Dilma Rousseff sobre coronavírus e crise global: vivemos o momento mais grave da nossa história
Em entrevista à TV 247, a ex-presidente Dilma Rousseff comentou as “medidas tardias” adotadas pelo governo de Jair Bolsonaro para a contenção do coronavírus no Brasil, falou da crise econômica internacional, do petróleo.... Assista
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Guilherme Levorato, 247 - A ex-presidenta Dilma Rousseff conversou com a TV 247 acerca do avanço do coronavírus no Brasil e no mundo e do impacto causado por este fenômeno na economia global. Para ela, este é o momento mais grave da história do País. A ex-presidenta falou ainda da guerra comercial de petróleo entre Rússia e Estados Unidos, de uma possível depressão econômica, da apatia do Congresso Nacional e do STF e da relação da desigualdade social com o agravamento da pandemia de Covid-19.
Dilma afirmou que Bolsonaro é psicopata, que o ministro da Economia, Paulo Guedes, é “cúmplice do vírus”, na medida em que não percebe a gravidade social da doença, e que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, toma atitudes tardias para a contenção da doença. “Talvez esse seja o momento mais grave que nós vivemos nos últimos anos. Veja bem o Mandetta: mesmo que ele esteja tomando medidas tardias, algumas, mas esteja tomando algumas medidas, ele então é diferente do que está acontecendo nas outras áreas, porque o Paulo Guedes é um cúmplice do coronavírus, o Guedes só enxerga a área econômica, ele não enxerga o povo brasileiro de jeito nenhum. Acho que está havendo inclusive um conflito, pelo menos é o que a imprensa diz, entre o Bolsonaro e o Mandetta. Dizem que é porque o Mandetta sentou ao lado do governador Doria, mas eu acredito que é porque, sobretudo, o Bolsonaro é psicopata mesmo, ele tem um ciúme doentio de qualquer atividade que não esteja sob o controle dele, então não tem governo possível”.
Dilma também contou um pouco de sua rotina de isolamento durante a crise do coronavírus. Ela esteve no início de março em Paris, na França, em viagem na qual acompanhou o ex-presidente Lula, que recebeu o título de cidadão honorário da cidade. “Eu vim de Paris no dia 5, então estou desde o dia 6 no Brasil e não apresentei nenhum sintoma e, portanto, acho que o meu período de quarentena acabaria nesta quarta-feira (19). Mesmo assim, desde que eu cheguei eu me coloquei em quarentena. Eu não vi nem minha filha e nem meus dois netos, falo com eles por Skype, por todos os métodos possíveis: telefone, fotografia, porque a mãe deles me manda por WhatsApp… Então estou aqui de fato bem reclusa. Não saio, andei de bicicleta há uns dez dias e ando muito cedo, que é quando não tem gente na pista, em torno de 6h ou 6h30. Vou me manter nessa situação até a resolução, que dizem que será a partir de agosto”.
Não há como conter o vírus se não houver uma seriedade muito grande na ação no sentido da reclusão das pessoas, é o bloqueio do contato interpessoal. Infelizmente é isso, e é isso que ficou caracterizado tanto na China como na Itália, na Itália até menos, porque eles demoraram. Todos os países europeus procuram isso, fecham fronteiras não porque sejam xenófobos, mas porque estão protegendo para não contaminar os seus e os outros, os nascidos naquele país e os que trafegam por aquele país. Então você tem essa situação”, completou.
Dilma Rousseff fez críticas aos poucos testes realizados no Brasil para a confirmação de casos de coronavírus, medida que contraria recomendação da Organização Mundial da Saúde, que orienta examinar mais e mais a população.
“Tem um caso que eu acho que é grave no Brasil, acho que é grave eles não terem providenciado um número suficientes de testes para testar a população e poder ter um controle da gestão dessa pandemia. O que significa? Significa saber quem está e quem não está contaminado, e não é só porque acabou a contaminação um a um e passou para a chamada contaminação comunitária, mas é porque o teste é um elemento fundamental, sejam naqueles que ainda não têm e que podem ter porque são assintomáticos e, portanto, podem sair contaminando todo mundo, sejam naqueles que, por várias razões, têm que ter uma contenção relativa. Por que não tem os elementos para fazer o teste? Essa conversa de que não precisa do teste depois que passou do contágio um a um para o contágio comunitário não é o que aconteceu nos outros países. Quem se deu bem, fez teste. Quem se deu bem controlou a população e conseguiu fazer teste com a população inteira”.
A ex-presidenta destacou a importância do SUS no Brasil, e ressaltou que a pandemia de Covid-19 evidencia ainda mais a desigualdade social no mundo. “Nós temos uma situação muito difícil no Brasil, o Brasil é um país desigual, é desigual até no que se refere a chegada da doença, mas quando a doença se espalha mostra-se claramente qual é o preço que se paga por tamanha desigualdade, porque os ricos agora serão contaminados porque a parte pobre do país não tem proteção de saúde, tem dificuldade até de sobreviver. Todos os países do mundo perceberam isso, veja você que o ídolo do Bolsonaro, que é o Trump, também achava que estava exagerado. Ele está tomando medidas que claramente mostram que ele reconheceu o equívoco e reconhece o desafio imenso que é a questão do coronavírus. Uma coisa sai clara desse processo: o SUS hoje é algo fundamental para o país”.
