Onde a Rede Globo guarda o seu racismo?

Na condição de mulher negra me senti discriminada racialmente pelas palavras de Waack e pelo consentimento velado do outro. Da mesma forma que se sentiriam os negros e negras estadunidenses e o então presidente Barack Obama se o tivessem ouvido naquele momento e se sentem hoje, em 2017, os brasileiros e brasileiras negros e não negros que lutam contra o racismo

william Waack
william Waack (Foto: Maria do Carmo Rebouças dos Santos)


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No alto de seu privilégio de cor, de gênero e de classe, em pleno 2016, o jornalista William Waack, âncora da Rede Globo de Televisão, um veículo de comunicação brasileiro reconhecido e premiado internacionalmente, em uma transmissão ao vivo, cobrindo as eleições presidenciais dos EUA, em frente à Casa Branca, ocupada por um presidente negro, comete um ato de racismo contra alguém que na rua buzinou seu veículo e o incomodou. Segundo ele, um ato como aquele só poderia ter sido realizado por um "preto". Bradou: – "só pode ser um preto!". Seu possível entrevistado, em pé ao seu lado, por sua vez, representando o Woodrow Wilson Center, uma think tank estadunidense também com um prestígio internacional a zelar, assentiu, pois riu do fato.

Na condição de mulher negra me senti discriminada racialmente por suas palavras e pelo consentimento velado do outro. Da mesma forma que se sentiriam os negros e negras estadunidenses e o então presidente Barack Obama se o tivessem ouvido naquele momento e se sentem hoje, em 2017, os brasileiros e brasileiras negros e não negros que lutam contra o racismo.

Apesar de imoral e criminosa, pouco me aflijo com a discriminação racial praticada pelo âncora – ele já está recebendo o julgamento que merece: no âmbito privado, por meio da crítica que deve estar sofrendo dos seus amigos, colegas e entrevistados da sua bancada, negros e não negros que repudiam o racismo; no âmbito social, pelos constrangimentos que deverá passar nos locais públicos e no mundo virtual; e no âmbito judicial, se for interpelado judicialmente por qualquer pessoa ou instituição que se sinta admoestada pelo seu ato racista. No mais, deverá ser relegado à sua irrelevância ou acolhido por alguma instituição racista. Sim, isso também existe no Brasil.

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Contudo, o que realmente importa desvelar, a propósito do racismo perpetrado pelo jornalista William Waack, é a sua prática do ponto de vista institucional. O racismo de natureza institucional, estrutural, este sim precisa ser discutido em outros termos. Como é possível que um jornalista sênior, de uma empresa reconhecida internacionalmente, pratique um ato de racismo no exercício do seu ofício?

A resposta é simples: ele representa uma empresa que institucionalmente sustenta, autoriza e reproduz o racismo e, portanto, ser e se expressar como racista não gera nenhum tipo de responsabilização. Nesse sentido, nossa indignação deve se voltar menos ao ato do jornalista racista e também agora um potencial criminoso e mais ao veículo que o sustenta e legitima, uma empresa institucionalmente racista.

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Há décadas lideranças do movimento negro organizado no Brasil em todos os seus matizes, assim como pesquisadores, acadêmicos e intelectuais e mesmos pessoas comuns que já não assistem a TV aberta, denunciam o racismo dos meios hegemônicos concessionários de comunicação pública brasileiros, particularmente o de maior audiência, a Rede Globo, que insiste em vender para o mundo um Brasil constituído por uma branquitude superiorizada e uma negritude minorizada, no sentido de Richard Santos, despojada de tudo, violenta e lasciva.

Mas daí o leitor ou a leitora pergunta, como uma empresa de comunicação, uma instituição pode ser racista? Racismo Institucional refere-se à concepção, a valores, a políticas e comportamentos discriminatórios, praticados por instituições, públicas ou privadas, que, mesmo aparentemente neutras, acarretam consequências desiguais para os membros das diferentes categorias raciais ou os coloca em desvantagem perante outros grupos.

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A Rede Globo, em sua concepção de entretenimento e jornalismo, que por sua vez informa a sua política e estrutura organizacional, estabelece critérios de composição e atuação que subdimensiona a participação de negros e negras em sua programação e, quando o faz, os retrata por meio de estereótipos de raça, classe e gênero que reforçam e reproduzem a desigualdade racial e propaga um falso conceito de superioridade racial de brancos na nossa sociedade. Isso se reflete em toda a estrutura da programação, nos enfoques, nas narrativas dos programas veiculados pelos seus canais e no apagamento do ser negro e negra na TV.

