Fábio Bibancos: bolsonarismo empoderou a barbárie no Brasil

Idealizador do Museu Brasileiro da Pandemia afirma que é preciso preservar memória da crise sanitária e seus mortos

Fábio Bibancos e Jair Bolsonaro
Fábio Bibancos e Jair Bolsonaro (Foto: Reprodução/Youtube | REUTERS/Mike Blake)


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Opera Mundi - O dentista Fábio Bibancos, presidente da Turma do Bem, maior rede de dentistas voluntários do mundo, que lidera a criação do Museu Brasileiro da Pandemia, defendeu no programa 20 MINUTOS ENTREVISTA desta sexta-feira (24/06) que o bolsonarismo empoderou a barbárie no Brasil e que é preciso preservar a memória da pandemia.

“Está lá no Museu do Holocausto, na Alemanha, o nome das empresas e famílias que apoiavam Hitler. Nós vamos esquecer o que estamos vivendo, o cara (Jair Bolsonaro) imitando as pessoas sofrendo sem ar, a ema, a cloroquina?”, questiona, ao comentar sobre o propósito do projeto.

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“Por que morreram tantos negros e indígenas? Como aquilo aconteceu em Manaus? O que vamos fazer com os órfãos? Quantos são?”, acrescenta, destacando que o bolsonarismo, em sua avaliação, empoderou uma barbárie até então oculta mas já existente na sociedade brasileira. 

“Eu vivia na Disney, achava que estávamos todos juntos, crescendo, avançando. Como um dentista como eu, com a mesma formação que a minha, deu cloroquina para os filhos? Deu, eu vi. É um ótimo profissional, mas não é, porque um ótimo profissional jamais faria isso.”

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O museu tem o objetivo de explicitar essa barbárie e surgiu a partir da angústia causada pela crise sanitária em Bibancos. "Nós perdemos muita gente durante a pandemia, gente próxima e importante. Senti muito pelos meus colegas dentistas”, disse. 

O memorial é pensado como uma denúncia capaz de constranger e provocar vergonha pelo comportamento de autoridades brasileiras diante do cenário. “Escolhemos pegar os fatos do dia a dia, não opiniões, porque assim as pessoas não podem falar ‘lá vem os esquerdopatas’. Não, lá vêm as pessoas razoáveis, que têm algum tipo de civilidade”, afirma. 

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Hoje em campanha de financiamento coletivo, o projeto se refere à pandemia não como fatalidade médica mas como uma questão de direitos humanos, que evidenciou ainda mais profundamente as diferenças sociais existente no país. 

Oficializada em 2002, a rede voluntária que Fábio Bibancos preside é uma organização social conhecida como Turma do Bem, nome com o qual ele diz implicar atualmente. “Dá medo, porque parece que estou em outro lugar”, ri.

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Contando hoje com 18.400 dentistas voluntários, a organização encaminha pacientes, principalmente crianças, para atendimento odontológico na rede privada, num raio de 10km de distância da moradia do paciente.

Um segundo grupo atendido pela Turma do Bem é o de mulheres vítimas de violência doméstica, com graves consequências à saúde bucal, tendo se tornado prioridade durante a pandemia. 

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“O soco geralmente é dado na boca, como uma forma de inibir, segurar a mulher em casa. O agressor dentro de casa é principalmente o companheiro, mas há filhos que batem em mães, pais que batem em filhas”, explica.

Em tempos mais amenos, Bibancos compreende a Turma do Bem como um projeto não de saúde, mas de assistência, pautado pela reinserção social. 

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“Um adolescente sem dentes não tem chance de trabalhar, fica excluído e pronto. Quando a gente coloca o dente na pessoa, ela vai trabalhar, beijar, ter boas relações, comer bem. Sua vida muda completamente, e é reinserido à sociedade”, avalia.

O dentista denuncia ainda o completo abandono por Bolsonaro de políticas públicas em saúde bucal e o encerramento do programa Brasil Sorridente, incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) durante os governos petistas. 

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"É um desprezo pelo ser humano, não é nem uma malandragem neoliberal”, opina, acrescentando que "ficou todo mundo sem odontologia, seja no SUS, no convênio privado ou na franquia. Nem a classe média está conseguindo ir.”

Segundo Bibancos, os profissionais de saúde bucal pagaram preço elevado pela pandemia. Não foram priorizados na vacinação, e muitos se contaminaram e morreram nos primeiros meses da pandemia. 

O dentisa diz ter presenciado colegas usando sacos de lixo para paramentar pacientes. Os impactos combinados de pandemia e caos político também apareceram em sua clínica, com aumento notável de problemas de articulação temporomandibular (ATM), como apertamento e bruxismo. 

“O estresse pela situação pandêmica e política levou os brasileiros a comerem seus próprios dentes, tamanho o nervoso e o descontrole emocional. É um mecanismo de escape do nosso organismo”, explica. 

Em sua clínica, frequentada sobretudo pela classe média alta, os problemas de ATM saltaram de 10% a 15% para 70% a 80% dos pacientes.

“Não tem como não descontar no próprio corpo, em nódulos, ATM, depressão. É lógico que ficamos mais tristes, preocupados, instáveis emocionalmente e com dificuldades de relacionamento", defende, avaliando que o bolsonarismo como um todo, para além de Bolsonaro, somado à pandemia, impactou a saúde de brasileiros.

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