O dia em que viramos comunistas
O protagonismo desse momento histórico já tem dono. É do ex-presidente Lula. Suas falhas e virtudes, erros e acertos, culpado ou inocente, tudo isso será analisado e debatido fora do calor do momento, trazendo luz e verdade
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Para compreender a importância de um homem público para a História, é preciso lançar os olhos na direção do futuro, pelo menos uns 30 anos à frente. Nesse espaço de tempo, por exemplo, quase todos os senadores da República em atividade já estarão adubando plantinhas. Ninguém se lembrará de Ronaldo Caiado, Antônio Anastasia, Cristovam Buarque e Ana Amélia, salvo seus descendentes. Renan Calheiros, Romero Jucá, Cássio Cunha Lima, Aécio Neves, entre outros sustentáculos do impeachment da presidente Dilma, o que a memória coletiva guardará de vocês, findo três décadas desse golpe? No máximo uma estátua em suas cidades de origem, coberta por cocô de pombos. A Michel Temer, não restará sequer comparação com Café Filho, que assumiu a presidência da República após o suicídio de Getúlio Vargas. Temer tomou o governo de uma presidente viva. Eduardo Cunha, Jair Bolsonaro, Marcos Feliciano, todos passarão, ao contrário do que prega o bordão das esquerdas. Passarão para a lixeira da História, como já dizia Leonel Brizola.
A História é cruel com os coadjuvantes. Todo mundo sabe quem foi Luiz Carlos Prestes, mas ninguém conhece o nome do juiz que o condenou a 16 anos de prisão por "crimes contra segurança nacional", em 1936. É provável que o também juiz Sérgio Moro não mereça mais do que 10 linhas nos livros escolares de 2046. O protagonismo desse momento histórico já tem dono. É do ex-presidente Lula. Suas falhas e virtudes, erros e acertos, culpado ou inocente, tudo isso será analisado e debatido fora do calor do momento, trazendo luz e verdade.
Para o pesquisador, o maior desafio é encontrar o fio condutor da investigação, perdido no emaranhado de informações contaminadas por interesses os mais diversos. Um bom caminho é começar eliminando mitos. O Brasil já passou por dezenas de crises econômicas sérias, e nem por isso presidentes foram apeados do poder. Não é possível, portanto, explicar o impeachment da presidente Dilma pelo viés das dificuldades financeiras que levaram o governo a cometer as pedaladas fiscais.
Outro mito é o combate à corrupção. A legislação brasileira não sofreu qualquer alteração significativa, que justifique resultados tão diferentes entre os julgamentos dos réus da Lava Jato e os políticos envolvidos no escândalo Banestado, ambos conduzidos pelo mesmo juiz Sérgio Moro. Aliás, o esquema de corrupção na Petrobras vicejou porque, lá atrás, vários políticos ladrões se safaram da Justiça, desaparecendo com mais de dois bilhões de reais dos cofres públicos.
O último mito é, ao mesmo tempo, o mais antigo recurso utilizado pelas elites brasileiras para se perpetuarem no poder: O COMUNISMO. A partir de quando o governo petista passou a ser uma ameaça comunista para a classe média? Até 2014 estavam todos satisfeitos, trocando de carros, viajando com a família para a Disney, usufruindo o que o capitalismo tem de melhor a oferecer. Os banqueiros riam de orelha a orelha. A indústria não conseguia atender a demanda. Aí, do nada, aparece um político imbecil, com ranço de caserna, dizendo que apoia torturador para livrar o Brasil do comunismo. E a classe média, que já foi formadora de opinião, se torna um bando de zumbis repetindo essa bobagem e agredindo pessoas que ainda mantêm alguma lucidez sobre a realidade.
A tese da "ameaça comunista" precisava de um fato gerador de desconfiança na sociedade para vicejar. E foi o que aconteceu no dia 1 de junho de 2015, quando a presidente Dilma Rousseff regulamentou os direitos trabalhistas das empregadas domésticas. Existe algo mais subversivo do que libertar da senzala milhões de brasileiras exploradas por seus patrões? O simbolismo embutido na legislação não deixava dúvidas: o governo interferia na "propriedade" dos senhores de engenho do século 21. E por isso apoiam o golpe, na certeza de que Michel Temer anulará as conquistas de suas mucamas, na reforma trabalhista que já está em marcha.
Para o explorador doméstico, ser obrigado a pagar fundo de garantia a uma serviçal é uma ingerência do governo sobre um assunto que diz respeito somente a ele e à sua "propriedade humana". Foi a gota d´água para quem já andava de nariz torcido com o filho da lavadeira, cursando a mesma universidade frequentada pelo "senhorzinho".
Se depender dos coronéis do Senado, Dilma já está cassada. Pior para o filho do policial, para a filha do bombeiro, para o trabalhador que terá a aposentadoria cada vez mais distante. A permanência de Temer no governo, ao lado de sua elite branca, rasga a Lei Áurea assinada por princesa Isabel. A sociedade brasileira continua escravocrata. E, mansamente, nos submetemos ao jugo dos nossos senhores. Resta saber até quando.
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