Onde esporte e política se encontram

"O futuro político do Brasil passa sim pelo povo nordestino, sobretudo pelas mulheres negras", escrecve Firmiane Francisco



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Por Firmiane Venâncio

“Eu era muito nova, mas já pensava nisto tudo, e pensava no que tinham me falado a minha avó, a Nega Florinda e depois a Agontimé sobre cada um de nós ter uma missão”.

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Esta fala da personagem Kehinde (possivelmente Luísa Mahin, mãe de Luiz Gama) do romance histórico “Um defeito de cor” de Ana Maria Gonçalves diz muito sobre o que o Brasil viu acontecer nas duas últimas semanas em Tóquio e em Brasília. 

É que, de repente, o país parou para admirar os feitos memoráveis de mulheres e homens negros, saídos do Nordeste, majoritariamente da Bahia, para fazer história no evento esportivo mais importante do mundo em 2021: as Olimpíadas. 

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Ao  mesmo tempo lideranças da Coalizão Negra por Direitos, dentre as quais a socióloga baiana Vilma Reis, estiveram em Brasília para uma jornada de incidência política contra a reforma política que pode inviabilizar a representatividade de grupos minorizados nos espaços de poder, sobretudo, as candidaturas de mulheres negras nas eleições, com o redimensionamento, por exemplo, das cotas de equidade de gênero.

As duas situações podem parecer contraditórias, mas não são. O comportamento da elite racista e sexista do Brasil mais uma vez se repete nas Olimpíadas e na política  determinando como e onde pobres, negros, índígenas e mulheres devem estar: no lugar do não investimento público, das superações heróicas que se de um lado podem inspirar alguns, podem lançar outros tantos à decepção e impotência ante a falta de oportunidades. 

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E não há aqui qualquer censura à celebração das conquistas apoteóticas de brasileiras e brasileiros no esporte, muito menos ao seu desejo de constituir inspiração para as gerações futuras. Existem muitas lições a extrair desse momento: medalhistas brasileiras desconstruíram o mito sexista de que mulheres são comandadas pela fragilidade das emoções, além disso campeões e campeãs olímpicas baianas desmontaram a xenofobia tantas vezes expressa de forma jocosa sobre nossa capacidade produtiva.   

Diante disso, a missão histórica que compete a cada um de nós agora é refletir sobre em quais espaços públicos queremos ver mulheres e homens, negros e indígenas do Nordeste, com a certeza de que não será apenas aqueles das habilidades esportivas ou de força física. O futuro político do Brasil passa sim pelo povo nordestino, sobretudo  pelas mulheres negras. 

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