César Calejon: a questão é muito mais profunda do que tirar Bolsonaro da presidência
Autor de dois novos livros sobre o bolsonarismo, o jornalista e escritor avalia que a principal urgência é tirar Jair Bolsonaro da presidência, mas que o modelo de sociabilidade também precisa ser alterado, senão daqui alguns anos teremos o que ele chama de “teocracia evangélica miliciana”. “Essa organização não morre com a queda do Bolsonaro”. Assista na TV 247
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247 - O jornalista César Calejon, que está lançando o segundo volume de ‘Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI’ (Editora Kotter) e ‘Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil’ (Editora Contracorrente), avalia que a principal urgência do Brasil é tirar Jair Bolsonaro da presidência, mas que há algo mais profundo do que isso a ser feito como tarefa: alterar o modelo de sociabilidade que foi construído nos últimos anos.
“Me parece que o bolsonarismo desidratou de uma maneira muito enfática, mas precisa ter muito cuidado nessa medida”, avaliou Calejon, em entrevista à TV 247. “O bolsonarismo é uma expressão mais aguda de um modelo de sociabilidade que precisa ser alterado. De um modelo que está organizado com base em segregação, competição exacerbada, um modelo olímpico que só se destaca quem traz medalhas - que porventura são feitas dos mesmos metais que os bandeirantes buscavam, que é prata e ouro. Então, existe toda uma composição histórica e cultural do qual o bolsonarismo é a expressão mais escrota, aguda e enfática. Mas essa organização não morre com a queda do Bolsonaro”.
“O que eu trago nesse segundo trabalho, ‘tempestade perfeita’, eu dou conta no último capítulo de que se a gente continua subvertendo esses processos democráticos, se a gente continua estimulando o dogma religioso, se a gente continua estimulando o processo elitista cultural, daqui a 10, 20, 30 anos talvez a gente não tenha o bolsonarismo, mas a gente vai formar, o Brasil vai se tornar o que eu chamo de neste trabalho de uma teocracia evangélica miliciana. Então, para muito além de 2022, a necessidade mais urgente é tirar o Bolsonaro da presidência da República e, caso ele não seja impeachmado, que ele seja derrotado de uma maneira muito enfática nas urnas no ano que vem. Mas a questão é muito mais profunda do que isso”, prosseguiu.
Discurso de Luiz Fux
Calejon também criticou o tom moderado do discurso do presidente do STF, Luiz Fux, contra as ameaças golpistas de Jair Bolsonaro, feitas no mesmo dia de sua entrevista. O jornalista lembrou que Fux apoiou a Lava Jato e que, após a desmoralização da operação, o magistrado se vê obrigado a manter uma postura discreta. Três dias depois, Fux elevou o tom contra o presidente, rechaçou as ameaças contra a instituição e cancelou uma reunião que haveria entre os chefes dos três poderes.
“Tem uma única frase que dá conta de endereçar essa reflexão, que é ‘In Fux We Trust’. Ou seja, o Fux é um lavajatista de carteirinha. Tem uma boa parte da nossa direita liberal, que de muitas maneiras é reconhecida como social-democracia, acreditou em sangrar o PT e assumir o poder e ir tocando a vida nessa medida. Quando isso não acontece, essas pessoas se veem entre a cruz e a espada, porque boa parte da direita liberal era lavajatista e boa parte do Judiciário brasileiro, incluindo o Fux, era lavajatista. Na medida em que o lavajatismo sangra, em ampla medida por conta das revelações do Delgatti, figuras como o próprio Fux, alguns outros juristas e boa parte do empresariado brasileiro, que tinha a pretensão de assumir o poder por essas vias, fica órfão”.
A ausência do lavajatismo, sustentou Calejon, obrigou também os veículos de imprensa a agir da mesma forma. “Então, o que a gente está vendo é uma expressão muito sintomática dessa elaboração que se formou em virtude da ausência do próprio lavajatismo. Não me surpreende que o Fux esteja agindo dessa maneira. Não me surpreende que o Estado de S.Paulo e os veículos liberais estejam agindo como de fato estão agindo. Essa gente é parte do problema. A direita liberal, o Estado de S.Paulo e algumas outras mídias hegemônicas foram artífices do golpe parlamentar de 2016, foram peças centrais no sentido de impedir o Lula”.
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