O futebol é uma benção para os pecadores

O ditado diz que o justo paga pelo pecador. Nesse caso, os justos pagam para torcer pelos pecadores. Pecadores esses que ignoram a realidade ao seu redor e querem se colocar a muitos patamares acima



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A temporada 2016 do futebol brasileiro está se iniciando e com ela os mesmos discursos e as mesmas desculpas para justificar os possíveis maus resultados que virão a acontecer. Vou usar como exemplo o caso do Flamengo, meu time de razão e não mais de coração. Digo, de razão, porque você deixa de torcer com paixão quando não está mais sob o controle mental do sistema. Até porque, o futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes que existem. Embora façam de tudo para nos alienar através dessa paixão. É como a prostituta que finge um orgasmo para convencer o cliente de que ele é tão bom de cama que a fez sentir prazer. Lhe convencem de que a sua presença é fundamental para o espetáculo. É óbvio que sim. Como as prostitutas sobreviveriam sem ter quem pagasse por seus serviços?

O time do Flamengo fez dois jogos na temporada, com um empate e uma derrota. No empate, perdeu na decisão por pênaltis para o Ceará. As principais justificativas para os resultados negativos foram: a falta de ritmo de jogo após o período de férias, o intervalo de tempo entre um jogo e outro, o calor de 40° no jogo contra o Santa Cruz em Recife, realizado às 11 da manhã, além de outras desculpas esfarrapadas. Qual trabalhador do mundo pode se dar ao luxo de voltar das férias sem ritmo de trabalho? Qual trabalhador comum pode reclamar de estar trabalhando todos os dias? Imaginem um operador de britadeira, que deve ganhar em torno de 2 salários mínimos, dizendo para o seu chefe que vai parar a cada 20 minutos de trabalho para se hidratar, porque o sol está muito quente. Com certeza seu chefe o mandaria mais cedo para o chuveiro. Não sem antes passar pelo R H para acertar as suas contas.

Mas um jogador de futebol hoje em dia é uma espécie de semi-deus na terra. Os caras já são mimados desde as categorias de base e quando chegam ao profissional acreditam que são verdadeiros astros da novela da vida real. E eles ditam as regras do jogo. Não querem correr no sol, não querem treinar de manhã e a tarde, não querem jogar quarta e domingo, não querem se concentrar, não querem fazer viagens longas para cumprir com as suas obrigações trabalhistas, não querem dar entrevistas, não querem ser cobrados quando perdem, não querem nada que não seja um pomposo salário no final do mês. Ainda tendo o Flamengo como exemplo, temos um centroavante contratado com status de ídolo, que não consegue fazer um gol nem no futebol de botão, há mais de seis meses e mesmo assim, recebe em dia o seu modes to salário de 650 mil reais por mês.

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Qual trabalhador ficaria seis meses recebendo seu salário em dia sem apresentar resultados na empresa em que trabalha? Qualquer prejuízo que um funcionário venha causar a empresa que o emprega, a mesma logo trata de puni-lo pelo erro. Seja com um desconto em seus vencimentos, seja com uma advertência ou com uma suspensão ou até mesmo com a sua demissão. Mas como um jogador de futebol não é um ser humano comum, ele pode se dar ao luxo de perder todos os jogos os quais disputar, todos os gols possíveis de se fazer e todos os pênaltis que cobrar, que nada acontecerá com ele. E ainda vão dizer que tudo é fruto do calendário desumano ao qual são submetidos e que os obrigam a jogar quarta e domingo, viajar toda semana e blá, blá, blá, blá.........

Radicalizando, eu acho que, no Brasil, ninguém que ganhe 100, 200, 300, 650 mil ou 5 milhões por mês pode apresentar desculpas tão infantis para os maus resultados apresentados em seu trabalho. Isso é tirar "nós" de otário, mano! Qual é "parça"? Falta a esses jogadores e também aos técnicos que corroboram com tal comportamento e a imprensa especializada que aliena o povo nos fazendo comprar essa ideia tosca de que jogador de futebol trabalha muito, um pouco mais de vergonha na cara e de conhecimento sobre realidade social e econômica do país. País em que o salário mínimo vale R$ 880,00 e milhões de pessoas sobrevivem apenas com essa quantia e têm que trabalhar duro, seja debaixo de sol ou de chuva, seja de dia ou de noite, para garantir o seu sustento. E mesmo ganhando tão pouco, não podem com eter erros ou se darem ao luxo de fazer corpo mole, sob pena de levarem cartão vermelho do patrão.

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Como é que você, que acorda às cinco da manhã todos os dias para ganhar o seu sustento, reage ao saber que alguém que ganha num só mês o que você nunca ganhará em 30 anos de trabalho, está reclamando por ter que trabalhar debaixo do sol que está muito quente ou da chuva que está muito fria? Como você sente? Eu me sinto um babaca. Assim como todos os torcedores, principalmente aqueles que se agridem e se matam por causa de futebol, deveriam se sentir. Vai ter gente dizendo que os caras merecem ganhar muito. Eu acho que todos que trabalham merecem ganhar muito ou pelo menos um valor digno para viver confortavelmente. Isso vale para garis, médicos, professores, empregados domésticos, eletricistas, bombeiros e etc. O problema é que o sistema nos faz acreditar que uns merecem ganhar muito mais do que outros, mesmo que esses "uns" n&at ilde;o tenha tanta, ou quase nenhuma utilidade social como os "outros". Quem é mais útil à sociedade, o craque Neymar, que está prestes a receber uma proposta de 155 milhões de reais por ano para se transferir para o Real Madrid ou um médico de um hospital público? O milionário atacante Paolo Guerrero, seis meses sem fazer um gol ou o assalariado professor que prepara o seu filho para a vida em sociedade?

O ditado diz que o justo paga pelo pecador. Nesse caso, os justos pagam para torcer pelos pecadores. Pecadores esses que ignoram a realidade ao seu redor e querem se colocar a muitos patamares acima, como se fossem deuses que devessem sempre ser adorados e atendidos em suas queixas, em detrimento de muitos outros que não têm a quem recorrer e nem quem recorra por eles. E assim temos mais um caso de 7x1. E quem está perdendo de goleada é você, que ainda acredita na paixão pelo futebol, no respeito do jogador pelo clube e pela sua torcida e no amor a camisa, mal sabendo que a pátria, que deveria ser educadora, nos faz calçar as chuteiras da ignorância. E nas mãos.

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