O irrespirável tempo que passou

Teoricamente recuperamos saúde, dinheiro, autoestima e conhecimento. Recuperamos memória. Mas o tempo não



✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no canal do Brasil 247 e na comunidade 247 no WhatsApp.

É tudo culpa de uma vitrola.

Mas podia ser de uma estação de rádio, um filme antigo ou até um DJ numa festa.

Fato é que a vitrola que chegou à minha casa me fez resgatar velhos vinis, vinis da minha infância.

continua após o anúncio

Vinis da minha adolescência, da minha vida. Fui resgatando memórias; enquanto separava compulsivamente os de que mais gostava e os ia tocando ao longo do sábado de sol em que deveria estar na praia.

De repente cheguei no LP da trilha sonora do cult movie O Caçador de Andróides, Blade Runner, que me tocou profundamente quando o assisti pela primeira vez, do auge dos meus dias adolescentes cheios de questionamentos existenciais.

continua após o anúncio

A maior de todas as angústias humanas - o medo da morte e a imprevisibilidade da vida - estava lindamente ali sintetizada, especialmente ao final do filme, quando Rick (Harrison Ford) diz não saber quanto tempo vai viver a Rachel, replicante por quem ele se apaixonou, e finaliza com a seguinte pergunta: "e quem sabe?"

Essa cena pautou meus próximos dias, filosoficamente falando, e a trilha de Blade Runner foi tocada no dia em que eu, ainda no fim da adolescência, resolvi me casar.

continua após o anúncio

E me emocionar ao ouvi-la na minha vitrola nada tem a ver com querer esses dias de volta.

As músicas do disco têm a ver com a lembrança de pessoas queridas daquele momento e que já não vivem mais.

continua após o anúncio

Têm a ver com o cerne de toda a questão que nos assombra - temos um percurso de vida e caminhamos inexoravelmente pro fim.

Ouvir a trilha do meu casamento, longe de me fazer reviver aquela cena, me faz lembrar que o tempo é a única coisa que eu conheço do meu dicionário que não se recupera.

continua após o anúncio

Teoricamente recuperamos saúde, dinheiro, autoestima e conhecimento. Recuperamos memória. Mas o tempo não. Tal qual a morte, o tempo que passa não nos deixa esquecer que existe fim e que a finitude da vida é a grande espada sobre nossas cabeças.
Viver a sensação do tempo que já vivemos e que não recuperamos é tornar o ar irrespirável.

Quando nos damos conta de que o tempo é irretornável e o passar dele nos conduz ao fim, perdemos oxigênio por alguns segundos ao menos.

continua após o anúncio

Não há o que se fazer, a não ser bebê-lo até o último gole. Se é pra passar, que passe deixando a chance de realizarmos pra nós mesmos. O tempo nos conduz ao fim, mas é enquanto ele passa que temos a chance de sermos o nosso melhor e deixarmos marcas na família, entre amigos, na nossa sociedade e até para a Humanidade. Só depende de nós.

continua após o anúncio

iBest: 247 é o melhor canal de política do Brasil no voto popular

Assine o 247, apoie por Pix, inscreva-se na TV 247, no canal Cortes 247 e assista:

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

continua após o anúncio

Ao vivo na TV 247

Cortes 247