Tropas brasileiras deixam o Haiti: balanços atuais e históricos

Tropas brasileiras fizeram intervenção no Haiti por 13 anos. A política externa que parece ser de solidariedade, no entanto, não tem apoio uníssono dos haitianos, e reflete uma postura histórica de invasão estrangeira direcionada ao país com a única revolução de escravizados bem sucedida no mundo

Tropas brasileiras fizeram intervenção no Haiti por 13 anos. A política externa que parece ser de solidariedade, no entanto, não tem apoio uníssono dos haitianos, e reflete uma postura histórica de invasão estrangeira direcionada ao país com a única revolução de escravizados bem sucedida no mundo
Tropas brasileiras fizeram intervenção no Haiti por 13 anos. A política externa que parece ser de solidariedade, no entanto, não tem apoio uníssono dos haitianos, e reflete uma postura histórica de invasão estrangeira direcionada ao país com a única revolução de escravizados bem sucedida no mundo (Foto: Marcelle Felix)


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Tropas brasileiras fizeram intervenção no Haiti por 13 anos. A política externa que parece ser de solidariedade, no entanto, não tem apoio uníssono dos haitianos, e reflete uma postura histórica de invasão estrangeira direcionada ao país com a única revolução de escravizados bem sucedida no mundo.

Consulte qualquer Enciclopédia e indague qual foi o primeiro país livre da América. Encontrarás sempre a mesma resposta: os Estados Unidos. Mas os Estados Unidos declararam sua independência quando era uma nação com seiscentos e cinquenta mil escravos, que seguiram sendo escravos durante um século.

Se você pergunta a qualquer Enciclopédia qual foi primeiro país que aboliu a escravidão, receberás a mesma resposta: Inglaterra. Mas o primeiro país que aboliu a escravidão não foi a Inglaterra e sim o Haiti, que todavia continua expiando o pecado de sua dignidade4. (Eduardo Galeano em artigo: "Haití, país ocupado", in Página 12, Buenos Aires, 28 de setembro de 2011.

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A Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah) chegou oficialmente ao seu fim na última quinta-feira, 31 de agosto. As tropas brasileiras, no entanto, sairão por completo, na prática, no dia 15 de outubro, quando começará uma nova operação chamada Minujusth (Missão das Nações Unidas para o Apoio à Justiça no Haiti), um programa da ONU que se propõe a auxiliar as instituições haitianas.

Para Miguel Borba, historiador, mestre em Relações Internacionais pela PUC, em Ideologia e Análise de Discurso pela Essex e membro do Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), a Minustah é "uma intervenção militar e política internacional destinada a garantir um golpe de Estado dado em fevereiro de 2004 no Haiti, contra um presidente democraticamente eleito, Jean Bertrand Aristide".

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Aristide tentou introduzir reformas sociais no Haiti e cobrou judicialmente a França pela dívida externa imposta pelo país no momento de sua independência. De acordo com Borba, a França, Estados Unidos e Canadá foram responsáveis pelo golpe junto com a elite haitiana em troca de mão-de-obra barata e recursos naturais sem a inconveniência de um governo de centro-esquerda, se traduzindo, portanto em um "sequestro da soberania haitiana".

A missão surgiu com o pretexto de reduzir a violência do Haiti e estabilizar o país politicamente, no entanto, Borba questiona esse discurso afirmando que o país tinha baixos índices de violência, menores do que em cidades como Baltimore ou a capital dos Estados Unidos, Washington. O historiador afirma ainda que a violência aumentou depois da invasão estrangeira.

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As intervenções militares estrangeiras configuram uma tendência histórica direcionada ao país. No intervalo de dez anos, entre 1993 e 2013, houve não menos do que sete missões de intervenção militar enviadas pelas Nações Unidas (ONU) com o apoio da Organização dos Estados Americanos (OEA). "É uma expressão atual do colonialismo e do racismo que constituem as relações entre os centros capitalistas dominantes e as periferias do capitalismo global há pelo menos cinco séculos", argumentou o membro da PACS.

A Minustah foi liderada pelo Brasil, e refletia o interesse brasileiro em ocupar uma cadeira definitiva no Conselho de Segurança das Nações Unidas, e faria o país se projetar como importante ator internacional. Prevista para durar seis meses, a missão se estendeu por treze anos, gastando anualmente 400 milhões de dólares e atingindo a marca de 37.500 militares brasileiros no país ao longo dos anos.

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"Ela durou tanto tempo não tanto por seus êxitos, mas por ser capaz de prolongar seus fracassos e permitir a continuidade de quem se beneficia com isso. As forças armadas brasileiras se reequiparam, muitos oficiais ficaram anos recebendo salários em dólares; as ONGs nem se fala", afirmou Borba. "É um fracasso para os haitianos e haitianas, mas uma fonte de bons empregos e promoções (nos mundos militar, filantrópico, diplomático, acadêmico) para quem faz carreira passando pelo Haiti".

