Passado não se muda

Quando um juiz, Hélio Silvio Ourém Campos, censura trechos do relatório da Comissão Nacional da Verdade, sua decisão fere os princípios de um estado democrático

(Foto: ABr | Divulgação)


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Suas decisões não conseguirão apagar os nomes das vítimas nem os de seus algozes

O poder da caneta de um juiz é descomunal. Por isso, ao prestar concurso, passam por um exame psicotécnico que deveria aferir se são pessoas com condições psíquicas de exercer um cargo de responsabilidade.

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Ao que parece este exame anda falho, pois não se pode conceber que uma pessoa considere possível, pelo cargo que ocupa, despir-se dos sentimentos mais elementares de respeito ao próximo, à história de seu país e a si próprio.  

Quando um juiz, que no caso atende pelo nome de Hélio Silvio Ourém Campos, e atua na 6a Vara da Justiça Federal de Pernambuco, censura trechos do relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e determina sua retirada, sua decisão fere todos os princípios de um estado democrático. 

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É inaceitável que se preste ao papel de violador de um direito, como o faz ao tentar destruir a memória das vítimas da ditadura de 64. Ao fazer isso destrói também a verdade da história do país e afronta nossa legislação, a jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos em matéria de memória, verdade e justiça, bem como sentenças por esta Corte dirigidas ao Brasil no Caso Gomes Lund e no Caso Vladimir Herzog.

A censura judicial por ele imposta ao determinar a retirada do nome do ex-coronel da PM de Pernambuco, Olinto de Sousa Ferraz, do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, em sua versão disponibilizada no Arquivo Nacional, é uma afronta à dignidade de todos aqueles que sofreram nas mãos de torturadores. Ofende também aos familiares dos que foram vítimas diretas destas barbáries e que, até hoje, se veem afetados pela violência de Estado.

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Seu protegido foi diretor da Casa de Detenção do Recife quando Amaro Luiz de Carvalho, camponês e militante filiado ao Partido Comunista Revolucionário ali foi morto. Conhecido como Capivara foi um dos tantos brasileiros a quem lhes é negado o direito à infância, tendo começado a trabalhar aos sete anos de idade. Em agosto de 1969 foi preso, acusado de incendiar canaviais e fazer agitação no campo. Sua morte se deu em agosto de 1971.

Sobre o nome Olinto de Sousa Ferraz a CNV destaca a “responsabilidade pela gestão de estruturas e condução de procedimentos destinados à prática de graves violações de direitos humanos”, leia-se torturas.

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Imagino que o juiz de agora tenha buscado inspiração em seu colega Friedmann Anderson Wendpap, que determinou a modificação de documentos custodiados, já em caráter permanente, pelo Arquivo Nacional. Este não apenas decidiu que o AN deveria suprimir trechos de documentos, como também incluir novas páginas no relatório que envolve Ney Braga, ex-governador do Paraná. 

Este último começou cedo sua carreira. Em 1951, como major do Exército, comandou a Chacina de Porecatu. 

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Foi em Porecatu, município localizado no norte paranaense, que se deu, no começo dos anos 30, o movimento que pode ser considerado o início da organização camponesa.

Em seu depoimento à Comissão Estadual da Verdade do Paraná, Antônio Pereira Santana relata como, quando criança, viu sangue pingando de vários caminhões cobertos com lonas. Ao perguntar o que era aquilo lhe foi dito que eram os corpos das vítimas da Chacina de Porecatu, tendo assim ficado conhecida a remoção das famílias de camponeses que ali faziam seu assentamento há cerca de vinte anos. O comandante da operação era o então Major Ney Braga. No ano seguinte foi nomeado Chefe de Polícia, cargo equivalente a Secretário de Segurança. Sua carreira seguiu em ascensão e inclui ter servido a dois ditadores: a Castello Branco como ministro da Agricultura e a Geisel como ministro da Educação. Foi também presidente da Grande Caixa Preta Itaipu Binacional. 

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O que estes dois senhores não perceberam é que suas decisões não conseguirão apagar os nomes das vítimas nem os de seus algozes. Com elas o único que conseguiram foi ter seus nomes inscritos no rol dos que não valem o que lhes pagamos.

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