Poderosos microindivíduos psicossociais
Esses microindivíduos não imaginam a força que possuem. Eventualmente, quando se dão conta disso, destronam até Presidente(a), embora possam ser meros instrumentos objetais de outras formas de poder, às quais, mais uma vez, tacitamente se submetem
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O desejo de poder parece ser a marca substancial do Homem.
Este mamífero, em todos os tempos, nunca mediu esforços para atingir o seu fito de poder ou nele se manter, nas suas múltiplas formas de ser e agir: o poder de ser amado e o poder de controlar as coisas da natureza e tudo mais ao seu redor, eminentemente, deter o controle sobre as outras pessoas, através de mecanismos morais (discursos) e estéticos (seus corpos), variando apenas em sua intensidade gradual.
Desde o filósofo e jurista britânico, Jeremy Bentham (1748-1832) e o pensador francês Michel Foucault (1926-1984), com as suas análises do poder, hoje já não é mais necessário o "Príncipe" de Nicolau Maquiavel (1469-1527) nem o contrato social do "Leviatã", de Thomas Hobbes (1588-1679).
Com o "estado panóptico" de Bentham e do desenvolvimento da "teoria do micropoder" de Foucault, o controle disciplinar e corpóreo dos indivíduos e da sociedade deixou de ser centralizado na figura do soberano absoluto e se ramificou, adentrando-se nos capilares de todo o tecido social, individual e subjetivo.
Atualmente, quem exerce o poder controlador e disciplinar não é mais o Prefeito, o Vereador, o Governador nem o Presidente, embora sejam representantes centrais importantes de onde emanam os discursos ideológicos e o modus vivendi, contudo, o controle estatal se exerce, peremptoriamente, pelo modus operandi, na periferia capilar do Estado, como nas famílias, nas escolas, no trabalho...
Não seria ousado dizer que, avançando (ou vulgarizando) mais a "Microfísica do Poder" de Foucault, o poder é exercido nas pequenas relações sociais do dia a dia, delegado às figuras dos pequenos gestores e de microindivíduos (subpoderes), muitos deles investidos como meros reprodutores do poder de controle estatal instituído, e muito menos deles investidos na capacidade de se rebelarem à ordem vigente, descontruindo assim arranjos verticais de poder opressor em detrimento de suas "operações de guerra" instituintes.
Não precisa ir muito longe, basta deter o olhar nas relações de poder estabelecidas no âmbito da família e do trabalho social.
Nesses grupos (família e trabalho), o fantasma da união (ou desunião) gira em torno do(a) chefe ou de seu representante legal, compelindo os seus subalternos a se associarem de forma operacional subjetiva a partir do estabelecimento inconsciente de laços afetivo-libidinais infantis, conforme pode ser lido em "Psicologia do Ego e Análise de Grupos", do genial médico vienense, Sigmund Freud (1856-1945).
Em ambas as formações grupais não faltam ciúme, inveja, perseguição, sentimento incestuoso, repulsa, ingratidão, sabotagem e várias outras emoções afetivas infantiloides que emperram toda a saúde grupal, oprimindo as subjetividades envolvidas, contudo, mantendo em seu bojo a virilidade do poder estatal.
Todavia, verifica-se também nessas formações de grupo a irrupção de pequenos poros de resistência de onde brotam capilares de fuga inovadores, ameaçando a "estabilidade patológica grupal", portanto, passíveis de seus extermínios sumários pelas forças de poder instituídas.
O poder precisa do adoecimento de seus servos e fiéis na sua base de sustentação e propagação, sob pena de ruir se assim não exercer. As forças capilares divergentes, ou os microindivíduos destoantes são logo exterminados ou instituídos (captados).
Porém, talvez aqui resida a sutileza da "coisa do poder"; esses microindivíduos não imaginam a força que possuem. Eventualmente, quando se dão conta disso, destronam até Presidente(a), embora possam ser meros instrumentos objetais de outras formas de poder, às quais, mais uma vez, tacitamente se submetem.
O instituinte sempre retorna ao estado instituído, "a história se repete", inclusive os microporos capilares sociais estão permanentemente grávidos de novas forças instituintes, até que um dia, quem sabe, as águas de Heráclito deixem de ser uma metáfora idealista e possam realmente lavar e levar todas as formas de poder.
Talvez a verdadeira revolução dos poderosos microindivíduos sociais precise apenas de sua força rebelde intrínseca, contudo, abjurando-se de quaisquer pretensos e ilusórios tons de poder.
As águas fluviais heraclianas não se desembocaram na imensidão do mar, o poder continua represado nos diques de Parmênides...
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