O golpe do porco

No Brasil, o cenário degustativo gozante miller-orweliano também pode ser visto facilmente. Claro, apenas através de imagens midiáticas para a imensa maioria do povo

No Brasil, o cenário degustativo gozante miller-orweliano também pode ser visto facilmente. Claro, apenas através de imagens midiáticas para a imensa maioria do povo
No Brasil, o cenário degustativo gozante miller-orweliano também pode ser visto facilmente. Claro, apenas através de imagens midiáticas para a imensa maioria do povo (Foto: Cássio Vilela Prado)


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“Então, camaradas, qual é a natureza desta nossa vida? Enfrentemos a realidade: nossa vida é miserável, trabalhosa e curta. Nascemos, recebemos o mínimo alimento necessário para continuar respirando, e os que podem trabalhar são exigidos até a última parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba, trucidam-nos com hedionda crueldade. (...) Será isso, apenas, a ordem natural das coisas? Será esta nossa terra tão pobre que não ofereça condições de vida decente aos seus habitantes? Não, camaradas, mil vezes não! O solo da Inglaterra é fértil, o clima é bom, ela pode dar alimento em abundância (...) Por que, então, permanecemos nesta miséria? Porque quase todo o produto do nosso esforço nos é roubado pelos seres humanos. Eis aí, camaradas, a resposta a todos os nossos problemas. Resume-se em uma só palavra -- Homem. O Homem é o nosso verdadeiro e único inimigo. Retire-se da cena o Homem e a causa principal da fome e da sobrecarga de trabalho desaparecerá para sempre. (...). Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante (...)”.

--George Orwell – A Revolução dos Bichos, do personagem “Major” ou o “Beleza de Willingdon”[1].

 

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Antes de tudo ou de mais nada, “Major” nos faz lembrar do genial médico austríaco, pai da Psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939):

“(...) O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro. Tendemos a encará-lo como uma espécie de acréscimo gratuito, embora ele não possa ser menos fatidicamente inevitável do que o sofrimento oriundo de outras fontes.”[2].

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Pode-se verificar na fala do personagem “Major” as três direções mencionadas por Freud acima: o corpo, a natureza e o outro; potencialmente as três fontes de infortúnio do homem e das quais ele não pode escapar, senão numa fuga patológica dessa realidade.

O grande e respeitado porco “Major”, de Orwell, embora mencione as outras duas, o corpo decadente e a natureza, se detém eminentemente na principal fonte de seu sofrimento, qual seja, o Homem (o Outro): “O Homem é o nosso verdadeiro e único inimigo”.

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A partir do “sonho revolucionário” de “Major” foi deflagrada a arquitetura de uma grande rebelião, apoiada inclusive pelos “ratos orwellianos”, captados pela força discursiva do “ideal majoriano subversivo” compartilhado, culminando em “A Revolução dos Bichos”, destronando o grande patrão capitalista, o “verdadeiro e único inimigo”, o proprietário das terras (“Granja Solar”), detentor dos meios de produção e espoliador do trabalho do Outro (trabalhadores da “Granja”), o “Sr. Jones”.

De acordo com esse romance-fábula de Orwell, eminentemente político, ficam às claras alguns fenômenos importantes que podem ser observados também na nossa realidade política circunscrita na esfera do inconsciente freudiano, conforme nos disse o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981), sintetizado na sua frase: “O inconsciente é a política”.

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De fato, “Major” de Orwell parte de um sonho, um desejo psíquico inconsciente ligado à realização do desejo reprimido (ou recalcado), apontando para o seu desejo singular, erigindo-se como o porta-voz do sonho de tantos outros, com o qual se identificam.

Neste sentido, além de ser o porta-voz de um “desejo revolucionário” realizado na via onírica, “Major” mobilizou também o desejo de seu grupo através de sua atividade discursiva pós-sonho, sublevando-se à condição de líder, portanto investido na categoria do grande mestre.

