Porque não, Consulesa!

O que Alexandra Loras conseguiu fazer foi evidenciar ainda mais a representatividade das personalidades pintadas de preto em sua exposição e inviabilizar - na mesma proporção ou em proporção até maior - as diversas personalidades negras que temos em destaque no Brasil e que poderiam ter sido o tema da sua mostra

O que Alexandra Loras conseguiu fazer foi evidenciar ainda mais a representatividade das personalidades pintadas de preto em sua exposição e inviabilizar - na mesma proporção ou em proporção até maior - as diversas personalidades negras que temos em destaque no Brasil e que poderiam ter sido o tema da sua mostra
O que Alexandra Loras conseguiu fazer foi evidenciar ainda mais a representatividade das personalidades pintadas de preto em sua exposição e inviabilizar - na mesma proporção ou em proporção até maior - as diversas personalidades negras que temos em destaque no Brasil e que poderiam ter sido o tema da sua mostra (Foto: Nêggo Tom)


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Uma empresa de marketing de São Paulo, chamada PDV Criativo, publicou em sua página do Facebook um meme para ilustrar como um funcionário pode entrar bem alinhado e sair destruído e irreconhecível do estoque das lojas. Para isso, usaram a imagem do ator Jim Carrey, famoso por interpretar o personagem "Máskara" nos cinemas, simulando uma espécie de antes e depois do trabalho. Até aí, nada demais.

O problema é que o "antes" mostra um homem branco (como Carrey é naturalmente) e o "depois" o retrata como um homem preto, numa clara aplicação de uma técnica teatral antiga, conhecida como 'black face", que consistia em pintar os rostos de atores brancos com carvão de cortiça, para interpretar personalidades negras. Tal prática se popularizou no século 19 e se tornou uma tradição de atuação no teatro norte americano, permanecendo assim por aproximadamente cem anos, até cair em desgraça, graças a ação do movimento dos direitos civis dos negros dos Estados Unidos, que considerou a prática racista.

Sob a prática do black face, os traços e características físicas dos negros eram mais acentuados, afim de ridicularizá-los e seu comportamento era estereotipado, sempre de maneira pejorativa. O black face, literalmente, era uma espécie de "tinta forte", que tinha por objetivo exagerar no enfoque dos afro descendentes. Sua prática atravessou os domínios norte americanos - onde foi criado - se espalhando por diversos países. Entre eles, a Grã Bretanha, onde durou mais tempo do que nos EUA.

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Há poucos dias, foi lançada em São Paulo uma exposição chamada "Pourquoi pas?", que significa "Por que não?" em português, criada pela ex-consulesa da França Alexandra Loras, que vem se destacando como uma das vozes mais representativas do movimento negro e do empoderamento feminino no Brasil. Curiosamente, a exposição de Alexandra é baseada no black face e mostra grandes personalidades brancas, retratadas como se fossem negras.

Nomes como Xuxa - a apresentadora que criou as personagens conhecidas como "Paquitas" e nunca cogitou a possibilidade de alguma delas ser preta - William Waack - aquele mesmo flagrado em off dizendo que "era coisa de preto" - A rainha Elizabeth - grande expoente da monarquia, um sistema político que legitimou a escravidão - entre outros, fazem parte da lista de celebridades homenageadas na mostra. Até Michel Temer, um senhor de engenho da nova era, que está tentando reinventar a escravidão de forma moderna no país, está presente. Há algo de errado nisso. Não?

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Muitos vão dizer que eu não entendi a intenção artística de Alexandra Loras (até porque algumas manifestações artísticas de hoje em dia têm se apresentado pouco compreensíveis mesmo) e que a ideia não é homenagear as personalidades que compõem a exposição, mas sim provocar reflexão, imaginando como elas seriam vistas se fossem negras. Se a intenção era essa, acho que ela não conseguirá causar reflexão nenhuma. Até porque, se Lady Elizabeth fosse preta, ela jamais seria rainha da Inglaterra e Xuxa, no máximo, seria a rainha da primavera de algum baile comunitário.

O que ela conseguiu fazer foi evidenciar ainda mais a representatividade das personalidades pintadas de preto em sua exposição e inviabilizar - na mesma proporção ou em proporção até maior - as diversas personalidades negras que temos em destaque no Brasil e que poderiam ter sido o tema da sua mostra. Parafraseando a apresentadora Flora Gil, eu diria para a consulesa que ela pode substituir a Gisele Bündchen pela Naomi Campbell, por exemplo. É mais natural. Também poderia substituir Ana Maria Braga por Oprah Winter, Michel Temer por Barack Obama, João Dória por Luther King, William Waack por Heraldo Pereira, Marilyn Monroe por Taís Araújo, Madonna por Nina Simone e muitas outras possibilidades naturalmente possíveis e que propiciariam uma melhor digestão.

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Alexandra Loras, talvez por não ser nativa do nosso país, ainda não é capaz de fazer uma leitura igual a nossa, com relação as peculiaridades do racismo praticado por aqui. Mais um motivo para que ela não tivesse ignorado as muitas sinalizações e até alguns apelos que lhes foram feitos por ativistas e líderes do movimento negro brasileiro, quanto ao risco de sua exposição trazer grandes prejuízos à causa. E eles estavam certos. Quando uma empresa de publicidade usa o black face para ilustrar, de forma racista, o que é sujo e o que é limpo, ela pode estar se baseando no chamado "Artivismo" - neologismo criado pela própria consulesa, para batizar a sua criação - da exposição de Loras, e se forem censurados, ainda poderão fazer uso do título da exposição, como argumento para se defenderem. Por que não?

Por que a agência não pode usar o black face e a consulesa pode? É uma boa pergunta. Eu não saberia responder. Será que ela conseguiria? Tudo é bem problemático, além de ser contraditório. Suponhamos que um defensor da causa ecológica criasse uma exposição retratando jacarés, hipopótamos e búfalos, confeccionados com o couro dos próprios animais, para denunciar a extinção das referidas espécies. Que tipo de reflexão ele causaria? Na ânsia de tornar mais evidente e talvez mais relevante a sua atuação na causa, a ex consulesa ofereceu a própria pele e a pele de toda uma etnia, de bandeja para os racistas.

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A sua exposição começa a gerar frutos, ainda que não sejam dos mais positivos, como a campanha publicitária da PDV Criativo. Estou ansioso para saber a opinião da ex consulesa Alexandra Lora, diante do black face criado pela tal agência. Será que ela vai denunciar como racismo ou vai contratar o criador da peça publicitária como curador da sua próxima exposição?

E por que não?

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