“Salvar a economia” foi discurso na pandemia. Mas por que não foi na Lava Jato?

"Não funcionou o 'salvar a economia' na Lava Jato justamente porque o que estava por trás da operação era o esfacelamento do nosso parque produtivo local e de um projeto soberano e nacional de desenvolvimento", diz a colunista Juliane Furno. "A operação Lava Jato foi uma resposta a uma política exitosa de condução soberana do setor de petróleo e gás"

Plataforma de petróleo, Sérgio Moro e Deltan Dallagnol
Plataforma de petróleo, Sérgio Moro e Deltan Dallagnol (Foto: Reuters | ABr)


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Recentemente ouvi o economista Eduardo Moreira fazer esta pergunta em relação à reação conservadora ante as políticas de isolamento social contra a pandemia e resolvi tentar respondê-la, aproveitando o ensejo sugerido pelos acontecimentos recentes, após novos vazamentos do The Intercept a respeito da cooperação entre o FBI e procuradores do Ministério Público Federal (MPF) do Paraná e a atual disputa entre a força tarefa da Lava Jato e a Procuradoria Geral da República (PGR).

Que a operação Lava Jato, do ponto de vista jurídico, atuou relativizando diversas garantias constitucionais e como um Partido político, parece ter ficado bastante explicitado – principalmente após os últimos vazamentos de mensagens. O agora ex-juiz Sérgio Moro não apenas investigava, bem como orientava Procuradores da Repúblicas sobre como proceder nos casos de investigações de Operação da qual ele próprio figurava como juiz.

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No entanto, um tema pouco trazido à baila parece ser que a operação Lava Jato não apenas cumpriu sua missão de criminalizar o PT, como foi cirúrgica no desmonte de um importante setor da economia brasileira. 

Da forma como foi conduzida a operação, fica perceptível que o interesse da “República de Curitiba” não era acabar com a corrupção, senão que destruir um dos nossos maiores patrimônios, que é a Petrobras e toda a cadeia produtiva de empresas nacionais a ela relacionada.

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Neste caso, para os conservadores que bradam contra o isolamento social, evocando “a defesa da economia, empresas e empregos” não valeu a máxima “primeiro precisamos salvar a economia”.

Sob a denúncia de que os totais extirpados da Petrobras nos diversos esquemas de corrupção somavam os vultuosos R$ 6 bilhões, operou-se uma paralisia que retirou da economia, segundo dados, nada menos que R$ 146 bilhões entre 2014 e 2015. Do ponto de vista da contração do emprego não foi diferente. Neste mesmo período, o setor da Construção pesada dispensou um milhão de trabalhadores diretos, resultado da paralisia das atividades, principalmente, dos setores metalomecânico, naval, construção civil e engenharia pesada.

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Os dados dessa tabela, considerando apenas os trabalhadores diretamente vinculados a produção industrial e de serviços de engenharia entre as empresas fornecedoras da Petrobras dá a tônica do escândalo. Entre 2014 e 2016, enquanto o desemprego elevou-se 6% no Brasil, o desemprego entre trabalhadores da produção de empresas fornecedoras da Petrobras despencou 31%.

Aos trabalhadores contratados diretamente na atividade industrial e de serviço especializado estão relacionados, pelo menos, mais uma diversidade de trabalhadores, alocados nas atividades de apoio, como secretários, contadores, faxineiros entre outros.

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Assim, aos dirigentes da operação, bem como aos setores que acriticamente a apoiavam, pouco importava que os impactos econômicos e sociais da desastrosa ação anticorrupção fossem muito mais danosos aos cofres públicos do que a parcela alienada em contratos superfaturados. Valia qualquer coisa para retirar o Partido dos Trabalhadores da arena política e “combater a corrupção”. Ao não separar a Pessoa Física da Pessoa Jurídica, buscou-se “combater a corrupção” sem levar em consideração a função social da empresa e sua preservação, no transcorrer de investigação criminal que a envolvesse.

O resultado da criminalização e do punitivismo com que foi levada adiante a operação Lava Jato – à revelia das garantias legais do processo penal e com apoio de setores da mídia – nos logrou como herança a destruição do mercado nacional de infraestrutura e a abertura de condições plena a sua internacionalização. Bom negócio para outras empresas concorrentes, que por coincidência, são de residentes do país que se descobriu amalgamado e relações indecentes com os nossos procuradores.

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Assim, a Lava Jato, além de servir como sustentação política ao processo de criminalização do PT e inviabilização do seu principal candidato por meio da instrumentalização da Justiça, também operou como preposto aos interesses estadunidenses e de suas empresas, atuando para destruir um dos pilares do desenvolvimento econômico brasileiro recente e dos poucos setores não primarizados onde detínhamos níveis de competitividade internacional.

Não funcionou o “salvar a economia” na Lava Jato justamente porque o que estava por trás da operação era o esfacelamento do nosso parque produtivo local e de um projeto soberano e nacional de desenvolvimento. A operação Lava Jato foi uma resposta a uma política exitosa de condução soberana do setor de petróleo e gás. Foi uma resposta à atuação, inclusive internacional, das construtoras brasileiras e uma resposta – tipicamente assentada no imperialismo yankee – de “cortar” as assas de governos que ultrapassam a tênue linha da autodeterminação nacional.

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Na pandemia, o argumento "em defesa da economia", no entanto, serviu a toda espécie de reacionarismo e obscurantismo que em última instância servem, como sempre, a obstrução do nosso desenvolvimento. Na medida em que por meio dele se negou a gravidade do problema e a necessidade do Estado intervir, para salvar empregos e empresas, como deveria ter feito aliás, ao tempo da ilegal e desastrosa operação.

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