O riso diante do genocídio

Excetuando-se o uso da Covid-19 como “diversão” capaz de deixar passar o desmatamento, como defendido pelo ministro da Destruição Ambiental, não se falou da pandemia. Mas - Atenção! - isto não é sinal da inépcia de um governo já por si inepto

Jair Bolsonaro coloca máscara durante entrevista coletiva sobre coronavírus no Palácio do Planalto
Jair Bolsonaro coloca máscara durante entrevista coletiva sobre coronavírus no Palácio do Planalto (Foto: REUTERS/Adriano Machado)


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ESTUPRO E MORTE

1942. Soldados nazistas assaltam um vilarejo eslavo, fuzilam adolescentes e crianças, e estupram as mulheres, antes de matar.

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Três generais, em viagem de carro pela estrada 0próxima, param, assistem a parte do massacre com risinhos cúmplices, e se vão.

Guarde esta cena. Voltaremos a ela.

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É FASCISMO!

O que de fato se revelou, com a exibição da reunião de 22 de abril do mais idiota gabinete de governo da história do país, foi a barbárie que nos dirige, inimiga declarada de qualquer diversidade ou pluralismo, seja ideológico, político ou comportamental.

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Dentre os críticos desta horda bestial, e uns poucos eleitores pseudoarrependidos, alguns ainda refutavam o adjetivo FASCISTA aplicado a Bolsonaro e trupe. Depois de assistir à reunião isso já não é possível.

Testemunhar como debatem e decidem, os membros do alto escalão, destruiu os coloridos vitrais pelos quais Poliana via o mundo. A negação do fascismo de Bolsonaro foi atirada ao irresponsável caldeirão onde se misturam cinismo, covardia, e omissão.

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DO QUE NÃO SE FALOU

Porém, há mais do que o explícito naquela tosca e medonha versão bolsonarista da “Conferência de Wannsee”.

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Excetuando-se o uso da Covid-19 como “diversão” capaz de deixar passar o desmatamento, como defendido pelo ministro da Destruição Ambiental, não se falou da pandemia. Mas - Atenção! - isto não é sinal da inépcia de um governo já por si inepto.

Muito ao contrário, Bolsonaro e os generais, estão bem cientes da catástrofe. Tanto que a 26 de maio divulgaram o quadro brasileiro com 391.222 casos e 24.512 mortes confirmadas, sendo 16.324 casos, e 1.039 mortes, só nas últimas 24h antecedentes.

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SABEM QUE É GENOCÍDIO

Bolsonaro e os generais também sabem do modelo de análise estatística do instituto de métrica da Universidade de Washington, que subsidia as decisões da Casa Branca. Segundo a projeção, o Brasil pode chegar, em média, ao total de 125 mil mortes em 6 de agosto.

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Bolsonaro e os generais têm amplo conhecimento do modelo, o qual aponta o total de mortes no Brasil entre o mínimo de 68.311, se adotarmos um rígido isolamento social, e o máximo de 221.078 mortes, com a liberação geral que o mentecapto número um da nação defende.

Por que, então, Bolsonaro e os generais combatem o isolamento social? A resposta tem dois componentes principais, dentre outros dos quais não trataremos, pois pertencem ao campo da psiquiatria.

“VIVA LA MUERTE!”

A primeira razão é que Bolsonaro e os generais consideram a morte de 150 mil brasileiros, a mais, como “banal”. São “baixas de combate” às quais dão de ombros, desde que o total não comprometa a “economia de guerra”.

Na verdade, Bolsonaro e os generais se vêm até tentados a incluir como “baixas” os “vagabundos” do STF, do Congresso, e prefeitos e governadores que defendam o isolamento social.

A outra razão principal vem de quem define, para Bolsonaro e os generais, a “economia de guerra”.

Pode parecer estranho que num governo onde os generais são autoridades máximas em saúde, energia, mineração, articulação política, infraestrutura, orçamento e contas públicas, eles só não entendam de “economia de guerra”. Porém, é assim.

VIVA O VÍRUS!

Para entender a “economia de guerra” Bolsonaro e os generais dependem de Paulo Guedes. E para Guedes as mortes causadas pela pandemia mais ajudam do que comprometem, como já expôs sua subordinada no ministério, Solange Vieira:

“É bom que as mortes se concentrem entre os idosos. Melhorará nosso desempenho econômico, reduzirá nosso déficit previdenciário.”

É simples assim o cálculo. Quanto maior o número de mortes dos “indesejáveis”, sejam idosos, miseráveis, índios, ciganos, ou “comunistas”, melhor para a “economia de guerra”.

QUEM DECIDE?

Além de saúde, energia, mineração, articulação política, infraestrutura, orçamento e contas públicas, Bolsonaro e os generais também são as maiores autoridades na interpretação do direito brasileiro. Dominam a hermenêutica como ninguém!

Exemplo maior é o caso da saúde pública. Três artigos da Constituição a definem como responsabilidade comum, tanto de municípios e estados, quanto da União. E o STF reafirmou exatamente isto, em 15 de abril.

Entretanto, esta “interpretação” contraria a “economia de guerra”!

Tal contrariedade, aliada ao fato de que o fascismo é uma teoria política toda própria (“Eu sou a Constituição!”), permite que Bolsonaro e os generais tratem as autoridades públicas que defendem o isolamento social como “traidores da pátria”. E que se ponham a uivar que as medidas de isolamento determinadas são arbitrariedades inconstitucionais.

O MASSACRE?

Não, o massacre não deriva da pandemia. A matança virá em seguida, consequência inescapável das decisões jurídicas e legislativas terem migrado dos tribunais e do parlamento, para as mãos (“mentes” seria impróprio) de Bolsonaro e dos generais.

Decidindo pessoalmente o que é constitucional, ou não, nada impede que Bolsonaro defina você como “vagabundo”. Sobretudo se a “ciência” dos generais, ou a “economia de guerra” de Paulo Guedes, entender que esta definição é “necessária”.

E uma vez que você seja definido como “vagabundo”, lei alguma impedirá sua prisão, tortura e assassinato, ou o estupro de sua mulher e filhas por militares ou milicianos bolsonaristas, com posterior “eliminação”, termo, aliás, também empregado na reunião de 22 de abril.

RISOS

Os generais impediriam a barbárie?

Assistam novamente ao vídeo da reunião do gabinete Bolsonaro, e reparem no risinho dos generais presentes, ante as mais obscenas e atrozes falas.

É o mesmo risinho dos generais que assistiram ao massacre de um vilarejo eslavo, em 1942.

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