Garimpo mata sete indígenas em seis meses em Roraima; quatro eram crianças

Mesmo com ordem do STF, Estado brasileiro não implementou políticas para garantir a segurança dos Yanomami

(Foto: Reprodução/Twitter Dário Kopenawa Yanomami)


✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no canal do Brasil 247 e na comunidade 247 no WhatsApp.

Brasil de Fato - Dois indígenas da comunidade isolada Moxihatëtëma, na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, foram mortos a tiros durante um ataque de garimpeiros ilegais, denunciou a Hutukara Associação Yanomami (HAY).

Segundo a organização, uma base de garimpo ilegal está localizada a 12 km da comunidade isolada,  região do alto rio Apiaú, em Mucajaí, região Sul do estado, e coloca em risco os indígenas que negam contato com qualquer pessoa externa. 

continua após o anúncio

Um outro Yanomami faleceu em decorrência de Malária por falta de atendimento médico, já que os funcionários das unidades de saúde foram retirados de seus postos após o início dos ataques.

Desde abril de 2021 as comunidades da região do Palimiu, também na TI Yanomami, vêm sendo alvo de garimpeiros armados com balas e bombas. Mais de dez pedidos de socorro já foram feitos pelos indígenas que sofrem diariamente com as ameaças e ataques. 

continua após o anúncio

Há seis meses os povos originários da região tiveram que mudar sua rotina e se revezar em esquemas de segurança por causa dos ataques. Lideranças explicam que o clima de pânico está generalizado e que muitos indígenas não conseguem mais dormir. 

Já são sete indígenas da TI Yanomami mortos pelo garimpo somente neste ano, os três adultos Moxihatëtëma e quatro crianças, com idades entre 1 e 7 anos, da região do Palimiu. 

continua após o anúncio

No quarto pedido de socorro enviado pela Hutukara Associação Yanomami à Fundação Nacional do Índio (Funai), à Polícia Federal em Roraima (PF/RR), à 1ª Brigada de Infantaria da Selva do Exército (1ª Bis) e ao Ministério Público Federal em Roraima (MPF-RR),  associação solicitou que fossem enviados agentes de segurança pra a região do Palimiu e para os isolados Moxihatëtëa.

Assim, o pedido por garantia de segurança, da lei e da ordem por parte do Estado, segundo a associação, sempre foi total, já que indígenas de todo o território Yanomami estão vulneráveis aos ataques dos garimpeiros. 

continua após o anúncio

Há quase seis meses o Supremo Tribunal Federal (STF) ordenou que a União garanta a segurança dos Yanomami sob ataque do garimpo em Roraima, mas até o momento os indígenas seguem sem qualquer ação de proteção.

Quatro crianças indígenas mortas pelo garimpo ilegal

continua após o anúncio

Desde que os ataques começaram, duas crianças, de 1 e 5 anos, morreram afogadas enquanto fugiam dos tiros dos invasores; outras duas crianças, de 5 e 7 anos, foram sugadas pela draga no garimpo e levadas pela correnteza; e dois adultos, indígenas isolados, foram mortos a tiros após tentarem expulsar garimpeiros invasores de seu território. 

Questionados pelo Brasil de Fato sobre quais providências foram tomadas e políticas implementadas, o Ministério da Justiça e Segurança Pública, Ministério do Meio Ambiente, Polícia Federal e Fundação Nacional do Índio (FUNAI) não responderam. Já o Ministério da Defesa, informou que como se trata de crimes (como o de assassinato) quem responde pelas demandas são a Polícia Federal e o Ministério da Justiça e Segurança Pública.

continua após o anúncio

Por telefone a pasta se limitou a dizer que apenas presta apoio quando há alguma operação na região, o que não está ocorrendo no momento. 

Nada mudou 

continua após o anúncio

Segundo Ivo Cípio Aureliano, assessor Jurídico do Conselho Indígena de Roraima (CIR), a situação continua em estado crítico, apesar da decisão do STF. 

"Até hoje não existe mecanismo de segurança para a comunidade. Os indígenas seguem vulneráveis porque o governo federal não garantiu o cumprimento da decisão judicial", explicou. 

Para o assessor, as mortes significam um total abandono e descaso do Estado Brasileiro com os povos indígenas. Aureliano explica que a cada morte há uma desestabilização das comunidades, já que os indígenas têm suas próprias formas de sepultamento e despedida.

"Causa uma comoção social nas comunidades. Espiritualmente ficam muito abalados porque o ritual de despedida demora dias até anos".

O Conselho Indígena de Roraima tem se somado às organizações indígenas Yanomami para denunciar a omissão da União. "Já encaminhou várias denúncias ao Ministério da Justiça e também ao Ministério dos Direitos Humanos", pontua Aureliano.

Como medidas para garantir a integridade, dignidade e segurança dos Yanomami, Aureliano cita o cumprimento da decisão judicial de retirar os invasores, atenção básica na saúde e na educação escolar nas escolas Yanomami. Além da reativação das Bases de Proteção na TI Yanomami.

O papel de Jair Bolsonaro 

"O Governo Bolsonaro tem causado o aumento das invasões, como por exemplo, com o desmonte dos órgãos de fiscalização (IBAMA, FUNAI e ICMBio). E com o discurso favorável ao garimpo e exploração mineral nas terras indígenas", aponta o assessor do CIR.

Mesmo com a pandemia, em 2020 o garimpo ilegal avançou 30% na Terra Yanomami, o equivalente a 500 campos de futebol. Percorrendo novas rotas entre os estados do Amazonas e de Roraima, os garimpeiros ilegais estão agindo mais próximos das comunidades dos povos originários.

Se convertida a área total desmatada na Terra Indígena Yanomami, que é de 2.400 hectares, a dimensão seria composta por mais de 3.300 campos de futebol, sendo 500 só em 2020, que representa um aumento de 30% no avanço do garimpo ilegal no último ano. Só o rio Uraricoera, que fica às margens da Comunidade Palimiu, concentra 52% de todo o dano causado pelo garimpo ilegal. 

O território Yanomami tem quase 10 milhões de hectares e é a maior reserva indígena do país.

Assine o 247, apoie por Pix, inscreva-se na TV 247, no canal Cortes 247 e assista:

iBest: 247 é o melhor canal de política do Brasil no voto popular

Assine o 247, apoie por Pix, inscreva-se na TV 247, no canal Cortes 247 e assista:

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

continua após o anúncio

Ao vivo na TV 247

Cortes 247