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Assim, pode-se dizer, lembrando a “cuba de Mesmer”[3] a “hipnose coletiva” é propulsora e mantenedora do fenômeno histérico coletivo, haja vista que todo rebanho necessita de um pastor (“mestre que sabe”).

Isso é trivial na política, aquele que supostamente detém o saber e a mestria consegue impor o seu discurso, sendo necessário, atualmente, aliar-se também à mídia e ao capital, ultrapassando inclusive o desejo do Outro (rebanho), perversamente eliminando a sua subjetividade e o sujeito desejante do inconsciente, pois nas brechas significantes onde se engendra o sujeito do desejo singular, o discurso do Outro (mestre, líder) “comprado” pelo discurso do capitalista sutura (oblitera, tampona) todas as frestas vitais onde o sujeito do desejo poderia advir, eliminado ou dificultando sobremaneira quaisquer possibilidades discursivas antagônicas. Nestes termos, o mestre tornou-se ultracapitalista na contemporaneidade, um pouco diferente, portanto, do modus operandi revolucionário do rebanho da velha “Granja Solar” orwelliana.

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Contudo, o que se vê no sensacional desfecho de “A Revolução dos Bichos” é que, de fato, “o inconsciente é a política” (LACAN). A repetição enquanto pulsão de morte triunfal da “Beleza de Willingdon” – o porco “Major” – e os seus mais chegados do rebanho, mantendo assim a mesma lógica social da divisão de classes, gozando de seus novos privilégios e lançando a alteridade (os outros) na latrina da sua velha pocilga.

Assim, aos seus modos, “Major” e seus aliados defecaram um verdadeiro “Golpe nos Bichos”, perpetuando o modus vivendi do establishment encarnado anteriormente no derrotado “Sr. Jones”, o mestre que ruiu, embora deixasse o seu legado burguês operacional.

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É digno de nota inferir que o “sonho de Major” não foi devidamente analisado pelo seu rebanho prêt-à-porter, muito comum nas sociedades complexas atuais em que se engole qualquer mercadoria-fetiche discursiva, pois além de seu “sonho revolucionário” alguma coisa pulsava no seu inconsciente. Qual era realmente o seu “desejo revolucionário” subjacente à sua discursividade envolvente?

George Orwell responde ao final do livro: O poder fálico junto ao gozo perverso letal desferido ao Outro excluído de seu menu privilegiado, demonstrando que a pulsão de vida instituinte trazida no bojo de “A Revolução dos Bichos” foi capturada pelas forças instituídas da pulsão de morte execradora da diferença, eliminado a maioria do “rebanho revolucionário” da comunidade “Granja Solar”.

Se o “inconsciente é mesmo a política”, conforme LACAN, então a política é o seio, o pênis, a vagina, o ânus, a inveja, o incesto, o gozo, a pulsão e seus objetos, o desejo ...

A política do porco “Major” traz tudo isso, mais ainda...

Entretanto, “o inconsciente é a política” e não o seu contrário: “a política é o inconsciente”. A partir de uma outra frase de Lacan: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” talvez se possa dizer, consequentemente, que a “linguagem inconsciente estrutura a política”, nos moldes visto na operação porco “Major”.

De acordo com o psicanalista francês, Jacques-Alain Miller (1944-73 anos) – “proprietário da obra de Lacan” –: “há o psíquico na política, mas a política não é somente o inconsciente, mas também as fantasias, os sonhos, os fracassos e as angústias...”[4].

E continua Miller:

“Fantasias, sonhos, fracassos e angústias há por todo lado em que há o homem, na ação e na contemplação, nas culturas e nas maneiras de fazer, no Estado ou na sociedade, na solidão ou na multidão (...)

Se essa tese [‘o inconsciente é a política’] tivesse um pai certamente seria Freud, que diz alguma coisa parecida – que a política, pelo menos quando ele escreve sobre ela, remete ao inconsciente. Trata-se da tese que ele desenvolveu em ‘Psicologia das massas’, em que analisa as formações coletivas como formações do inconsciente, tendo o mesmo significante identificatório e mesma causa do desejo. (...)

