Qual é a alternativa?
Um ensaio sobre a crise da sociedade atual
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Ensaio de Dwayne Fish (aka Mr. Fish) originalmente publicado no Scheer Post em 26/10/22. Traduzido e adaptado por Rubens Turkienicz com exclusividade para o Brasil 247
“Jamais discuta com pessoas estúpidas. Elas vão lhe arrastar ao nível delas e vencerão você pela experiência” – Mark Twain
Em 1992, o falecido grande comediante Bill Hicks, facilmente um dos críticos mais visceralmente recalcitrante da política externa dos EUA, da brutalidade policial e da duplicidade da cabeça de mingau cristã, foi um destaque na produção da BBC2 intitulada Funny Business: A Question of Taste [Negócios Estranhos: Uma Questão de Gosto] que perguntou quando um artista deveria evitar o uso da linguagem vernacular que é franco demais na sua crítica ao governo, à igreja ou às mais açucaradas pressuposições da cultura dominante. Exausto pelo argumento familiar que é frequentemente levantado contra os ‘stand-ups’ [comediantes solos] que usam o humor para apresentar ideias contrárias que podem ser mal interpretadas como sendo anarquistas ou ideias blasfemas – i.e., que poderiam envolver o ouvinte de alguma maneira e tirá-lo de um papel de espectador para um papel participativo – Hicks interrompeu a insistência do entrevistador que as pessoas não vêm aos clubes de comédia para pensar, ao dizer “Puxa, onde é que eles vão para pensar? Eu os verei lá.”
Na esperança de reafirmar a legitimidade da sua posição com volume sobre substância, a entrevistadora, então, interrompe Hicks e diz: “[O público] não quer pensar, eles querem rir”” – ao que Hicks respondeu: “O que eu devo fazer, ir lá e fazer cócegas em cada membro do público individualmente? Nós temos que expressar ideias na arte”. Quando a entrevistadora finalmente propôs que os comediantes algumas vezes devem se autocensurar, em deferência ao bom gosto, porque se exige de um artista – como o resto da população relegada aos espaços apertados localizados nas camadas baixas cada vez mais superlotadas da hierarquia – que tenha os meios para saber quando ter limites quando falar verdades para aqueles que não ensaiaram para ouvi-las; um exasperado Bill suspirou e perguntou, cansado: “Posso sugerir alguns malabaristas que você possa gostar?”
Infelizmente, isto é onde nós estamos agora enquanto uma cultura, cercados pela perturbadora farsa burlesca de palhaços inarticulados fazendo malabarismos do nosso destino comum, como ovos crus, enquanto nós estamos confinados aos nossos assentos e somos instados a nos sentarmos sobre as nossas mãos, antecipando uma cascata sem fim de respingos medonhos.
Obviamente, esta não é a primeira vez que o nosso país enfrenta a desintegração apocalíptica. Considere o final dos anos de 1960, por exemplo: um período famoso pelas suas agitações políticas e culturais, quando cada dia parecia turbulento e terminalmente combustível, quando o otimismo se sufocava próximo da morte na fumaça implacável do descontentamento sísmico a cada dia. Um presidente impopular estava sentado na Casa Branca, enquanto o seu partido controlava ambas as casas do Congresso dos EUA e os seus críticos, no país e no exterior o ridicularizavam como sendo um fascista e um idiota. Havia rumores que a espionagem russa estava puxando inúmeros fios de manuseio de marionetes, secretamente costurados no tecido nacional, enquanto atletas profissionais demonstravam o seu apoio para a luta dos negros contra a supremacia branca e foram banidos de competições ulteriores. As manifestações de massas feitas por pessoas que se opunham à guerra, a discriminação, a censura e as desigualdades de renda superlotaram as ruas e interrompeu o tráfego. Políticos caricaturais sopraram apitos racistas para cachorros e ganharam eleições depois de apelarem aos eleitores tornados estúpidos pela frustração sobre a noção empoderada por brancos que as pessoas de pele marrom estariam prestes a se tornarem seus vizinhos e de tomarem os seus trabalhos e de estuprarem as suas filhas e, pior ainda, roubarem os seus aparelhos de televisão. As pessoas LGBTQ estavam exigindo respeito equalitário e a descriminalização dos seus estilos de vida, enquanto as mulheres manifestavam-se furiosamente contra a misoginia tateadora de uma sociedade dominada por machos, chefiada por uma burocracia centrada no pênis que queria ser dona de todos os úteros encolhidos por trás de cada vagina, como centenas de milhões de almas inocentes escondidas por detrás de milhões de estantes de livros; estantes de livros nas quais as lombadas inteiras de livros ofertados sendo a única proteção temporária contra p analfabetismo bandido de uma turba de linchamento com sede de sangue.
