Líderes ianomâmis isolados reclamam de risco de coronavírus após visita de militares

Nesta terça e quarta-feiras, soldados levaram suprimentos médicos de helicóptero a postos avançados na fronteira com a Venezuela e reuniram famílias ianomâmis para fazer exames de detecção do novo coronavírus

Integrante das Forças Armadas examina índio ianomâmi em Alto Alegre, Roraima
Integrante das Forças Armadas examina índio ianomâmi em Alto Alegre, Roraima (Foto: REUTERS/Adriano Machado)


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Adriano Machado, Reuters - Líderes de uma comunidade indígena ianomâmi isolada reclamaram que uma missão de militares para entregar equipamento de proteção e suprimentos para o combate ao coronavírus aumentou o risco de infecções em seu povo por causa do contato com forasteiros, inclusive jornalistas.

Procuradores federais disseram que estão investigando a visita por ela ter ignorado o desejo de comunidades ianomâmis de permaneceram isoladas da sociedade, violado as regras de distanciamento social e distribuído cloroquina aos indígenas.

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Na terça e quarta-feiras, soldados levaram suprimentos médicos de helicóptero a postos avançados na fronteira com a Venezuela e reuniram famílias ianomâmis para fazer exames de detecção do novo coronavírus, uma iniciativa registrada por um contingente de jornalistas.

“Ficamos surpresos com a visita do governo. Não queremos ser propaganda do governo”, disse Parana Ianomâmi, uma das lideranças do povo ianomâmi, em um vídeo.

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Os ianomâmis são o último grande povo indígena vivendo em isolamento relativo em uma vasta reserva, e há décadas suas terras são invadidas por garimpeiros que levam doenças fatais para a população.

Roberto Ianomâmi, chefe de uma comunidade de Surucucu, disse que o governo organizou a viagem sem consultar os líderes indígenas.

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“Fui muito surpreendido com essa visita, não fomos consultados. Por isso estou com muita raiva dos senhores, pois erraram, chamaram os ianomâmi sem explicar e colocaram dentro do quartel”, disse ele também em uma mensagem de vídeo, com o rosto pintado de negro com tinta de jenipapo.

“Vocês fizeram aglomerações com pessoas estranhas que vieram de fora. Eu não aceito que venham sem consultar o povo, não façam mais isso. Eu sou liderança daqui, quem manda na região sou eu... Não aceito estarem aqui tirando fotos de nossas crianças e mulheres ianomâmis.”

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Liderando a missão de quarta-feira, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, disse aos repórteres que a pandemia está sob controle entre os ianomâmis, já que os médicos não detectaram nenhum caso de Covid-19 entre os índios.

Seu comentário foi rejeitado pelo Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi) ianomâmi, que diz que já houve mais de 160 casos confirmados e cinco mortes entre o povo de mais de 27 mil habitantes.

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Em um comunicado enviado à Reuters, o Ministério da Defesa disse que todos os membros da missão foram devidamente examinados para detecção de Covid-19 de antemão e que a cloroquina é usada há mais de 70 anos contra malária, prevalente na região amazônica.

O conselho pediu que o procurador público investigue a visita e o envio de cloroquina, remédio antimalária cujo uso no tratamento de pacientes de Covid-19 não tem eficácia comprovada.

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A Procuradoria Pública disse que os militares não estão protegendo os ianomâmis de seu principal risco de contágio —os garimpeiros em suas terras, estimados em mais de 20 mil.

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