O ódio ungido

Itaberlly Lozano, um jovem de 17 anos e teoricamente cheio de vida pela frente, teve a sua existência terrena interrompida pela própria mãe. Quem acessar o perfil da mãe de Itaberlly no Facebook terá a certeza de que se trata de uma cidadã de bem, cristã e de bons costumes

Itaberlly Lozano, um jovem de 17 anos e teoricamente cheio de vida pela frente, teve a sua existência terrena interrompida pela própria mãe. Quem acessar o perfil da mãe de Itaberlly no Facebook terá a certeza de que se trata de uma cidadã de bem, cristã e de bons costumes
Itaberlly Lozano, um jovem de 17 anos e teoricamente cheio de vida pela frente, teve a sua existência terrena interrompida pela própria mãe. Quem acessar o perfil da mãe de Itaberlly no Facebook terá a certeza de que se trata de uma cidadã de bem, cristã e de bons costumes (Foto: Nêggo Tom)


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Itaberlly Lozano, um jovem de 17 anos e teoricamente cheio de vida pela frente, teve a sua existência terrena interrompida pela própria mãe. Com golpes de faca, ela assassinou o próprio filho, tendo como motivação a homossexualidade do rapaz, que segundo pessoas próximas, ele não aceitava. Com a ajuda do marido o corpo do jovem foi queimado em um canavial, sendo encontrado apenas 15 dias após o assassinato. A mãe e o padrasto confessaram a autoria do crime, alegando que o filho era usuário de drogas e já os havia ameaçado de morte, o que foi desmentido por outros familiares da vítima.

Quem acessar o perfil da mãe de Itaberlly no Facebook terá a certeza de que se trata de uma cidadã de bem, cristã e de bons costumes. Entre versículos bíblicos e frases de amor e fé, ela tentava demonstrar tudo o que ela nunca foi e nunca teve dentro de si. O ódio, a intolerância e a ignorância, mais cedo ou mais tarde, sempre acabam soando mais alto na caixa de ressonância dos hipócritas. Ninguém nasce odiando ninguém. Você aprende a odiar. Ninguém nasce intolerante. Você aprende a não tolerar. Ninguém nasce ignorante. Você aprende a ignorar. Mas quem nos ensina?

Podemos aprender a não aceitar e a não respeitar as diferenças, em muitos lugares e de diversas formas. "Professores" e exemplos de como fazer, não nos falta. Um homofóbico, por exemplo, pode ter como exemplo os próprios pais, que se encarregarão de transmitir para o filho, através de gestos, palavras e atitudes, todo o seu desprezo e desrespeito por uma orientação sexual diferente. O filho irá reproduzir em sociedade a homofobia cultural que permeou todo o seu processo de desenvolvimento. Alguém que tenha se convertido a uma religião, mesmo sendo oriundo de outra, poderá aprender com o seu novo líder religioso, a odiar a sua religião de origem e a todos os seus praticantes, através de pregações que desqualifique, demonize ou que atribua inferioridade a outra religião e às pessoas que a frequentam.

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É possível sim associar esse crime às manifestações de ódio e de intolerância, atualmente muito em voga em nosso meio, seja em discursos Bolsonaristas e Olimpianos, que reverberam nas redes sociais e no dia a dia, através de seus seguidores e simpatizantes, seja em discursos de líderes religiosos, que cada vez mais incitam a intolerância e estimulam um comportamento doentio em suas "igrejas". A cultura do ódio tem uma particularidade, no mínimo, muito curiosa. Ela foi instituída por pessoas que "amam a Deus e a família". Um deus que os extremistas criaram e o apresentam como uma espécie de vingador do futuro. O Deus no qual eu acredito e tenho fé não se parece nem um pouco com o deles, porque ele é amor.

A benção do deus dos intolerantes pontua muitas postagens do Major Olímpio, que há poucos dias clamou por mais sangue nos presídios, incentivando os presos de Bangu a "fazerem melhor" do que as rebeliões em Manaus e Roraima. O deus dos neofascistas batizou nas águas do rio Jordão, o exaltador da tortura e defensor da pena de morte e do porte de arma para o "cidadão de bem", Jair Bolsonaro, mais um que arrasta multidões com seus discursos de ódio e exemplos de intolerância. O deus do ódio continua "ungindo" líderes religiosos de procedência duvidosa e os or ientando a incentivar os seus fiéis a cometerem atos de insanidade, heresia e violência. Tudo sob uma unção que eles juram ter recebido do alto.

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A unção do desequilíbrio faz um pastor encorajar os fiéis a quebrarem imagens de outros cultos, alegando que elas são diabólicas e quem as possui são servos do diabo. ( https://www.youtube.com/watch?v=VP1oX4b_CPU ) Logo, devemos quebrar os que cultuam as imagens também. A unção do assassinato autoriza que um pastor suba ao altar e leve a igreja ao delírio, determinando que "Pastor que está em pecado tem que ser esfaqueado mesmo" (https://noticias.gospelmais.com.br/agenor-duque-pastor-em-pecado-tem-e-que-ser-esfaqueado-mesmo87733.html ) Ao ouvir tal disparate, os fiéis podem fazer a seguinte leitura: Se um pastor quando peca deve ser esfaqueado, imagina um jovem gay, um adorador de imagens e uma prostituta, que o pastor sempre fala que Deus os abomina. Faca neles!

A unção da vingança é dada a outro pastor que diante de toda a assembléia, manda avisar que se alguém tentar fazer alguma coisa contra ele, ele manda matar. ( https://www.youtube.com/watch?v=gztV-sjGQn0 ) E alerta que anda cercado de atiradores de elite e de gente da pesada para garantir a sua segurança. Tenta a sorte! Ora! Se o meu pastor diz que tem seguranças preparados para matar quem tentar contra ele, eu também posso me armar e usar de violência para me proteger. Vai que algum infiel tente me atacar para roubar a minha Bíblia ou o dinheiro do dízimo que eu tenho que dar para o meu líder?

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A unção da intolerância leva a acreditar que aquele que não comunga da sua mesma fé é pecador, impuro, indigno, escarnecedor e infiel.
( https://www.youtube.com/watch?v=JA8yjIXwJc0 ) Se eu ouço isso o tempo todo, quais as chances de eu não enxergar o outro como um possível inimigo da minha salvação? Se você aponta o outro como um alvo a ser abatido ou como alguém indigno e inferior, seja por religião, por comportamento, por orientação ou opção sexual, pela cor da pele, pelo nível social, por ideologia política ou por rivalidade clubística, você está contribuindo para que a cultura do ódio se instale em nossa sociedade. Você também é um assassino, porque mata a dignidade e a liberdade do outro baseado em sua crença, em suas convicções e na sua insanidade! Essa é a unção do ódio.

Perdoai-os, Senhor! Eles não sabem que servem a outro deus.

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