Fator histórico, anti-esquerdismo e corporativismo explicam militares no governo

Livro traz diversas abordagens para a forte presença militar nas várias esferas de poder em um cenário de radicalização do conservadorismo

Jair Bolsonaro durante Cerimônia Comemorativa do Dia do Exército, em 2019
Jair Bolsonaro durante Cerimônia Comemorativa do Dia do Exército, em 2019 (Foto: Marcos Corrêa/PR)


✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no canal do Brasil 247 e na comunidade 247 no WhatsApp.

Vitor Nuzzi, da RBA - A expressiva presença de militares nos vários escalões do governo, depois de certo período mais voltados a atividades internas, voltou a chamar a atenção dos observadores da cena política. Uma obra lançada recentemente procura analisar esse fenômeno, passado e presente, por meio de diferentes abordagens – histórica, sociológica, filosófica. É o objetivo de Os Militares e a Crise Brasileira (Alameda, 268 páginas), obra coletiva organizada pelo professor João Roberto Martins Filho, um pesquisador do tema.

Ele identifica alguns fatores que podem ajudar a explicar o boom militar. Lembra que a corporação nunca deixou de estar presente na vida política brasileira. “Eles sempre tiveram, pelo menos, o poder de atrapalhar, de criar instabilidade”, afirmou, em uma das recentes lives de lançamento do livro. “O componente militar é capaz de desequilibrar o governo, mas parece não ter nenhuma vontade de fazer isso.” Outra razão ideológica histórica é o “anti-esquerdismo”, reavivado sob Bolsonaro.

continua após o anúncio

 Inscreva-se na TV 247, seja membro, e assista a entrevista com os autores do livro:


continua após o anúncio

Saúde e Defesa

E há um terceiro fator, “puramente corporativo”, aponta o autor, para explicar a presença dos militares no atua governo: melhorar as condições dos quartéis, da carreira, escapar do contingenciamento orçamentário. “A Saúde deveria receber o dobro da Defesa. Não estamos, no momento, sendo ameaçados por ninguém”, observa o professor da Universidade Federal de São Carlos, autor do livro O Palácio e a Caserna, lançado também pela Alameda em 2019.

Martins Filho identifica também certo “pêndulo”, no pensamento militar, entre a adesão ao liberalismo conservador e nacional-desenvolvimentismo. Isso já aconteceu, por exemplo, em governos de generais-presidentes na ditadura. Neste momento, o nacionalismo parece estar adormecido. “Aparentemente, eles estão confortáveis com a ideologia do (Paulo) Guedes.”

continua após o anúncio

Mundo “em guerra”

Autora de um dos artigos do livro, a historiadora francesa Maud Chirio diz que setores da extrema direita militar, na reserva, contribuíram para formar uma ideologia que sustenta o governo. Um projeto de poder “que se ancora na representação de um mundo em guerra”, que encontrou lugar no imaginário da opinião pública. “O Brasil que a gente pensava conhecer, ao menos no seu sistema político, mudou de maneira radical.

Para o professor Eduardo Costa Pinto, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o retorno dos militares ao governo e à cena política está associado a uma “profunda fragilidade institucional”. Um processo iniciado, de certa forma, a partir de 2016, com o impaeachment de Dilma Rousseff, e com o que o pesquisador chama de “efeito Temer-Aécio-Joesley”. E, reforçando as palavras do organizador, ele observa que as Forças Armadas “atualizaram” o histórico anticomunismo. Professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Ana Penido reforça: o anticomunismo é “repaginado” e vira “antifeminismo”, “anti-onguismo”.

continua após o anúncio

“Soldados digitais”

Autor de livro que esmiúça o funcionamento do DOI-Codi paulista, o jornalista Marcelo Godoy fez no livro uma análise da presença militar no meio digital. Surgem os “soldados digitais da extrema direita”. Ele cita o general Vilas Bôas, autor de famoso tuíte de intimidação ao Supremo Tribunal Federal. O militar segue umas duas dezenas de colegas, que seguem outras dezenas, chegando-se a um total de 115 perfis no Twitter, todos da ativa. Destes, 35 são generais, sendo 31 do Exército.

Desses 115 que se relacionam entre si, detalha o jornalista, 82 haviam feito algum tipo de publicação que pode ser caracterizada como de cunho político-partidário. Mais de 20 partindo de generais, participação significativa entre os atualmente na ativa. Foram, no total, 3.427 manifestações político-partidárias, até em dia da eleição. Só quatro criticavam Bolsonaro.

continua após o anúncio

O sociólogo e professor Eduardo Mei relaciona a pandemia como exemplo da continuidade da “necropolítica” brasileira. “Estamos enfrentando uma situação em que o modelo neoliberal de acumulação no país não abre espaço para a inclusão. A pandemia é uma oportunidade para a eliminação física daqueles que são considerados indesejáveis”, afirma, citando indígenas, quilombolas, sem-terra, “pobres em geral”, os excluídos do chamado mercado. Isso explica em certa medida o discurso de que é preciso salvar a economia em detrimento da vida. Assim, conclui não basta “desmilitarizar” o governo. “É preciso refundar o país, para torná-lo inclusivo.”

Para adquirir o livro Os Militares e a Crise Brasileira clique aqui.

continua após o anúncio

iBest: 247 é o melhor canal de política do Brasil no voto popular

Assine o 247, apoie por Pix, inscreva-se na TV 247, no canal Cortes 247 e assista:

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

continua após o anúncio

Ao vivo na TV 247

Cortes 247