Aquele também foi um tempo quando as guerras intervencionistas dos EUA pontilhavam o horizonte como fogueiras macabras, vivas com carnes indígenas e ogivas nucleares que nadavam nas profundidades da nossa consciência nacional, como tubarões vorazes circulando em torno de um leviatã, tendo apenas alguns anos antes sido relançados novamente nas águas escuras da nossa paranóia por um rei Camelot de sangue azul de baile de formatura que – confundindo-se como sendo o rei Arthur – extraiu a Espada de Damocles da lápide de Hiroshima para se proclamar como o Príncipe da Paz. Os ambientalistas apresentaram evidências científicas de que a indústria estava ameaçando com planilhas de balanços financeiros a sobrevivência da espécie humana, e forças policiais inteiras sob investigação por aterrorizar cidadãos privados. O abismo que separa a Direita da Esquerda era amplo demais para ser superado e as agitações distópicas de vigilância pública, capitulações extraordinárias e encarcerações de massa, pareciam provar que estávamos numa sociedade livre apenas na sua reputação e que a nossa morte era iminente.
Isto soa familiar?
Porém, de alguma maneira, o país sobreviveu e – mesmo que apenas por um momento – parecia estar no limiar de recalibrar a democracia com sucesso de uma maneira que, ao final das contas, nos faria prosperar de maneira responsável e moral enquanto nação. Então, como é mesmo que nós sobrevivemos, se fosse apenas para a escassa recompensa de nos prepararmos agora para falhar catastroficamente mais uma vez, com a ameaça do apocalipse avultando-se maior ainda do que antes no horizonte? Obviamente, a resposta, se houver uma, provavelmente é complicada demais para ser decifrada de maneira limpa e para simplificar adequadamente com brevidade ou previsão num ensaio como este, escrito por um cartunista selvagemente impaciente e sarcástico como eu. No entanto, eu oferecerei o seguinte com alguma medida de confiança de que possa ser pelo menos uma parte da resposta e, talvez, até um ponto de partida útil para qualquer um que alegue possuir tanto a energia quanto o interesse em levar a discussão adiante.
Há um ditado famoso que tem sido usado há décadas para descrever o próprio alicerce do noticiário de manchetes e da imprensa ‘mainstream’: When a dog bites a man, that is not news, but when a man bites a dog, that is news [Quando um cão morde um homem, isto não é uma notícia, mas quando um homem morde um cão, isto é uma notícia]. Conquanto isso possa servir belissimamente como um guia de estilo para a ficção, é uma dissuasão profundamente corrosiva ao jornalismo útil, porque insiste que a pessoa aceite sem questionar a presunção abertamente ampla de que os cães devem sempre morder os homens. Efetivamente, frequentemente, presunções igualmente suspeitas são feitas sobre a política, a nossa história e as nossas perspectivas culturais; estas proclamações inquestionáveis são transformadas em verdades pela redundância do seu próprio folclore e a perpetuação de uma mitologia exagerada e desgastada pelo tempo, popularizada pela repetição mecânica e nada mais. Uma vez que tais presunções são adotadas como fatos, não se pode mais fazer deduções ulteriores sobre a natureza do homem nem da besta, sobre nós mesmos ou sobre eles, que sejam verdades ou de consequência. Portanto, não pode haver a compreensão sobre as raízes que sustentam ou contribuam para a saúde, a longevidade, os frutos ou a sombra da árvore extensa que nós chamamos de conhecimento.
Entra a imprensa alternativa e clandestina – entre o jornalismo independente. Entre a comunidade das artes não-corporativas.
Desde o aparecimento do jornalismo enquanto um primeiro rascunho da história, têm havido artistas e escritores trabalhando com desdém ao pensamento ‘mainstream’ e à sabedoria convencional, porque sempre houve uma compreensão inata – de parte daqueles menos ofendidos pelo contrarianismo e mais afinados com a magnífica multiplicidade do coração e da cabeça humanas – de que a verdade é uma média, não algo absoluto. Em outras palavras, sempre houve aqueles que reconhecem que todos nós temos uma cor favorita diferente e que, como não existem menos de 10 milhões de cores visíveis ao olho humano médio – assim como há um número infinito de opiniões com as quais se pode decifrar o significado da vida de todos os ângulos concebíveis – sempre foi da máxima importância se advertir sobre quanto seria perdido se, por causa de se procurar um conceito universal de verdade, todos os arco-íris fossem consolidados em uma única cor, de modo que todos pudéssemos compartilhar a mesma indiferença pacificadora para o barro. Este é o perigo de se codificar um consenso ao proclamar que a amalgamação de verdades acordadas produzirá uma única verdade conveniente, apenas vagamente verdadeira para os envolvidos em construí-la.