Dessa forma, a política se reduz ao inconsciente e por isso essa tese, embora proveniente de Freud, se presta a objeções que são todas do tipo: há mais na política do que o que provém do inconsciente. Já que nos encontramos diante de uma tese reducionista, as objeções são variações sobre o tema ‘é apenas parcial, é mais complexa, mais ampla, etc.’. Evoquei ‘Psicologia das massas’, mas seria possível ler ‘Mal-estar na civilização’ e ‘Moisés e o monoteísmo’ à luz da mesma tese. Poderíamos rejeitar essa tese dizendo que não é da política que Freud fala, mas sempre do inconsciente, tomando seus exemplos emprestados do campo da política.”.

Evidentemente, afora o brilhantismo retórico-discursivo do grande mestre capitalista Miller, quem parece fazer “reducionismo” é o próprio Miller em suas elucubrações, blindando o inconsciente da civilização e dele tentando se apropriar de forma exclusiva juntamente com o seu pequeno rebanho reacionário mais próximo, a exemplo do porco “Major” e seus conspiradores, denegando assim a herança cultural de Freud e Lacan, transformada de forma deliroide tão somente em seu monopólio reacionário capitalista, insuflando tergiversações lacanesas aos quatro cantos do planeta.

Confuso e dissociado, nesse mesmo texto[5] Miller se contradiz:“Fantasias, sonhos, fracassos e angústias há por todo lado em que há o homem”. Se há o homem, há o inconsciente e a política, bem antes de Freud, Lacan e Miller ...

Ainda com o seu “cofre particular”, o inconsciente, Miller conclui em suas “Intuições milanesas”:

“Os psicanalistas serão colocados na classe attention givers, aqueles cuidadores dentre os quais se encontram os psicoterapeutas, mas também os baby-sitters, os mordomos, os personal trainers, etc. Trata-se certamente de uma classe em expansão, mas esse crescimento é acompanhado de certa desqualificação. Isso cumpre um certo rebaixamento da posição do analista.”[6].

Certamente, com o devido cuidado deve o inconsciente ser operado pelo psicanalista, principalmente no Hôtel Restaurant Le Meurice – Paris (France), onde possivelmente o frequentam o Sr. Miller, o porco “Major”, o “Sr. Jones” e mais alguns ilustres convidados seus, saboreando extravagantes charutos, queijos e vinhos eurocizados.

No Brasil, o cenário degustativo gozante miller-orweliano também pode ser visto facilmente. Claro, apenas através de imagens midiáticas para a imensa maioria do povo.

Assim Miller tem razão: “Fantasias, sonhos, fracassos e angústias há por todo lado em que há o homem, na ação e na contemplação, nas culturas e nas maneiras de fazer, no Estado ou na sociedade, na solidão ou na multidão”.

Estranhamente, nas intuições millerianas, o inconsciente e a política aguardam em casa?



[1] ORWELL, George – A Revolução dos Bichos, Edição Ridendo Castigat Mores, Fonte Digital http://www.jahr.org, eBooks.Brasil.com, 2.000, p. 9 e 10.

http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/animaisf.pdf

[2] FREUD, Sigmund – Obras Completas – Volume XXI, O Mal-estar na Civilização, Imago, Rio de Janeiro, RJ, 1996, p. 85.

[3] CHERTOK, Léon e STENGERS, Isabelle – O Coração e a Razão: A Hipnose de Lavoisier a Lacan, Editora Zahar, Rio de Janeiro, 1990.

[4] MILLER, Jaques-Alain – Intuições Milanesas, Opção Lacaniana, online nova série, Ano 2, Número 5, Julho 2011, ISSN 2177-2673 - Tradução: Inês Autran Dourado Barbosa.

http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_5/Intui%C3%A7%C3%B5es_milanesas.pdf

[5] Idem.

[6] Ibidem.

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