O fantástico mundo da mais-valia a partir da indústria canavieira

Não é verdade que o imenso maquinário da cana tenha dispensado o trabalho humano; não é verdade que a produção canavieira seja moderna; não é verdade que o mais-valor, o mesmo lucro, se dê por conta substancialmente, das maquinações. É o trabalho caboclo, crioulo e nordestino que gera a alegria e a vaidade dos donos da cana.

safra cana de açucar
safra cana de açucar (Foto: Ângelo Cavalcante)


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Como canta Gilberto Gil: "Vou fazer a louvação, louvação, louvação... Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado...". Não é por nada, mas todas as loas e louvações para a "moenda moderna" da indústria canavieira, sobretudo, na província de Goiás.

A inteligência maior, depois da roda e do controle do fogo, é o "sossega leão" da automação e da info-produção conferida aos processos sociais, territoriais e produtivos do setor da sucro-energia.

Li no site da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (UNICA) que algo como cinquenta por cento da produção canavieira de São Paulo é maquínica, ou seja, a "modernização", por fim, chegou nas lavras de cana e o maquinário é o busílis desta atividade do império intocável do agronegócio.

Para a banda goiana, menos um pouco, uma variação que vai de trinta e cinco a quarenta por cento da produção é legada às máquinas. Esta é a análise patronal e difundida aos quatro ventos.

A armadilha é confundir a incorporação do maquinário com uma perspectiva moderna. Das duas uma: ou superestimamos o maquinário ou subestimamos a modernidade! Algo, de fato, está muito errado nessa equação teórico-analítica. Ao menos para o caso de Itumbiara/GO, temos cerca de três mil trabalhadores produzindo direta e diariamente nas lidas laborais da cana; no Brasil tem-se algo como quatro milhões de empregos gerados direta e especificamente pelo setor.

O que se passa? A máquina é guiada por androides, ciborgues ou autômatos outros? Não são seres humanos de carne, osso e sensibilidades? Ora, pois, pois... Discurso patronal, oficial e ideológico de ponta a ponta, de fio a pavio, do chão a cumeeira da casa. Não é verdade que o imenso maquinário da cana tenha dispensado o trabalho humano; não é verdade que a produção canavieira seja moderna; não é verdade que o mais-valor, o mesmo lucro, se dê por conta substancialmente, das maquinações. É o trabalho caboclo, crioulo e nordestino que gera a alegria e a vaidade dos donos da cana.

A produção canavieira no Brasil é, linhas gerais, fruto do trabalho humano, direto e manual. A mecanização não dispensou o trabalhador, ao contrário, lhe impôs novas frentes e atribuições. Aquelas colheitadeiras enormes são monitoradas e acompanhadas direta e cotidianamente por equipes de trabalhadores; sua manutenção não se dá no fim do dia ou no fechamento da colheita; é feita, incrível, de maneira intermitente, inclusive, quando está em plena operação.

É o trabalho humano incorporado, objetivado e direcionado na lavoura de cana que rende, por fim, os enormes ganhos para a aristocracia canavieira. E está nas operações das máquinas, nas suas manutenções, nas alterações dos cursos, na mudança dos talhões de terras; na correção destes mesmos talhões, nos levantamentos topográficos ou no preparo das "correções" de solo.

Mas que heresia a minha! Mas é verdade, a produção canavieira no Brasil, apesar das info-tecnologias, das máquinas de última geração, dos rastreamentos de satélites é, de forma panorâmica, trabalho braçal de "a até o z".

Aliás, nós os "caipiras urbanos", aceitemos isso ou não, somos parte decisiva da produção canavieira; mesmo não estando na atividade direta de sua produção e processamento; somos a necessária parte da conformação, do disciplinamento e que a macro-produção de cana impôs aos territórios. Isso mesmo... Não se disciplina apenas o campo da produção; as máquinas e os processos de trabalho. A cidade com seus bairros, as governanças locais e os movimentos sociais da cidade são igualmente disciplinados ou não se moí a cana.

A monocultura não está somente no campo; para adiante dessa visão, nós somos a "outra monocultura", sua dinâmica, seus disciplinamentos e ordenações. Sem isso... Não pode haver a sucroenergia, seu apocalipse ambiental e que canina e docilmente, decidimos acatar. Por fim, me espanta como ainda não temos um Movimento dos Atingidos pela Cana (MAC)!

 

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