Racismo como religião
Só não podemos esquecer do racismo nosso de cada dia! Essa religião nacional, sutil e potente que respiramos, comemos, lemos, vemos, assistimos, saboreamos, que nos faz, refaz e perfaz constantemente e que, definitivamente, não nos dispensa em instante algum
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E essa da atriz Thaís Araújo de denunciar o racismo brasileiro em um evento realizado em São Paulo? Onde já se viu isso? A também atriz Marieta Severo entrou na onda e escancarou o racismo de todo o dia contra seu neto, Francisco Brown; o que, por sinal, já fora, tempos atrás, feito pelo seu ex-marido, o cantor e compositor Chico Buarque.
Faz pouco tempo que o ator Bruno Gagliasso havia corajosamente "rasgado o verbo" contra o racismo desancado contra sua filha adotiva, uma criança negra e que, segundo o mesmo, deu novo rumo e sentido para sua vida.
Algo em torno de trinta mil jovens negros são assassinados anualmente no Brasil. As policias, brigadas, guardas e batalhões do país os executam aos montes, em série, em escala industrial e com a nobre "certeza do dever cumprido". Para essa épica e ininterrupta limpeza étnica são evidentemente, promovidos, recebem medalhas, patentes e ganhos salariais. E tudo na nossa cara, com nosso aval, benevolência e vistas grossas.
Essa álgebra de sangue implica, vejamos, em algo como oitenta e dois assassinatos ao dia; ou quase quatro mortes por hora. Não é impressionante? Isso representa uma morte a cada quinze minutos.
Uau... Nem a Síria, Bagdá ou a Faixa de Gaza são tão eficazes. Que Estados Unidos que nada... Nós somos os mestres, os senhores da guerra do mundo! Nada se compara com o Brasil! NADA!
E não vai parar! Não tem porquê parar; nada indica, aponta ou viceja que esse genocídio irá chegar a termo. É uma guerra de civilizações. É que matar gente negra dá dinheiro... Muito dinheiro! Garante poder, força, território e liderança.
Gente negra mete medo; sua religiosidade milenar de fecunda interação com a natureza; que celebra a existência, a liberdade do ser e que tudo fascina, promove e exulta; que confere centro e unidade para o corpo e a mente entre danças, gingas e atabaques, não tem jeito, mobiliza todo o chauvinismo brasileiro, ergue titãs fascistas neste "patropi"; elege bancadas inteiras de senadores e deputados federais e que abertamente, bem sabemos, cerram fileiras contra negros, gays, feministas e a juventude.
O racismo como definitiva instituição da própria fundação brasileira conforma formas políticas; produz ajuntamentos, unidade e gera discursos, evidentemente, de ódio, segregação e muita apartação.
É bom recordar que muito do ódio ao Lula (a palavra é mesmo ódio!) é porque ele conseguiu incluir algumas minúsculas frações do povo negro nos propalados cursos de medicina, nas engenharias, nos concursos públicos e os afastou um pouco da senzala brasileira, ao fim, a principal arquitetura simbólica e societária do país.
Uma das principais estrategias contra o genocídio afro-brasileiro seria investir em políticas públicas civilizacionais como moradia, acesso perene a saúde e a educação de qualidade, uma definitiva política de segurança alimentar para todas as pessoas, enfim, esse movimento de resgate do humano brasileiro como política de Estado e em operação, ao menos, por cinquenta anos, poderia, talvez, estancar a sangria aberta a bala, quem sabe pela fome, pelo desemprego ou pelo desespero puro e simples de nossa gente negra.
Só não podemos esquecer do racismo nosso de cada dia! Essa religião nacional, sutil e potente que respiramos, comemos, lemos, vemos, assistimos, saboreamos, que nos faz, refaz e perfaz constantemente e que, definitivamente, não nos dispensa em instante algum.
Ainda bem que temos William Waack, Merval Pereira, Ali Kamel e Marco Antonio Villa a nos lembrar de que "racismo não existe" nesta terra. Pura "invencice" de preto magoado. Ao trabalho!
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