Celso Amorim prevê que Lula reabrirá embaixadas na África e no Caribe e discorda de missão no Haiti
"Lula ele vai reabrir, sim, as embaixadas na África. E vai reabrir no Caribe", afirmou o ex-chanceler
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Por Denise Assis, para o 247 - Um dos momentos de grande emoção na carreira do embaixador e ex-chanceler Celso Amorim, conforme já revelou, foi quando na “porta do não retorno”, em Benin, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pediu perdão aos que ali embarcaram rumo ao Brasil, para nunca mais voltar ao continente africano.
Agora, na condição de integrante do grupo de transição de Relações Exteriores, e ao participar, nesta quarta-feira (30), no Brazil Africa Forum 2022, em São Paulo, conforme noticiou o jornalista Jamil Chade, ele afirmou que o continente africano "será prioridade de Lula". O Brasil estará de volta no mundo e na África". Amorim reiterou a declaração em conversa com o 247, repisando a importância da reabertura, não só das embaixadas na África, como também no Caribe.
Celso Amorim é membro do grupo de transição e conselheiro (por enquanto, informal) de Lula, para geopolítica e considera da maior importância reabrir as representações, por tudo o que significa a reativação dessas relações, como também “nas disputas nos diversos organismos internacionais, pois representam muitos votos”.
Para ilustrar, foi buscar na memória a eleição de José Graziano, no início do governo Dilma, um estudioso da questão da segurança alimentar, para a FAO. “A gente jamais teria elegido o José Graziano, por exemplo (julho de 2011), na primeira vez. Na reeleição ele já tinha muito nome. Claro que tem a competência dele, o programa que ele desenvolveu no Brasil de segurança alimentar, tudo isso, tem, mas as pessoas que votam não estão pensando nisto. Estão trocando voto. E nós tivemos praticamente a unanimidade do Caribe. São 15 ou 16 votos, sei lá”
Considerou, ainda, um programa que desenvolveram no Caribe, fundamental para esse apoio. “Nós tínhamos feito um programa estratégico com o etanol. Isso no Caribe, porque na África foram outras coisas. As pessoas se queixam de que Cuba e Venezuela tem muita influência, mas são os únicos com embaixadas em todos os países, então é mais que natural que o Brasil tenha também. Não sei se serão todas reabertas, mas o número enorme do que foi fechado não tem cabimento”, reage.
Só em 2020 o governo Bolsonaro encerrou as atividades das embaixadas em Freetown (Serra Leoa) e Monróvia (Libéria). Os serviços foram deslocados para a embaixada do Brasil em Acra (Gana) no continente africano e no mesmo ano Bolsonaro também fechou embaixadas no Caribe: Saint George's (Granada), Roseau (Dominica), Basseterre (São Cristóvão e Névis), Kingstown (São Vicente e Granadinas) e Saint John (Antígua e Barbuda). As funções diplomáticas desta região foram acumuladas em Bridgetown (Barbados), uma redução brutal de influência na região do Caribe.
Amorim imagina que dada à condição atual, descrita por ele como de “descalabro financeiro”, pode ser que a reabertura das embaixadas não se dê de uma vez só.
“Eu não posso falar pelo governo, pois nem eu não estou nomeado para nada, assim como ninguém está. Nem sei se serei, mas pelo que eu conheço do presidente Lula ele vai reabrir, sim, as embaixadas na África. E vai reabrir no Caribe. Agora, se vai reabrir todas eu não sei. Também a situação de descalabro financeiro é imensa”, avaliou.
No seu entender, esse pode ser um processo por etapas. “Eu espero que possa abrir, mas eu creio que possa ser gradual. Eu acho que poderia ser imediato. Tem inclusive países importantíssimos na África. Um exemplo: Ruanda e Gâmbia. Eles têm vários organismos internacionais, o Banco Africano (Banco Africano de Desenvolvimento), e tem também Quênia. Hoje em dia a Turquia tem mais embaixadas que o Brasil”, resumiu.
Amorim não se furtou a comentar também o convite feito pelo ex-secretário de Estado americano, John Kerry, ao presidente eleito, Lula, durante a Cop27, no Egito, para que o Brasil participasse de uma nova missão no Haiti, mas Amorim disse não achar uma boa ideia. “Eu até agora não sei de nada. Que eu saiba nunca ninguém nos procurou oficialmente. Ouvi comentários de que o assunto poderia ter sido tratado com lá pelo John Kerry, com o Lula, no Egito. Eu não vejo com bons olhos uma nova ida do Brasil para o Haiti. Não é nem pelos motivos que muita gente vê, que eu acho que não tem nada a ver com o que houve aqui no Brasil”.
Há quem considere que o Haiti foi o que levou a intervenção aqui. “É bobagem. Mas eu acho que o Brasil se engajou muito (na relação com o país) e não foi correspondido. Você só resolve o problema do Haiti, se resolve, ou pelo menos reduz o problema, com muito investimento na área econômica e isso não foi feito. Então, esperar que isso vai ser resolvido com forças internacionais é a mesma coisa que esperar resolver os problemas da Rocinha com Polícia”. E esclareceu: “pode ser até que em certos momentos você precise também da Polícia, por que não? Mas tem que ter um programa, tem que ter um programa, por exemplo, de Educação”.
Segundo Amorim, “o Brasil mandou 40 milhões de dólares na reconstrução, depois do terremoto (2010) e a ideia era contribuir para um projeto estruturante, que era uma barragem, porque o grande problema do Haiti, com graves consequências sociais é a falta de energia. Tem até uma parte lá, da burguesia, que explora os geradores, com petróleo importado. O pedido do presidente (Préval (René Préval), era este”.
Naquela época o Brasil enviou recursos para ajudar na construção da barragem, mas contava com a participação de outros parceiros. “O Brasil não tinha condições de construir sozinho – ela custava 180 milhões, depois até aumentou para 200 milhões – nós pusemos 40 milhões, muito dinheiro. E ninguém mais pôs, então acabamos usando os recursos para outras coisas, projetos meritórios, como merenda escolar, agricultura familiar, mas não foram projetos estruturantes, como seria a barragem”, lamenta.
Depois desse episódio, a situação política pesou nas decisões de mais ajuda: “também a eleição que se seguiu ao Préval, depois do terremoto, é uma eleição suspeita, sempre, o interesse das grandes potências acabou predominando. Eu acho que teremos que ter muitas garantias para participar lá. Teria que ser de outra forma. Não pode ser uma força multinacional. Isto teria que ser muito bem planejado antes”, concluiu.
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