Os donos do poder no Brasil
Com o deboche do Golpeachment (Golpe de Estado travestido de Impeachment Constitucional) a Casa-Grande faz a Senzala ouvir novamente os passos estridentes de suas botas, restando-nos todavia saber se a 'ralé' encontra-se ainda lá ou não
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No monumental Os donos do poder (formação do patronato político brasileiro), o sociólogo e jurista RAYMUNDO FAORO (1925 – 2003) sintetiza com perfeição o 'inconsciente político' dos parlamentares que representam as classes dominantes em nosso país.
A passagem é importantíssima para que possamos esclarecer o posicionamento dos deputados federais e dos senadores que votaram favoravelmente ao Golpeachment, manipulando perversamente a Constituição Federal/1988, depondo DILMA ROUSSEFF e o Partido dos Trabalhadores (PT) da Presidência da República e abortando um projeto econômico, sócio-político e cultural revalidado nas urnas em Outubro/2014.
Os parágrafos de Faoro são os seguintes:
→ A comunidade política conduz, comanda, supervisiona os negócios, como negócios privados seus na origem, como negócios públicos depois, em linhas que se demarcam gradualmente.
O súdito – a sociedade – se compreende no âmbito de um aparelhamento a explorar, a manipular, a tosquiar nos casos extremos.
Dessa realidade se projeta, em florescimento natural, a forma de poder, institucionalizada num tipo de domínio: o patrimonialismo, cuja legitimidade assenta no tradicionalismo – 'assim é porque sempre foi' –. ←
↔ Citação colhida em: FAORO, R. "A viagem redonda: do patrimonialismo ao estamento", in: Os donos do poder (formação do patronato político brasileiro). São Paulo: Editora Globo. Quinta Edição, 2012: 819.
De fato, o 'inconsciente político' das classes dominantes brasileiras – e de seus representantes nos parlamentos – é marcado pelo patrimonialismo, ou seja, pelo tratamento da esfera e dos bens públicos como se os mesmos lhes pertencessem privadamente e devessem, portanto, irrestrita obediência aos seus 'donos', 'patrões', 'senhores', etc.
Neste sentido, a Soberania Popular – base do Estado Democrático de Direito (cf. Constituição Federal/1988) – é apenas formal e dela admite-se o 'popular' desde que este não seja jamais soberano...
Com o deboche do Golpeachment (Golpe de Estado travestido de Impeachment Constitucional) a Casa-Grande faz a Senzala ouvir novamente os passos estridentes de suas botas, restando-nos todavia saber se a 'ralé' encontra-se ainda lá ou não.
A reeleição de Rousseff em Outubro/2014 mostrou-nos que as classes subalternas brasileiras tiraram de vez pelo menos um pé da Senzala e ameaçavam tirar também o segundo...
Ora, se somente um pé para fora já é extremamente desconfortável para a Casa-Grande (ouvi isso de uma senhora branca, paulistana, casa-grandense: 'A negrada tomou as nossas ruas. Não dá mais, vou para Miami!'), bem, o segundo pé balançando ao vento há de implicar em 'crime de responsabilidade' pouco importando que ele seja inexistente, não é mesmo?
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