Uma exoneração do cargo é muito pouco

Não é de hoje que o governo Bolsonaro vem se esforçando para distender o limite do humanamente admissível. Integrantes do governo parecem calcular a medida da alternância entre as provocações infantis e as declarações intoleráveis

Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro (Foto: Isac Nóbrega/PR)


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Não é de hoje que o governo Bolsonaro vem se esforçando para distender o limite do humanamente admissível. Integrantes do governo parecem calcular a medida da alternância entre as provocações infantis e as declarações intoleráveis. A tática do “vamos ver até onde cola” não gerou, até hoje, nenhuma resposta à altura pela opinião pública ou pela comunidade internacional.

Dentre as afirmações que deveriam ter sido respondidas e punidas de imediato estão a homenagem ao torturador condenado Brilhante Ustra, quando o Brasil ainda nem sonhava com o que estava por vir, a conduta no caso Marielle (para não falar nas suspeitas de encomenda do assassinato) e as declarações inqualificáveis sobre as consequências da escravidão no país. Dentre os silêncios estrondosos igualmente inconcebíveis, lembro a falta de reação após a morte da pequena Ágatha. Impossível esgotar a lista de pronunciamentos que deveriam ter sido repelidos desde o início.

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A opinião pública oscila entre o espanto e a indiferença enquanto eles seguem testando as fronteiras do que pode ser aceito. A sociedade civil brasileira (essa estranha categoria) quando não reage com apoio, choca-se ou ridiculariza. Viramos uma sociedade de indignados: a cada notícia, um novo comentário de lástima. “Que absurdo!”; e se passa ao próximo assunto. 

Alguém tem que tomar alguma atitude que explicite de uma vez por todas onde o limite é intransponível. De outro modo, o espaço aberto pela retórica será cada vez mais ocupado por ações criminosas incitadas pela impunidade – coisa que já vem acontecendo.

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Um país como a Alemanha, que foi publicamente afetado pelo escárnio interpretado pelo palhaço da vez, Roberto Alvim, deveria tomar medidas sérias. A Alemanha gasta, internamente, quase 55 milhões de Euros por ano em educação política (2017) só para manter a memória viva de seu passado e estimular o pensamento crítico.

A Alemanha deveria, no mínimo, convocar o embaixador brasileiro em Berlim para prestar esclarecimentos sobre o assunto e o futuro das relações bilaterais entre os países. Sendo o 4º maior parceiro comercial do Brasil, o país poderia ameaçar com a retirada das representações diplomáticas ou com sanções econômicas mais graves. A comunidade internacional deve reagir com mais ímpeto do que apostar em algumas declarações midiáticas se quiser a sobrevivência da delicada ordem internacional em que está inserida. 

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Em 24/02/1920, o homem que parecia uma brincadeira de mau gosto anunciou seus objetivos, lançando em público o programa do seu partido. Dentre os pontos já constavam o expansionismo, a exclusão e perseguição daqueles que não fossem “alemães”, o combate à imigração, a restrição da liberdade de imprensa, o combate às artes e ciências que não correspondessem ao ideal defendido pelo partido, o fechamento de instituições que tampouco fossem consideradas adequadas e a pena de morte. Aquilo que não havia ficado claro no documento de 1920 fora expandido e detalhado em livro, cinco anos depois.

Que a retórica deu espaço à barbárie não é preciso escrever: o resto da história já é conhecido.

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Com todas as considerações para as diferenças fundamentais entre os anos 1930-45 e a década de 2020 e suas correlações de forças específicas, é com horror que assistimos às semelhanças históricas e à brutalidade ignorante do ser humano.

Um Niemandsland que se estabelece quando um limite é testado e esticado pela retórica é rapidamente preenchido pela violência. Temos que nos mobilizar para traçar com clareza o limite.

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