Em alta no segundo turno, desinformação vira arma para atrair indecisos

Situação levou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a ampliar seus poderes para determinar a remoção de conteúdos falsos das redes sociais na reta final para a votação

(Foto: Pixabay | ABR)


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Reuters - O avanço da desinformação no segundo turno das eleições presidenciais entre o candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usa o medo na batalha pelos poucos votos ainda em aberto e para fidelizar os eleitores já conquistados, disseram pesquisadores à Reuters.

A situação levou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a ampliar seus poderes para determinar a remoção de conteúdos falsos das redes sociais na reta final para a votação, logo após o presidente da corte, ministro Alexandre de Moraes, declarar publicamente que o problema piorou na etapa final da disputa.

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A artilharia mais pesada vem do bolsonarismo, de acordo com levantamento da Reuters Fact Check. Entre os dias 3 e 20 de outubro, a Reuters Fact Check e outras sete iniciativas de checagem (AFP Checamos, Aos Fatos, Comprova, Estadão Verifica, Fato ou Fake, Lupa e UOL Confere) desmentiram 67 inverdades sobre os presidenciáveis. Destas, 54 atacavam Lula e 13 miravam Bolsonaro. Predominaram falsidades que acusavam os candidatos de não serem cristãos ou que mentiam sobre planos para um futuro mandato.

“Esses conteúdos ativam nas pessoas a surpresa e o medo, que são sentimentos muito importantes em campanhas políticas, porque, no geral, os candidatos não conseguem se comunicar com os eleitores somente com suas propostas. E os candidatos sabem usar muito bem essa retórica da desinformação, principalmente os da extrema-direita”, disse Yasmin Curzi, pesquisadora do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio.

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Para o coordenador do Observatório da Desinformação Online nas Eleições de 2022 da FGV Direito SP, Alexandre Pacheco, esta estratégia é voltada para quem não está nem com Lula nem com Bolsonaro -- uma estreita fatia do eleitorado, mas que pode decidir a eleição.

De acordo com pesquisa Ipec divulgada na segunda-feira, apenas 2% dos eleitores se declaram como indecisos. Lula tem 50% das intenções de voto, enquanto Bolsonaro soma 43%, segundo o levantamento.

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“Não parece que as campanhas queiram atingir os militantes, que estão irredutíveis e amplamente engajados. Essa campanha com foco no ataque procura impactar os indecisos, os não engajados e os que sequer decidiram se irão votar. Ela opera na lógica do medo como indutora de tomada de decisão, buscando alcançar esses sujeitos com algo que considerem urgente, como a religiosidade ou a honestidade”, disse Pacheco.

AGENDA CONSERVADORA E RELIGIÃO 

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Nas mensagens que desinformavam sobre Lula, 21 abordavam falsas propostas do ex-presidente, com foco na agenda conservadora e anticomunista. Elas diziam que, caso eleito, o petista supostamente acabaria com o combate às drogas, estabeleceria um controle de gastos à população, criaria banheiros unissex nas escolas e implantaria a “ideologia de gênero”. Outros nove conteúdos falsos buscavam associar Lula ao crime organizado, e oito promoviam desinformação com fundo religioso sobre o petista.  

Todos esses discursos compõem o repertório de “fake news” nutrido pelo bolsonarismo há pelo menos seis anos, segundo Wilson Gomes, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Trata-se de alegações falsas antigas, que têm sido reativadas nas redes sociais com novos elementos, a fim de “satanizar” o adversário às vésperas da votação.

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“As 'fake news' funcionam para espantar as pessoas de tal maneira que elas não decidam votar em você, mas decidam votar contra o seu inimigo e, por isso, votar em você”, disse Gomes. “Mas, no caso do bolsonarismo, acho que elas servem mais para manter o grupo de pessoas que já estão convertidas, porque reforçam sua identidade e impedem que busquem o contra-argumento.”

Entre os discursos falsos relativos a Bolsonaro, quatro conteúdos verificados acusavam o presidente de manter relações com o demônio ou de atacar os católicos. Os discursos surgiram com o resgate de imagens antigas de Bolsonaro em uma loja maçônica.

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Outros três abordavam supostos riscos para os mais pobres em caso de reeleição. Tais ameaças nasceram de um vídeo publicado pelo deputado federal André Janones (Avante-MG), responsável por incorporar à campanha de Lula uma tática de artilharia digital semelhante à do bolsonarismo, com o uso da linguagem das redes associado à agilidade para aproveitar debates do momento e ataques a adversários.  

“São pessoas que dominam os armamentos digitais e que resolveram levar a guerra para a casa do inimigo. Mas o recurso principal não é a ‘fake news’, é a guerra de informação", diz Wilson Gomes, da UFBA. “Talvez elas tenham chegado tarde demais, porque tem muito pouco voto a ser disputado ainda. Mas a estagnação [do cenário eleitoral] pode significar que teve um efeito, de ter impedido que o outro lado crescesse e corresse solto. Mas isso é especulativo”, disse.  

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Professor do Departamento de Estudos de Mídia da Universidade da Virgínia (EUA), David Nemer disse que o expediente tem pouco potencial de virar votos para Lula, mas pode ajudar a diminuir a abstenção que prejudica o ex-presidente.  

“Essa tática deixou muitos grupos bolsonaristas na defensiva, o que pode fazer com que se desmotivem a ‘lutar’ pelo presidente. Por outro lado, ela animou bastante a base de Lula, e isso pode estimular mais eleitores a saírem de casa para votar”, afirmou.

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