Onde vivo

Entender as problemáticas urbanas, sejam elas quais forem, perpassa pela compreensão das elites que governam este mesmo urbano



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Onde vivo a relação dominante/dominado é de uma violência absurdamente eficaz e, não exagero, está em cada lugar desta mesmíssima cidade; em cada pedaço de calçada ou ponta de rua; em seus espaços e mesmo naquilo que ainda não existe materialmente falando. Afirmo sem medo de errar que nunca uma relação social fora tão clara e tão intensamente desigual. No entanto, reconheço a inteligência das elites locais, detentoras plenas do poder econômico, político e da mobilização social da cidade.

Elas, nossas elites locais, são alheias ao que se passa na cidade, não ligam para bairros, vilas e arrabaldes. Nada dizem sobre os dramas da saúde que amplia o já corriqueiro sofrimento humano para níveis do barbarismo; nada falam sobre a perversa e subterrânea qualidade da educação que é oferecida para esta "estranha gente" da quebrada urbana. Não se espantam com os crimes cometidos lá pelas bandas da saída da cidade, dos barracões ou das proximidades dos lixões.

As elites, sempre festeiras, e com toda razão, amam encontros e celebrações, sobretudo, entre eles mesmos. Degustam das melhores bebidas, das melhores comidas e seus filhos, sempre belos e saudáveis não raro, são perturbados pela gente pobre e "ameaçadora" da cidade.

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Agridem todo o tempo na forma de consumir, produzir, ser e estar na cidade, no entanto, é preciso considerar que a violência fundamental praticada a todo momento por esta "gente de bem" é sobretudo e principalmente, simbólica. Seus gestos são significantes, seus silêncios, avisos e alertas. Seu modo de ser aristocrático e seletivo é a expressão viva e objetiva da diferenciação social.

Não estudam para compreender a multiplicidade de desgraças que arrebata a cidade cotidianamente, mas para impor sua diferença, para estabelecer hierarquias e fomentar a servidão que, não casualmente, lhes serve de maneira abundante e corriqueira.

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Manipulam ideias e percepções alheias a fim tão somente, da manutenção do poder de classe. Elas, as elites locais, não perceberam ainda que governam a cidade. Querem nos fazer crer que a urbe é administrada pelo prefeito. Qual nada!

Onde vivo a Prefeitura não é nada! Quem manda e desmanda, governa e desgoverna, faz e acontece no espaço urbano da forma e do jeito que quer é a elite, não casualmente, branca, de olho claro e, é claro, de direita.

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De outro modo, é importante ter claro de que as desgraças ambientais que torna a cidade esse ajuntamento inviável e desgovernado, os amplos níveis de violência que gera e degenera toda sorte de sociabilidade ou a decadência deplorável de tudo o que é público é fruto e obra do movimento existencial dessa própria e mesmíssima elite.

Entender as problemáticas urbanas, sejam elas quais forem, perpassa pela compreensão das elites que governam este mesmo urbano, do seu estilo, de suas burocracias e das relações que estabelecem com empresas e governos. Das opções econômicas delas resulta a atual e periclitante qualidade dos trabalhos para o povo pobre; das relações produtivas e que elas, as elites estabelecem, surge a periferia favelizada, desclassificada e medonha.

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Sinteticamente, a elite é a que gera, forma, dá forma, estrutura, produz conceito, ideologia, comportamento, futuro, forma de ser, destino e tipos de existência. É mole ou querem mais?

Não opero com maniqueísmos sociológicos e não creio nesse tipo de horizonte teórico, mas a elite local é o grande ventre gerador das principais e mais determinantes mazelas que fazem da média ou grande cidade brasileira um vivo e virulento atentado ao direito humano e em todas as suas vertentes.

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Os pobres? Evidentemente que tem responsabilidades. Se negam pela apatia, pelo desalento ou pela alienação a se apropriarem daquilo que fora feito por eles mesmos. Negam a si mesmos quando negam o fruto do próprio trabalho, quando se entregam às rotinas urbanas massificantes e massificadoras. É essa contradição complementar e essencial que faz da elite a força da anti-cidade.

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