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Manifestação em Porto Príncipe pede saída das tropas da ONU em fevereiro de 2017. Foto de Miguel Borba.
A missão deixa em sua história uma série de controvérsias. Houve denúncias e cobranças de haitianos por conta da epidemia de cólera iniciada em 2010. Não havia registros da doença no país até então, o que aponta para a contaminação do rio por meio das fezes de soldados nepaleses levados pelas Nações Unidas naquele ano, segundo relatório do epidemiologista Renaud Piarroux. A epidemia vitimou 8 mil pessoas e o caso não levou à indenização por parte da Organização.

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Há registro também de ao menos 150 acusações de abuso sexual cometidas pelas tropas da Minustah.

Para o historiador, operações internacionais como essa se beneficiam da exploração da miséria de países periféricos. "Não é coincidência que a MINUSTAH acabe em 2017 junto com a falência do projeto de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) no Rio de Janeiro. Elas são parte de uma mesma política de controle sociorracial sob roupagem discursiva humanitária".

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Borba ressalta ainda que outras intervenções continuarão sendo feitas, "remodelando sempre a mesma política racista e elitista de "segurança pública" em países classificados como "falidos" e cidades ou bairros nomeados como "frágeis". De fato, a Minustah sai e começa uma nova missão realizada pela ONU, a Minujusth.

É importante frisar que a situação atual do Haiti, em termos políticos, econômicos, está fortemente ligada à história do país, que foi a primeira República negra do mundo. O Haiti foi palco da única revolução negra escrava bem-sucedida na história e foi o primeiro país independente da América Latina. Desde sua independência, em 1804, o país, no entanto é alvo de sucessivas intervenções militares intercaladas por ditaduras violentas.

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Embora tenha se tornado independente em 1804, foi apenas em 1862 que o Haiti foi reconhecido como tal pelos Estados Unidos, que, de 1915 a 1934, invadiu o país com intervenções de fuzileiros navais. A resistência formada por uma guerrilha levou a morte de seus líderes. "Não é fácil "estabilizar" 10 milhões de pessoas que conhecem a sua história e sentem orgulho de serem descendentes de Dessalines", explicou Borba. Dessalines foi um dos líderes da revolução de negros no país e se tornou o seu primeiro governante.

Para Ricardo Seitenfus, Doutor em Relações Internacionais, existe uma incapacidade do Ocidente de "aceitar, compreender e conviver com os princípios que regem a independência traumática do berço dos Direitos Humanos Fundamentais" (citado em artigo).

O medo de que a revolução haitiana servisse de exemplo para a libertação de escravizados e a independência de outras colônias criou tendências históricas de entender o país como ameaça internacional. "O Haiti foi historicamente objeto de uma atenção negativa por parte do sistema internacional. Percebido como uma ameaça, é a força que define as relações do mundo com o Haiti e jamais o diálogo". Assim, a instabilidade política do país também é causada pelas constantes intervenções internacionais, segundo Seitenfus.

A Revolução Haitiana fez nascer o primeiro país liberto da escravidão pela luta dos próprios escravizados, e paga até hoje pela sua ousadia. Em nome da liberdade, estima-se que cerca de 160 mil haitianos morreram – além da posterior guerra civil e a destruição do país até então cheio de riquezas.

Os haitianos tiveram que pagar uma dívida bilionária (o que equivale aos US$ 21 bilhões de dólares atuais) por sua independência para a França, o que deixou o país devastado economicamente, além de sofrer embargos econômicos constantes e de se tornar quintal de intervenções políticas e militares. A política externa direcionada ao Haiti, portanto, apresenta-se como um histórico de fracassos e arbitrariedades.

Para Borba, o Brasil precisa assumir a responsabilidade por mais de uma década de intervenção política e militar no Haiti. "Não podemos simplesmente lavar as mãos e ir embora sem prestar contas. O sequestro da soberania haitiana produz sobre seus sequestradores o peso da culpa pela situação lamentável em que o país se encontra hoje". O historiador explica ainda que Venezuela e Cuba ajudaram o Haiti sem intervenções militares. Seu auxílio depois do terremoto de 2010, veio por meio de médicos, professores, agrônomos; construíram praças e viadutos.

A população haitiana resiste superando expectativas, desastres naturais, violências institucionais e a insistente ocupação estrangeira, não sem luta. O Haiti foi uma vanguarda na busca da liberdade no mundo e segue sendo um país de constante resistência, apesar de frequentes intervenções, inspirado no potencial revolucionário de seus ancestrais.

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