Os milhões da Crefisa que separam a Mancha Verde da Vai-Vai
O jornalista Ricardo Kotscho relata que a Vai-Vai está "afundada numa crise desde o ano passado, quando a escola 15 vezes campeã ficou em 10º lugar, com dívidas que chegam a R$ 3 milhões" e que, "R$ 3 milhões é o mesmo valor do dinheiro que a empresária Leila Pereira, dona da Crefisa, doou para a Mancha Verde, escola de samba da torcida uniformizada do Palmeiras"; "Recolhidas as fantasias, desfeitos os blocos, desmontados os carros alegóricos, a vida é dura, meus amigos", expõe
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Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia - Num papo em frente à padaria Basilicata, no Bexiga, depois da entrevista que fiz com ele, publicada terça-feira na Folha, Thobias da Vai-Vai, presidente de honra desta escola quase centenária, já esperava pelo pior:
“A escola esse ano corre o risco até de cair”, disse-me ele.
Afundada numa crise desde o ano passado, quando a escola 15 vezes campeã ficou em 10º lugar, com dívidas que chegam a R$ 3 milhões, segundo Thobias, pela primeira vez em sua história a Vai-Vai ficou na lanterna do Grupo Especial e foi rebaixada.
Não por coincidência, R$ 3 milhões é o mesmo valor do dinheiro que a empresária Leila Pereira, dona da Crefisa, doou para a Mancha Verde, escola de samba da torcida uniformizada do Palmeiras, a campeã do Carnaval deste ano, também pela primeira vez na história.
É uma luta desigual, decidida cada vez mais pelo dinheiro.
“O Carnaval ficou comercial demais, é uma micareta com sotaque”, diz o título da entrevista com Thobias, que está rompido com a atual diretoria e, este ano, pela primeira vez, não desfilou pela escola.
Samba e futebol, as grandes paixões populares do brasileiro, sempre caminharam juntos nas alegrias e tristezas dos seus torcedores.
Não por acaso, a Crefisa também investe pesado no time do Palmeiras, que ano passado conquistou o deca-campeonato brasileiro.
Nada tenho contra mecenas e patrocinadores, mas para se ter uma ideia da diferença que o dinheiro faz, a verba destinada pela Prefeitura de São Paulo a cada escola de samba este ano foi de R$ 1,1 milhão. Ou seja, um terço do patrocínio da Crefisa para a Mancha Verde.
Desde 2016, quando passou a bancar a escola de samba da torcida do Palmeiras, Leila Pinheiro já repassou mais de R$ 6 milhões por meio da lei Rouanet (Lei Federal de Incentivo à Cultura), segundo a Folha.
O Palmeiras é também o time do presidente Jair Bolsonaro, um crítico feroz da Lei Rouanet, que ergueu a taça conquistada pelo clube no ano passado.
“Cada caso é um caso”, diria o ex-juiz e agora ministro Sergio Moro, se lhe perguntassem sobre o uso da lei tão combatida pelo governo para financiar a escola de samba do time do presidente.
No vale tudo em que vive o país, onde a lei está longe de ser igual para todos, e tudo é movido pelo poder da grana, os milhões que separam a Mancha Verde da Vai-Vai decidem o resultado longe do sambódromo, assim como há tempos o futebol não é decidido apenas no gramado.
Se a dona da Crefisa torcesse para o Corinthians, time ao qual a escola sempre foi ligada, talvez o resultado do Carnaval paulista de 2019 pudesse ser exatamente o inverso.
Dinheiro, como sabemos, não é tudo, mas ajuda bastante.
Evita crises, paga dívidas, serve para manter privilégios, faz o feio ficar bonito, escancara as desigualdades sociais e pode fazer a diferença no samba, no futebol e também na política.
Dizem que o ano só começa depois do Carnaval, quando as excelências voltam ao trabalho
Mas esta Quarta-feira de Cinzas está me dando a impressão de que o ano já está acabando, num clima de fim de festa, fim de feira e fim das ilusões perdidas.
Recolhidas as fantasias, desfeitos os blocos, desmontados os carros alegóricos, a vida é dura, meus amigos.
E vida que segue.
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