“Conflito de interesses cuspido e escarrado”, diz Lenio Streck sobre offshore de Guedes

"Nenhuma conduta pública pode beneficiar o âmbito privado de qualquer funcionário. Mas o Brasil parece não dar bola para isso”, explica o jurista ao Brasil 247

Lênio Streck e Paulo Guedes
Lênio Streck e Paulo Guedes (Foto: Reprodução | Alan Santos/PR)


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Por Paulo Henrique Arantes, para o 247 - Diante dos Pandora Papers, os jornalões e suas edições digitais correram para explicar que Paulo Guedes não infringiu a lei ao manter recursos milionários nas Ilhas Virgens Britânicas, que apesar do nome não primam exatamente pela pureza. 

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, não mereceu a mesma atenção, talvez por ser menos histriônico que o ministro da Economia e soar, quando abre a boca, menos cruel com os cidadãos desabonados. O fato é que ambos lucraram com o câmbio apreciado, que, para Guedes, “representa problema nenhum, zero”. 

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À luz do Direito, contudo, não se deve sair isentando o ministro com tanta afoiteza.

“Trata-se de uma questão chamada Republicanismo (ou a falta de), da relação entre o privado e o público. Nenhuma conduta pública pode beneficiar o âmbito privado de qualquer funcionário. Mas o Brasil parece não dar bola para isso”, explica o jurista Lenio Streck ao Brasil 247. “Há uma histórica mistura entre o jardim da casa e a praça, como já disse um antropólogo”, sublinha.

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Segundo Streck, ainda que o Paulo Guedes não tenha operado a empresa que possui no exterior enquanto ocupa o Ministério da Fazenda, a empresa é dele. “Como é uma empresa que trata tudo em moeda estrangeira e o Guedes tem lá uma considerável fortuna em moeda que não é o real, parece óbvio que qualquer movimento aqui, por parte dele, mesmo que sem qualquer intenção, acabe repercutindo nos seus dinheiros lá fora”, constata o professor de Direito. 

A função pública deve seguir a teoria da aparência, vale lembrar. Na Europa, por esse princípio atua o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos no tocante à verificação da imparcialidade dos juízes. “É como a mulher de César: tem de parecer séria, além de ser. Guedes deveria ter se afastado. Ética não é estética. Trata-se de conflito de interesses ‘esculpido em carrara’ (ou cuspido e escarrado), porque o ministro da Economia trata diretamente de câmbio, e câmbio afeta seus interesses no Exterior. Simples assim. Ou bem complexo!”, conclui Streck.

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Para o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, uma investigação do caso possivelmente revelará sonegação de impostos e evasão de divisas. “O que não dá é para fingir que está tudo bem quando o ministro da Economia e o presidente do Banco Central, que controlam a política cambial, estão lucrando com ela”, observa Aragão.

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