O legado de Mário Soares para a Europa em crise de soberania

Como outros líderes políticos do continente, o ex-presidente português morreu provavelmente sem saber que o veneno do euro, manipulado pela Alemanha, iria destruir o projeto europeu através da dominância absoluta de economistas neoliberais sobre políticos

daniel rocha 1 DEZEMBRO 2005 - mario soares, candidato presidencial, em entrevista - NAO PUBLICADAS -
daniel rocha 1 DEZEMBRO 2005 - mario soares, candidato presidencial, em entrevista - NAO PUBLICADAS - (Foto: Jose Carlos de Assis)


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Líder de um partido que iria assumir uma dimensão política maior do que poderia sugerir sua vinculação ao pequeno Portugal, Mário Soares, do Partido Socialista, morreu como presidente de todos os portugueses, e como um dos mais importantes arquitetos da União Europeia e da Europa do Euro. Como outros líderes políticos do continente, contudo, morreu provavelmente sem saber que o veneno do euro, manipulado pela Alemanha, iria destruir o projeto europeu através da dominância absoluta de economistas neoliberais sobre políticos.

A esmagadora maioria dos cidadãos, em praticamente todos os países, dormem com a ilusão de que os políticos que os dirigem são sábios em tudo, inclusive em economia. A crua realidade é outra. Desde a escalada neoliberal até nossos dias, são os economistas, mediante conceitos diversionistas como Estado mínimo, ineficiência do setor público, vantagens da privatização e da globalização, que dominam a cena, subjugando líderes políticos como, em sua época, foram vítimas dessa ideologia Margaret Thatcher e Ronald Reagan.

Mário Soares foi também uma vítima trágica da demagogia neoliberal. Curiosamente, na retórica, ele se colocava contra o neoliberalismo. O mesmo havia acontecido com os socialistas François Miterrand na França e Bettino Craxi na Itália, os quais, como o senhor Jourdain que fazia prosa sem saber, faziam neoliberalismo sem se dar conta disso levados por Reagan e Thatcher. A Europa politicamente unida é uma construção neoliberal sob o figurino imposto pela Alemanha, a única verdadeiramente beneficiária do projeto europeu, sobretudo após a crise de 2008.

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Para entender o projeto de hegemonia alemã na Europa temos que abandonar provisoriamente os paradigmas políticos. A Alemanha é uma potência comercial de primeira linha, capaz de realizar imensos superávits comerciais e financeiros há décadas. Antes do euro, e depois da ruptura dos acordos de Bretton Woods em 1971, a única coisa que a incomodava era a instabilidade cambial. De fato, com as moedas flutuando, sempre havia a possibilidade de ganhos comerciais de seus parceiros mediante desvalorização do câmbio.

Então foi costurado o Tratado de Maastricht, impondo austeridade fiscal e monetária aos países signatários, e sinalizando o objetivo da moeda única numa serpente monetária. Quando esta chegou, ocorreu para a Alemanha o equivalente de uma tremenda desvalorização cambial em relação a sua velha moeda, o marco. Já competitiva no comércio mundial, a Alemanha ficou mais competitiva ainda. E aí vem o segundo ato da história: o efeito do alto superávit comercial no funcionamento interno da economia alemã, no âmbito do sistema do euro.

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De fato, com a moeda única, o superávit comercial alemão se torna automaticamente expansão monetária, irrigando a economia de forma expansiva. Do outro lado, os países deficitários sofrem o efeito oposto: um déficit equivale a reduzir a circulação monetária interna, pois sai dinheiro da economia para pagar por esse déficit. Esta é a tragédia dos países do euro, quase todos deficitários em comércio exterior. Ao contrário do que podia pensar Mário Soares, não é uma questão que se resolve apenas no nível político. É econômica.

Os países do euro, cedendo sua soberania monetária ao Banco Central Europeu, governado na prática pela Alemanha, não tem saída no sentido da retomada de seu desenvolvimento exceto pela ruptura do acordo da moeda única. Os políticos da região que não entendem de economia acham que isso seria o fim do grande projeto da União Europeia. Não é. É perfeitamente possível manter os objetivos políticos de unidade em vários outros campos sem a influência perversa da economia neoliberal. Acontece que todos estão intimidados pelo poderio econômico dos grandes bancos alemães.

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Claro, poderia haver uma saída preservando a moeda única. Bastaria que o Banco Central Europeu atuasse de forma coordenada com os tesouros dos países assegurando a cada um deles um suprimento monetário consistente com a promoção do crescimento econômico e do emprego. É assim que funciona a economia norte-americana, em perfeita articulação entre tesouro e banco central. Contudo, para implementar isso na Europa, em memória de Mário Soares seriam necessários líderes que liquidassem com o legado econômico do neoliberalismo.

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