Um “complexo de Israel”, um prefeito intolerante e a transformação do Rio de Janeiro na capital da intolerância religiosa

A doutrina alimentada por esses pastores vê Israel, um país de apenas 73 anos, como o milenar exemplo de estado militarizado em nome de Deus

Painel com reprodução da cidade de Jerusalém na casa do traficante Peixão
Painel com reprodução da cidade de Jerusalém na casa do traficante Peixão (Foto: Reprodução)


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Por Lúcia Helena Issa

Publicado originalmente no site Monitor do Oriente Médio

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A casa impressiona pelo tamanho e pela decoração “religiosa” e foi construída na parte mais alta de uma comunidade conhecida como Parada de Lucas. A forma secreta e inteligente como foi construída, além dos três pavimentos e da piscina, surpreenderam os policiais civis que a descobriram. Mas para quem, como eu, esteve várias vezes em Jerusalém e conhece a história da Cidade Sagrada, cujo rosto conhecido mundialmente é a imagem da linda cúpula dourada, a perplexidade maior é vê-la no painel artístico na casa de um dos traficantes mais procurados e perigosos do Rio de Janeiro.

Álvaro Malaquias, conhecido como Peixão, tornou-se há poucos anos o chefe do tráfico de drogas em Parada de Lucas e construiu uma carreira meteórica feita de armas israelenses, adoração a Israel, criminosos evangélicos,  munições roubadas do Exército, implantação do medo e  drones para monitorar a chegada da polícia.  

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No oceano de ilegalidades, prefeitos criminosos e traficantes evangélicos que sequestraram a Cidade Maravilhosa nos últimos 15 anos, Peixão continua nadando livremente e dominando novos territórios.

A Polícia até tentou capturá- lo. Foram inúmeras as tentativas de jogar uma rede ou enredá-lo em suas próprias. Em vão. Peixão continua ilustrando o Portal dos Procurados, o site oficial da Polícia de um estado empobrecido e destruído pelos criminosos que sequestraram Deus.

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Peixão é apenas um dos criminosos que se intitulam “Servos de Israel”, “Traficantes de Jesus” e outros singelos epítetos.

Peixão é um traficante acusado de vários homicídios, mas pertence ao agrupamento religioso que mais cresceu no Rio de Janeiro nos últimos 20 anos: o dos extremistas pentecostais que se aproximaram de Israel, têm ligações com traficantes de armas israelenses e com a máfia do autointitulado Estado judeu.

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O grupo é imenso e bastante diversificado, pois tem como membros desde criminosos que operam nas comunidades e nos morros cariocas até o ex-prefeito Marcelo Crivella, preso em dezembro de 2020 por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O grupo é formado por milhares de seguidores de uma doutrina evangélica conhecida hoje como “dispensacionalista”.

Trazida dos EUA e um dos braços ideológicos da intolerância, a doutrina evangélica afirma que o retorno de Cristo só virá quando todos os judeus do mundo “voltarem” a Jerusalém, expulsando de suas casas e terras palestinos muçulmanos e até cristãos que vivem na Terra Santa há séculos.

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Para vários pastores evangélicos que entrevistei no Rio, apoiar o total controle judaico da Palestina histórica é “inevitável” para garantir o cumprimento da profecia do retorno de Jesus. É assustador.

Somente uma ideologia excludente e violenta pode explicar o aumento da intolerância religiosa no Rio, os crimes cometidos contra muçulmanos e contra pessoas de religiões de matrizes africanas e as pregações demonizando os palestinos e defendendo a ilegal e criminosa possibilidade de transferência da embaixada brasileira para Jerusalém.

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Pesquisando sobre a doutrina evangélica trazida dos EUA, descobri que os pastores fazem absurda associação entre o Estado de Israel de hoje, fundado em 1948, e a Israel bíblico, de mais de 2500 atrás, afirmando que Israel é o berço da “raça branca”, do “povo escolhido por Deus”, do “Ocidente” e dos valores atribuídos a uma suposta civilização judaico-cristã contra uma “civilização selvagem islâmica”. 

Como se não bastasse, a doutrina alimentada por esses pastores vê Israel, um país de apenas 73 anos, como o milenar exemplo de estado militarizado em nome de Deus, e que mata seus “inimigos”, sejam eles crianças, homens ou mulheres, inspirado nas invasões retratadas no Velho Testamento, como a invasão de Jericó, o assassinato de milhares de crianças da cidade pelos judeus, e a expulsão dos cananeus de sua terra ancestral.

