Saudades do Brasil: Carnaval bom era em Porangaba, na rua e no salão paroquial

"Das pessoas e dos lugares por onde passei, dos papos furados no bar da esquina, dos fins de semana na praia e no sítio, das minhas filhas pequenas que só via entre uma viagem e outra para fazer reportagens pelos mundões do Brasil, dos meus primeiros fuscas e dos muitos cachorros vira-latas. Neste domingo de Carnaval, voltaram-me à lembrança os bons tempos em que sempre ia para Porangaba nestes dias", relata o jornalista Ricardo Kotscho



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Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia - Ando com saudades do Brasil, sem sair daqui... Tenho saudades de tudo.

Das pessoas e dos lugares por onde passei, dos papos furados no bar da esquina, dos fins de semana na praia e no sítio, das minhas filhas pequenas que só via entre uma viagem e outra para fazer reportagens pelos mundões do Brasil, dos meus primeiros fuscas e dos muitos cachorros vira-latas.

Neste domingo de Carnaval, voltaram-me à lembrança os bons tempos em que sempre ia para Porangaba nestes dias.

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Na pequena cidade de 5 mil habitantes (hoje deve ter um pouco mais), no interiorzão antigo de São Paulo, a hora e meia da capital, o povo humilde tinha o maior orgulho do seu Carnaval.

Era famoso na região, vinha gente das cidades vizinhas, até a Globo de Sorocaba ia lá fazer reportagens.

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Carnaval sem celebridades nem patrocínios, sem grandes carros alegóricos, Porangaba tinha duas escolas de samba: a Verde e Branco, onde desfilavam minhas filhas e seus amigos de São Paulo, e a Vermelho e Branco, que está completando 30 anos de desfiles na rua principal, que atravessa a cidadezinha de fora a fora.

Assistia ao desfile com a família na calçada em frente ao bazar do Jorjão e depois íamos todos para os bailes no salão paroquial.

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Naquela época, todo mundo se conhecia na cidade, e eu ia de mesa em mesa filar uma cerveja dos amigos, onde o papo era sobre o tempo, os filhos, a pescaria, bois e cavalos "insignificantes", ou seja, fantásticos, fora de série.

Sim, "insignificante" era como o Zé Telles, meu caseiro toda vida, se referia aos grandes temporais, ao bezerro forte que tinha nascido, à boa colheita de arroz ou feijão, à produção de ovos ou de leite, dando o sentido inverso à palavra.

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Eu tinha um jipão Willys daqueles compridos, mas quando chovia forte não havia jeito de atravessar a estradinha de terra, dois quilômetros entre o sítio e o asfalto.

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O jeito era seguir a pé no lamaçal para não perder a festa.

Me lembro de uma vez que, na volta do baile, fiquei entalado no mata-burro, o que passou a fazer parte do meu currículo porangabense, entre outras desventuras desse tipo.

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Chovia muito nessa época, o que transformava nossa velha casa num albergue de refugiados, com roupas esticadas na sala, gente dormindo no chão, uma zona.

As meninas sempre convidavam seus colegas de escola, alguns acampavam em barracas, a farra era grande, e eu me divertia no meio daquela bagunça.

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MInha maior felicidade era pegar pepinos e rabanetes na horta, uma cachaça e uma cerveja, chamar o Zé Telles pra conversar e ir para a varanda ver a chuva cair.

Dali dava para ouvir a alegria dos ensaios das escolas, anunciando a chegada de mais um Carnaval.

Na volta dos bailes, ainda dava para ver na TV uma parte do desfile das escolas do Rio e, no dia seguinte, começava tudo de novo.

A comida era feita no fogão a lenha ou numa pequena churrasqueira, uma obra coletiva que, às vezes, dava certo.

Não podia faltar o caldeirão de feijoada aos domingos, preparado desde a véspera, deixando no ar o cheiro bom de lenha queimando e muita fumaça.

Nos últimos dias, tenho pensado muito nesses carnavais antigos, tentando resgatar um pedaço bom da minha história, que foi ficando pelo caminho.

E fico pensando o que fizemos de nós, do nosso país, hoje tão diferente, tão desumanizado, tão intolerante.

Mas logo fico feliz de novo porque meus netos e seus amigos de colégio estão se divertindo no mesmo lugar onde fui muito feliz um dia, sem medo do amanhã. É o ciclo da vida se completando.

Porangaba virou minha Pasárgada. minha Maracangalha, o lugar dos sonhos realizados.

Faz 40 anos que compramos o Sítio Ferino, no bairro do Rio Bonito, que só tinha uma casa de pau-a-pique caindo aos pedaços e restos mortais de um cafezal queimado pela geada.

O resto era pasto pelado, sem gado, o mato crescendo. À primeira vista, não era um cenário bonito, mas custou barato e pude pagar a compra à vista. .

Sem água e sem luz, dormíamos no carro ou num pequeno galpão e, aos poucos, ano a ano, foi brotando ali um sítio muito bonito, graças aos braços da Mara, do Zé Telles e, depois, do seu filho mais novo, o Lourival, que nasceu ali.

Também escrevi ali alguns dos meus livros e fiz muitos planos. Hoje tem água da Sabesp, luz e até pega celular.

Foram entrando em cena três bosques, um açude de respeito, que para mim parece mar grande, dois pequenos lagos, vários pomares, horta, galinheiro, duas casas boas, piscina de alvenaria e muitas outras benfeitorias.

Nas marés da vida, a paisagem mudou, Porangaba cresceu um tantinho, muitos bons amigos de lá já se foram, e agora tenho ido pouco ao sítio porque as pernas já não ajudam.

Pular no carnaval, então, nem pensar... Nem sei se ainda tem o salão paroquial...

E aquele mata-burro continua no mesmo lugar, a me lembrar dos perigos dos dias de chuva.

Vida que segue.

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