ambiente está tenso nas eleições deste ano. “Isso está acontecendo com muitos colegas meus de trabalho. As pessoas agridem, jogaram ketchup em um amigo meu do Rio de Janeiro. Elas estão com medo de ir para a rua. A situação piora em cidades menores”, diz. “Eu fui a vítima do momento”, avalia. “Estou vendo a hora de matarem um entrevistador na rua. É uma guerra”, completa.

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Ele diz ter um amigo advogado que entrará com uma petição no STF para retirar as postagens das redes sociais e afirma ter descoberto quem é o autor da gravação de sua entrevista. “Esse cara posta tudo [de fake news] no Facebook, e está sendo processado por isso”.

Por se tratar de um levantamento de controle interno da empresa, que não terá seus resultados divulgados, não há registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

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Posição da FSB

O Instituto FSB não possui vínculo direto com o entrevistador, que é contratado como autônomo por um de nossos parceiros. O Instituto FSB foi informado do ocorrido pelo parceiro, e este prestou apoio ao profissional.

Em relação à gravação da imagem do entrevistador durante a realização de pesquisa eleitoral, cabe ainda esclarecer que ela constitui um dado pessoal sensível, visto que pode ocasionar risco de discriminação ao seu titular, ao identificá-lo e possibilitar que o mesmo seja alvo de constrangimento ou violência em razão de sua profissão, na forma do parágrafo 1º do artigo 11 da Lei Geral de Proteção de Dados. Ainda segundo a LGPD, esse tipo de dado - dado pessoal sensível - só pode ser coletado através do consentimento expresso do seu titular, e, portanto, sem a autorização do entrevistador para a gravação de sua imagem, a mesma não poderia ter sido captada e tampouco divulgada.

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Sendo assim, o entrevistador agiu corretamente ao encerrar a entrevista, independentemente da orientação política do entrevistado.

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