No projeto de modernidade colonial/capitalista/patriarcal, a raça constitui a linha divisória que atravessa e organiza as relações de opressão de classe, sexualidade e gênero em escala global. Nesse projeto, os brancos foram racializados como seres superiores que usufruem do privilégio racial e os negros como seres inferiores que vivem a opressão racial.

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No Brasil, as instituições de comunicação estão inseridas em um sistema racista formador do ethos da realidade sociopolítica e cultural do país que se organizou na colônia e ganhou força antes mesmo da abolição formal da escravatura como já denunciado por Clovis Moura e tantos outros intelectuais brasileiros.

Por outro lado, teóricos da comunicação como Douglas Kellner, Fredéric Martel e Rosane Borges nos explicam: as mídias hegemônicas globais formam e informam as sociedades contemporâneas e instauram novas formas de sociabilidade.

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Assim, a TV Globo, enquanto aparato midiático dominante no Brasil, atualiza e perpetua aquele sistema e usa a comunicação como arma ideológica de negação, do não reconhecimento do lugar do negro e da negra na história e na vida social brasileira. Esse fato é tanto mais grave quando se trata de um veículo de comunicação que tem o poder de formar o imaginário social e cultural de uma nação.

Nós, negras e negros, não existimos na mídia global hegemônica, não nos vemos nas novelas, minisséries, jornais, comerciais e programação em geral, nem como sujeitos (protagonistas, apresentadores, jornalistas, diretores), nem como atores sociais (entrevistados, intelectuais, formadores de opinião). A nós, é relegado um papel residual em algumas novelas, nas cotas dos comerciais (e olhe lá) e nos programas de comédia ou musical que reforçam e reproduzem discriminações e estereótipos de raça, classe e gênero. Só existimos enquanto "negro tema", como diria Guerreiro Ramos, como objeto, como não ser – nos noticiários, como agentes da violência cotidiana e nas novelas e minisséries, como agentes da violência "fictícia".

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Qual o efeito disso na nossa sociedade? Ocasiona desigualdades raciais e a noção de que as relações discriminatórias entre grupos são moralmente justificadas! Como categoricamente pontuado por Rosane Borges, "existe uma matriz que se replica, um padrão que define o lugar do negro no sistema de representação. Essa articulação vincula-se, remotamente, aos pilares do racismo, à dimensão corpórea como elemento distintivo entre um eu civilizado e o outro bárbaro".

A representação de estereótipos e estigmas em torno desse outro bárbaro, o negro, contribui para a difusão de uma narrativa e uma imagética desviante, inadequada, imprópria, feia, lasciva e violenta imposta ao negro e à negra, que contribui para a formação do imaginário nacional do negro desumanizado e, portanto, autoriza que corpos negros sejam violentamente exterminados, sejam massivamente encarcerados, sejam desproporcionalmente apenados, sejam sexualizados e violados, ocupem os cargos mais baixos e mal remunerados nos setores público e privado, recebam a pior educação, sejam silenciados epistemologicamente, sejam eternos pontas e coadjuvantes em novelas.

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Da mesma forma, a sistemática representação negativa do negro e da negra na TV suscita e dá ímpeto ao nosso silenciamento moral e ético enquanto sociedade que, se não autoriza, se omite, contra o racismo, e a violência provocada por este, contra negros e negras. E daí, nos tornamos um país de bárbaros e selvagens, como um Wiliam Waack, como o policial que extermina, o juiz que condena, o empregador que discrimina e por aí vai.

Por tudo isso, não basta a Rede Globo "repudiar visceralmente" o racismo. É preciso mais. É preciso "demonstrar visceralmente" que institucionalmente não é racista. É preciso desmontar a ideologia e a cultura racistas que sustentam o seu aparato comunicacional. É preciso assumir um compromisso com seus supostos 100 milhões de espectadores e com o povo brasileiro em geral de que não coaduna com o racismo. É preciso "reparar" o seu racismo. Como? Assumindo um compromisso ético e moral em retratar os negros e negras, assim como minorias indígenas, em toda a sua humanidade, em toda a sua complexidade social, cultural, política e econômica em sua grade de programação. Veiculando em sua programação, na frente e por trás das câmaras, o pluralismo étnico, social e cultural brasileiro – recolocando os negros e as negras, assim como as diversas etnias originárias, na História desse país.

Caso nada disso reverbere no seio de uma rede de televisão hegemônica como a Rede Globo, proponho aqui que, por ser ilegal, injusto e imoral, o racismo difundido por este grupo deva ser combatido juridicamente nos tribunais e politicamente em cada residência desse país. Vamos denunciar e judicializar todas as práticas de racismo e boicotar todos os programas veiculados. A partir de hoje, desliguemos o canal Globo e todas as mídias vinculadas à Rede Globo.

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