Efetivamente, está desaparecendo da nossa cultura o imperativo de que nos tornamos mais humanos e melhor equipados para abordar as nossa diferenças de opinião inatas e inevitáveis quando somos encorajados a celebrar o policromagnetismo de uma imprensa independente alternativa e clandestina que propague a arte, o ativismo, o contrarianismo, o individualismo e a boemia nas suas muitas formas – isto é, qualquer uma e todas as formas de comunicação capazes de dar voz tanto às gerações velhas e aos jovens na adoção de um movimento popular mundial construído sobre a empatia socializada, a autoconfiança comunalizada, as paixões intelectualizadas do id e a intolerância radical das instituições automatizantes que só nos deram algumas centenas de anos de tribalismo cor-de-estrume sinistro e implacável.
O que nós precisamos, especificamente – precisamente porque é aquilo que perdemos enquanto uma sociedade multirracial, multiétnica, multipartidária, onística e pan/tri/bi/cis-pautada - é a tolerância à multiplicidade que nos cerca, porque sem a singularidade dos outros para existir contra nós, não nos emocionaríamos com aquilo que nos torna únicos enquanto indivíduos. O que nós precisamos é de algo que nós tínhamos antes e depois perdemos: uma mídia capaz de expressar e demonstrar que as diversidades que compõem as nossas comunidades não é uma ameaça à nossa excentricidade, mas é a própria coisa que a define – da mesma maneira que não há luz sem escuridão, não existe comédia sem tragédia, não há verdade sem bobagem [bullshit] e, portanto, não existe aprendizagem sem uma mente aberta na qual a compreensão genuína pode ocupar qualquer um e todos os espaços vazios que a necessitem.
Quando nós perdemos a participação ativa de uma imprensa independente que se recusa a permitir que os corretores de poder do governo e das grandes empresas determinem os parâmetros de todos os debates públicos sobre como construir uma vida com significado, e quando nós perdemos a hospitalidade radical de uma comunidade das artes que anteriormente era destemida na sua missão de produzir proclamações dissidentes sobre o status quo – sabendo muito bem que a a capacidade de discordar promove a candura e, no final, a candura é o que pode nos salvar – nós perdemos um mecanismo profundamente importante que desempenhou uma parte integral, talvez a parte mais integral, da nossa democracia. Ao final de contas, abandonados no rastro da sua ausência – alguns poderiam dizer que é a sua erradicação sistemática – está uma mídia corporativa modelada inteiramente sobre o princípio de que não se pode confiar que o público compreenda e muito menos que examine os cachos complicados do seu próprio destino interdependente, de modo que deve ser aplacado com contos de fada perturbadores que perpetuam uma visão totalmente míope do excepcionalismo ‘americano™’. Ao final das contas, quando o mercado de ideias se torna literalmente um mercado e as notícias e as informações de tornam propriedades privadas e inventários comercializados publicamente e controlados por instituições com fins lucrativos, não pode haver mais uma comunidade de cidadãos bem informados, capazes de guiar a república para a frente em uma deliberação alerta da verdade, da equidade e da justiça para todos. Não, só pode haver uma classe de clientes consumidores que confiam nas grandes empresas para ajuda-los a tratar do recebimento das suas notícias e informações da mesma maneira que o fazem para controlar o seu recebimento de tudo que está à venda; isto é, segundo um modelo econômico planejado para ocultar a manipulação das forças do mercado, cujo único propósito de garantir que o capital flua em uma única direção, para cima, e que os compradores sejam complacentes e até entusiastas sobre a participação deles na hierarquia ao aceitarem a farsa sadista de que aos ricos e poderosos sempre foi e devem sempre ser permitido permanecer como os árbitros confiáveis do nosso destino coletivo.
“É aqui que nós estamos neste momento, como um todo – ninguém fica fora do círculo”, disse Bill Hicks há trinta anos a um público no qual apenas alguns chegaram a pensar e a grande maioria ficou sentada, olhando para o palco, perplexa e desapontada de ter que pagar pela oportunidade de desaparecer por algum tempo no espetáculo desorientador de piadas sobre pênis e o escapismo adocicado da loucura, enquanto o mundo queima. “Nós estamos vivenciando uma realidade baseada num fino verniz de mentiras e ilusões. Um mundo no qual a ganância é o nosso Deus e a sabedoria é um pecado, no qual a divisão é um fator-chave e a unidade e uma fantasia, onde a esperteza mental movida pelo ego é elogiada, ao invés da inteligência do coração;” Aí, então, vem a pausa que elucida o significado, no qual se supõe que a autorreflexão ocorra – e esta não ocorre. “Diga-se de passagem que este é o material”, continuou Bill, “que tem me mantido virtualmente anônimo nos EUA pelos últimos 15 anos. Puxa vida, eu me pergunto por que nós somos odiados no mundo inteiro?”
Aí houve mais uma pausa. Sorte nossa, ela ainda está conosco, apenas a tempo. E ela não ficará conosco por muito mais tempo.
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