Todo lugar de fala é meu se quem fala é um trabalhador
Diferentemente das sociedades europeias, nas quais as democracias liberais, diante do pavor de uma onda de revoltas populares nos moldes da Revolução Russa compreenderam a necessidade de concessões políticas, econômicas e sociais que mantivessem o trabalhador minimamente incluído no sistema, nossa “elite do atraso” não admite perder um milímetro sequer de seus privilégios de classe.
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Um espectro ronda a esquerda brasileira – o espectro do identitarismo de “minorias”.
Esse texto assume o risco de não parecer muito simpático a setores da esquerda brasileira que aderiram ao identitarismo como forma quase que exclusiva de subjetivação política. Antes, é um chamado à reflexão sobre a necessidade de levar em conta o cimento social com potencial de manter unidos amplos setores da sociedade, hoje fragmentados sob a falácia importada das teorias europeias e estadunidenses da percepção de si enquanto grupos “minoritários”, ocupados de suas lutas específicas (étnica, de gênero, regional, cultural) cujo acesso à palavra é determinado pelo que se denomina “lugar de fala”. Por outro lado, não se pretende aqui negar a contribuição dos estudos e processos de mobilização culturais e identitários, uma vez que meu “lugar de fala” é justamente o de quem ministra, há quase 10 anos, a disciplina de Língua, Cultura e Identidade no curso de Letras da Universidade Federal do Maranhão e tem conduzido pesquisas nesse campo, mais específicamente acerca do sujeito do ativismo digital. Não se trata de “uma coisa OU outra”, mas de “uma coisa E outra”.
Jessé Souza há algum tempo nos alerta para a “tolice da inteligência brasileira” em seu afã de importar, de modo quase acrítico, teorias eurocêntricas e estadunidenses, as quais, ainda que com contribuições valiosas ao campo progressista, não dão conta das especificidades de uma sociedade cuja classe dominante se configura como uma “elite do atraso” marcada pela característica escravocrata e pelo ódio aos pobres. É justamente esse ponto que me interessa desenvolver.
Diferentemente das sociedades europeias, nas quais as democracias liberais, diante do pavor de uma onda de revoltas populares nos moldes da Revolução Russa compreenderam a necessidade de concessões políticas, econômicas e sociais que mantivessem o trabalhador minimamente incluído no sistema, nossa “elite do atraso” não admite perder um milímetro sequer de seus privilégios de classe. Como bem nos lembrou a médica negra Suzane Pereira da Silva “a casa grande surta quando a senzala vira médica”. Mas quem é essa imensa senzala que integra o todo da sociedade brasileira? A senzala brasilis, para além de habitada exclusivamente pela maioria negra do país, comporta em si mulheres e homens pardos, índios, LGBTs, periféricos, gordos, magros, baixinhos, carecas, etc... todos unidos por um traço comum: eles não possuem capital! Eles não são donos dos meios de produção (industrial, cultural, acadêmica, comunicacional...) e, com alguma sorte, retiram sua subsistência da venda barata e precarizada de sua força de trabalho à “elite do atraso” ou, pior ainda, se encontram jogados à própria sorte no mundo precário da informalidade laboral ou, se preferirem, são aqueles sobre os quais nos querem fazer representar como “empreendedores”, quando são, de fato, decorrentes do processo de desmantelamento das relações de trabalho, conhecido como uberização.
Tem sido notável a relevância das pautas identitárias desde o maio de 1968 na França e dos movimentos de direitos civis estadunidenses e, nesse texto, não pretendo negar suas contribuições para a construção de um modelo de campo progressista mais plural e democrático, buscando um perfil de esquerda que possa se distinguir dos traços autoritários que perpassaram o regime Soviético. Contudo, esse desejo de negação, sobretudo da figura de Joseph Stalin – apesar de seus erros e desvios, sua importância histórica não pode ser negada, sobretudo em tempos de fascismo à brasileira -, conduziu setores do movimento identitário a uma postura que beira o negacionismo ou, no mínimo, certa negligência com uma das premissas do marxismo: a luta de classes. As mesmas identidades que serviram para dar voz às ditas “minorias” (muito mais no sentido do empoderamento do que no sentido numérico, sobretudo no contexto brasileiro) têm servido também para silenciar e delimitar quem pode falar sobre o quê – o já amplamente difundido “lugar de fala” – enfraquecendo a possibilidade do estabelecimento de laços de solidariedade entre grupos identitários que, ao fim e ao cabo, compartilham em comum sua condição de membros do grupo social que Zygmut Bauman denominou como os “de fora” do capitalismo global.
Isso não significa que o “lugar de fala” não é um aspecto relevante da enunciação sobre a exclusão dos grupos identitários, mas é preciso ter a compreensão da necessidade do estabelecimento de vínculos de solidariedade entre esses vários segmentos da sociedade, dando à alteridade a possibilidade de identificar-se na diferença, de defender tanto causas amplas e compartilhadas no contexto do capitalismo predatório em que vivemos, quanto aquelas de natureza identitária, não necessariamente suas, mas cuja relevância é reconhecida.
Eis o cerne da questão em que pretendo chegar: não somos “minorias” e considero um equívoco essa autodenominação. Ao aderir a essa escolha lexical, damos a inimigos autoritários, como o fascista que ocupa a Presidência da República, o discurso de “maioria”, “democraticamente eleita” pelo “sufrágio universal”, conferindo-lhe autoridade para enunciar que “as minorias que se adequem”.
A título de exemplo, matéria do uol aponta que pretos são 54% da população, constituindo, no entanto, apenas 17% dos mais ricos. Dados do IBGE apontam que as mulheres constituem 51,7% da população nacional e, mesmo sendo maioria entre os portadores de diploma superior, ganham consideravelmente menos que homens. Em ambos os casos, a maioria numérica é subrepresentada nas instâncias de acesso ao capital e, consequentemente, lhes é negado o acesso ao poder.
É emblemática, nesse aspecto, a questão dos povos indígenas dizimados e assaltados de suas terras (meios de produção) e dos pretos, abandonados à própria sorte, agora sem teto nem alimentação e subqualificados para o mercado de trabalho no processo de "abolição", um dos primeiros casos de fake news de nossa história. A pauta racial no Brasil, portanto, para além de mero aspecto identitário, precisa ser compreendida como uma questão estrutural do nosso modelo predatório de (sub)capitalismo.
Meu ponto central é o de que é preciso reivindicar a correção de distorções que levam maiorias a serem silenciadas nas instâncias decisórias da res-publica, cada vez mais administrada como uma res-privada familiar-miliciano-especulativo-corporativa.
Se somente os dados sobre a população preta e feminina apontam para seu aspecto majoritário, sugiro o exercício de imaginarmos o quão majoritária seria aquela que, no âmbito do capitalismo, é a principal das identidades: a de trabalhador assalariado/precarizado.
Creio que seja necessária uma adequação estatística e sociológica do conceito de “movimentos de minoria”, importada de maneira acrítica por parte de nossa intelectualidade (essa "tola inteligência" sobre a qual Jessé Souza se reporta) de modo a ressignificar esses grupos sociais enquanto uma MAIORIA, desde sempre excluída, em busca de seu reconhecimento enquanto tal. Reconhecimento esse implicado, necessariamente, pela conquista das instâncias representativas de tomada de decisões e formulação de políticas públicas do aparato do Estado.
Parafraseando o bom e velho Marx, aquele que uma esquerda pós-moderna parece cada vez mais acanhada em citar: Identidades oprimidas pela falta de capital do mundo todo, uni-vos!
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