Celso Amorim: "não me reconheço neste país de Bolsonaro"

Ex-chanceler Celso Amorim reagiu com indignação à mistura entre a diplomacia brasileira e questões religiosas em um país laico, ao comentar a indicação do bispo e ex-prefeito do Rio Marcelo Crivella à Embaixada da África do Sul

Celso Amorim, Jair Bolsonaro e Marcelo Crivella
Celso Amorim, Jair Bolsonaro e Marcelo Crivella (Foto: Felipe L. Gonçalves/Brasil247 | ABr)


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Por Denie Assis, para o Jornalistas pela Democracia 

Funcionário de carreira aposentado pelo Itamaraty, o embaixador e ex-chanceler, Celso Amorim, está em estado de perplexidade permanente. “Eu não me reconheço neste país de Bolsonaro”, exclama. 

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Amorim foi um crítico severo dos desatinos cometidos na gestão de Ernesto Araújo, (cujo nome nem vale a lembrança), e seu espanto só aumentou devido aos últimos acontecimentos. Respondendo a processo que o impede de deixar o país ou portar o passaporte,  o ex-prefeito do Rio e bispo da Igreja Evangélica, Marcelo Crivella, foi indicado neste início de semana, por Bolsonaro, para ocupar o cargo de embaixador do Brasil na África do Sul, onde já esteve como missionário, por 10 anos. 

O ex-prefeito, ex-senador e bispo licenciado, Marcelo Crivella, é sobrinho de Edir Macedo, seguidor da doutrina pentecostal. Macedo ramificou os “negócios” de sua igreja para a África do Sul, onde vários pastores de sua igreja foram expulsos de lá, recentemente, acusados de lavagem de dinheiro.

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Na época, a relação de Macedo com Bolsonaro chegou a ficar estremecida, com o líder religioso o acusando de não dar muita atenção ao problema. Numa evidente tentativa de minimizar a querela Bolsonaro achou de se sair com esta novidade. 

A indignação do ex-chanceler Amorim é pela mistura entre a diplomacia brasileira e as questões religiosas, em um país laico. Ele nem sequer entrou no mérito da qualificação ou não de Crivella para tal função. Na sua opinião, “o país deixou de ser uma República. Quando você coloca um bispo evangélico para ser embaixador... E não por ser evangélico, mas por ser bispo. Quando você não respeita a hierarquia militar e impõe um silêncio por 100 anos”...

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Celso Amorim não completa a frase, mas fica implícito que a sua impressão sobre o episódio “Pazuello” é a pior possível. 

“Quando é que tivemos um bispo da Igreja católica nomeado embaixador?”, quer saber. “Com toda o conservadorismo de um D. Jayme de Barros Câmara e dos demais conservadores que Getúlio (Vargas) cultivava, e tantos outros presidentes, há uma separação entre a Igreja e o Estado. Qualquer Igreja. Uma coisa é você prometer o outro  mundo, a outra coisa é o Estado, o país. Se você vai operar na área de foguetes, ou se vai fazer um acordo na área de livre comércio, é totalmente diferente. Então eu acho uma coisa lamentável e, digamos, uma falta de apreço pelo Estado”, considera. 

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Amorim, não poupa também o perdão a Pazuello e o sigilo imposto pelos seus hierarcas ao caso, em que aponta o desapreço pelo Estado. “Já tinha sido demonstrado na situação do Pazuello (general Eduardo Pazuello). Uma falta de apreço pelas instituições do Estado. Uma coisa que não vimos nem nos militares da ditadura. Tivemos muitas coisas ruins, a gente sabe. Mas nem eles demonstraram esse desapreço pelo Estado. O Estado como instituição, onde as pessoas têm que viver em conjunto e que representa os interesses de uma coletividade. Você pode concordar ou discordar da maneira como eles estão vendo esse interesse, mas este desapreço pelas instituições do Estado eu nunca tinha visto na minha vida”, reprova.

Amorim, como sabemos, ocupou o cargo de ministro da Defesa, no governo da presidenta Dilma Rousseff, função que o colocou em diálogo direto com o setor militar. Ainda estarrecido com a decisão tomada pelo Alto Comando do Exército, de impor sigilo por 100 anos ao processo sobre a quebra de hierarquia cometida pelo general Pazuello, e perdoada por Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, o Comandante Geral do Exército,  Amorim repete, ainda incrédulo: “não consigo entender. Não consigo entender. Nem sabia que o regulamento permitia isto. Eu sei que há coisas ainda em sigilo, mas são mais complexas, que envolvem as relações entre países, mas em questões internas, assim, eu não vejo nenhum cabimento”, confidenciou.

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