Dilma ainda citou a corrida do governo Bolsonaro aos médicos cubanos, para que voltem ao Brasil e ajudem no combate à pandemia. Em novembro de 2018, o ministério da Saúde cubano anunciou que deixaria o Mais Médicos em protesto contra Jair Bolsonaro. "O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, com referências diretas, depreciativas e ameaçadoras à presença de nossos médicos, declarou e reiterou que modificará os termos e condições do Programa Mais Médicos, com desrespeito à Organização Pan-Americana da Saúde e ao acordo desta com Cuba, ao questionar a preparação de nossos médicos”, dizia o texto do Ministério da Saúde cubano.
Na última semana, o secretário-executivo do ministério da Saúde, João Gabbardo, afirmou que o governo vai recontratar médicos cubanos para atuarem na cobertura do coronavírus. “Agora estão chamando de volta os médicos cubanos, porque os médicos cubanos eram fundamentais na porta de entrada do sistema de saúde. Qual é a porta de entrada? É a atenção básica, é lá que tinham 11 mil médicos cubanos que, juntos com os outros, formavam os 18 mil que foram responsáveis pelo atendimento que foram responsáveis pelo atendimento de 63 milhões de brasileiros e brasileiras. Eles desmontaram a atenção básica, desmontaram a atenção básica de saúde e deve ter sobrado aqui quantos? 1 mil e poucos? Eles ofenderam esses médicos, médicos que todo mundo reconhece com sendo os principais agentes quando tem epidemias pesadas, como caso da cólera, do ebola. Os médicos cubanos têm grande saber na área de saúde pública. Isso comprometeu a saúde do Brasil desde o dia em que esse senhor chamado Bolsonaro assumiu a presidência da República”.
Desgoverno, pandemia e crise global
Dilma analisou que a pandemia de coronavírus teve fortes impactos na economia mundial, mas destacou que a crise financeira não tem origem no vírus, e sim na política neoliberal. “Um desgoverno em uma pandemia e também um desgoverno diante de uma crise internacional, porque a crise internacional vai ser agravada com a pandemia, mas a raiz dela não é a pandemia. Tem fatores que geraram a crise econômica que são fatores que têm a ver com a política que eles adotaram, então esse é um processo que tem uma repercussão profunda quanto ao desgoverno. Além de medidas sociais, teriam de ter medidas de recuperação de investimento público, porque no momento em que o investimento é completamente pró-cíclico, ou seja, nenhum investidor privado investe neste momento, não investe porque tem coronavírus, não investe porque tem crise política e não investe porque tem crise econômica, só o Estado tem essa capacidade de investir pró-ciclicamente”.
“Está claríssimo que o investidor internacional não está nem aí para reformas. O que o investidor internacional quer é um país que tenha uma certa estabilidade política e econômica, e esse País não tem, e não são reformas que darão estabilidade política e econômica, é a recuperação da atividade e o fim do desemprego. Fico espantada quando as medidas que o governo toma não contemplam o desemprego”, complementou.
Ela também disse acreditar que a pandemia causará uma reversão no neoliberalismo. “Acredito que vai haver uma grande reversão nessa política neoliberal, grande reversão. Vai haver reversão até porque vai haver uma quantidade expressiva e explícita de mortes, vai ficar muito palpável o caráter desumano desse modelo. Então haverá uma pressão imensa, é como se você saísse novamente da Segunda Guerra Mundial, você tem perdas de vida. É a maior pandemia que o mundo enfrentou, e quando se enfrenta pandemia está uma coisa em questão, que é para qual nós temos que dar todas as respostas: as vidas humanas. Se um sistema não responde às vidas humanas ele fracassou. Imagina aceitar que seu pai, sua mãe, seus avós, estão doentes e não podem ser atendidos porque não tem capacidade para atender todo mundo. Você aceitaria? Então esse é um processo que vai deixar grandes marcas na visão que as pessoas terão sobre o que é uma comunidade, o que é uma sociedade, o que é um país e o que é um regime econômico, para quê existe. Isso eu acho que é o que está em questão nessa pandemia”.
A ex-presidente Dilma Rousseff falou ainda do golpe parlamentar de 2016 e da apatia do Congresso Nacional e do STF diante do ocorrido, da briga comercial pelo preço do petróleo entre Rússia e Estados Unidos, do mito do “Brasil está quebrado”, do desrespeito de Bolsonaro aos jornalistas e do encontro que teve, juntamente com o ex-presidente Lula, com o economista francês Thomas Piketty.
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