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Foi absolutamente inspirada nesse Israel e na ideia de que Jesus só voltará se os governantes judeus de hoje forem apoiados até mesmo quando matarem milhares de crianças palestinas e expulsarem famílias inteiras de Jerusalém, que nasceu a doutrina do ódio e da expulsão de milhares de pessoas não-evangélicas da comunidade fundada pelo criminoso Peixão, o Complexo de Israel.

O Complexo inclui as comunidades Parada de Lucas, Vigário Geral, Cidade Alta, Brás de Pina, entre outras, totalizando 160 mil pessoas.

Templos afro-brasileiros foram queimados, a cor branca, usada por fieis de religiões como a umbanda e o Candomblé, foi proibida, e idosos católicos relataram inúmeros casos de expulsão e torturas.

O traficante Peixão, inexplicavelmente foragido e jamais encontrado pelos agentes policiais do Rio, e o ex-prefeito Marcelo Crivella parecem viver, para alguém que não conheça de fato o Rio de Janeiro, em mundos opostos, sem nada em comum a não ser a geografia de uma cidade linda e martirizada. 

Mas nada pode estar mais longe do mundo real. Crivella foi eleito, majoritariamente, por líderes milicianos que manipulam milhões de eleitores evangélicos nas comunidades que comandam com mãos de ferro.

O ex-prefeito beneficiou através de decretos e de isenções ficais centenas de pastores evangélicos ligados aos milicianos que se uniram ao traficante que lidera hoje, à distância, o Complexo de Israel.

A administração do ex-prefeito, que só terminou com sua prisão em 2020, foi marcada pela utilização de dinheiro público e pelo aparelhamento da máquina pública para beneficiar pastores e templos da Igreja Universal do Reino de Deus, fundada por seu tio, Edir Macedo, e considerada hoje uma das organizações que mais alimentam a intolerância religiosa, a islamofobia  e os crimes de grupos extremistas cristãos no Brasil.

Marcello Crivella foi preso pela Polícia Civil durante a Operação Hades e sua prisão encerrou um ciclo de quatro anos de crimes à frente da prefeitura de uma das cidades mais bonitas do mundo.

Entre 2017 e 2019, segundo o Tribunal de Contas carioca, Crivella teve suas contas rejeitadas e o endividamento total do município aumentou em R$ 17,6 bilhões para R$ 70 bilhões. O prefeito que mais alimentou a segregação religiosa e o ódio na cidade do rio de Janeiro também escapou por muito pouco de dois processos de impeachment. Um baseado na própria Operação Hades, e o outro, ainda mais vergonhoso, que ficou conhecido como “Guardiões do Crivella”.

 Sim, os “ guardiões do prefeito” eram evangélicos pagos com dinheiro público para constranger as pessoas na porta de hospitais municipais e impedir que elas dessem entrevistas à imprensa denunciando os problemas do setor de saúde. A prefeitura do Rio também foi acusada de promover “censos religiosos” em alguns setores da administração pública. Em agosto, a Guarda Municipal distribuiu um questionário a todo o seu efetivo de 7,5 mil pessoas no qual pedia para que se informasse a opção religiosa do trabalhador.

Em 2017, a prefeitura esvaziou financeira e politicamente diversos eventos ligados a diferentes denominações religiosas, além de desprestigiar manifestações organizadas por setores minoritários da população e já consolidadas como parte integrante da agenda social de um Rio democrático e multicultural, como a Parada LGBTI, entre outras. 

Crivella deixou um rastro de destruição no Rio antes de ser preso. Seu discurso de ódio religioso legitimou os ataques de seus seguidores a centenas de mulheres e homens de outras religiões. 

O Instituto de Segurança Pública contabilizou que, em 2020, as delegacias da Secretaria de Polícia Civil do Rio de Janeiro fizeram 1.355 registros de ocorrência de crimes relacionados à intolerância religiosa. De acordo com os dados, este número equivale a mais de 3 casos por dia em todo o estado, incluindo também os casos de injúria por preconceito (1.188 vítimas) e preconceito de raça, cor, religião, etnia e procedência nacional (144).

O Instituto também registrou casos de ultraje a culto religioso ocorridos no Rio. A injúria por preconceito é o ato de discriminar um indivíduo em razão da raça, cor, etnia, religião ou origem. Já o preconceito de raça, cor, religião, etnia e procedência nacional tem por objetivo a inferiorização de um grupo étnico-racial ou religioso. Esse levantamento geralmente é divulgado na véspera do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa como uma forma de denunciar esses crimes.

Nossa Constituição assegura a todos o livre exercício de culto religioso e a absoluta liberdade religiosa no Brasil. 

Não podemos mais permitir que o Rio de Janeiro e o Brasil se tornem reféns do ódio e de intolerantes criminosos travestidos de guardiões da fé cristã. 

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