O desmonte das políticas públicas e a disputa de valores

Esta é uma disputa de valores, esta é uma disputa de projetos. Nas privatizações e nas "doações" feitas por empresas de serviços e material para a Prefeitura é a tentativa de passar a ideia que a iniciativa privada é melhor e mais eficiente que o setor público

temer doria alckmin
temer doria alckmin (Foto: Chico Macena)


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Durante a gestão do PT, com o Prefeito Fernando Haddad, à frente da Prefeitura de São Paulo, publiquei uma série de 35 artigos falando das políticas públicas que estávamos desenvolvendo para a cidade. Recentemente, fiz uma releitura de todo material e, por conta do que vem ocorrendo no município: o desmonte promovido pela gestão Dória (PSDB) resolvi reescrevê-los.

No geral, eles estavam corretos para aquele momento, mas conclui que merecem uma releitura com base na nova conjuntura. Começo por este artigo, publicado em 4 de setembro de 2015, na Revista Fórum, que não foi o primeiro, mas que sintetiza os objetivos que deveriam ser atingidos.

Retomarei cada tema e ao reescrevê-los modifico algumas partes e incluo minha avaliação pessoal sobre as dificuldades que enfrentamos e estamos enfrentando.

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Mais do que metas, programas e obras: valores

Um dos grandes desafios de qualquer governo é a disputa pela hegemonia na sociedade, o apoio e o reconhecimento da população para a implementação e consolidação de seus programas e projetos que possam, ao longo do tempo, mais do que políticas de governo se transformar em políticas de Estado. Muitas vezes, essa disputa de opinião tem apenas como horizonte o embate eleitoral, reduzindo o alcance e os impactos das políticas públicas.

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A experiência que vivenciamos na gestão do ex - Prefeito Fernando Haddad deixa nítido que um governo que representa um campo democrático e popular sofre fortes resistências dos setores mais conservadores e tradicionais, em todos os terrenos. Uma dura batalha travada desde o primeiro ano, quando foi apresentado um projeto tangível para o desenvolvimento do município, com seu reordenamento, consolidado na proposta do Plano Diretor Estratégico (PDE); na ampliação da malha de faixas exclusivas para ônibus; na abertura dos espaços públicos para sua reapropriação pelos cidadãos; na definição de prioridades de políticas públicas para quem mais precisa; no respeito à diversidade; na redução da velocidade nas marginais e outras artérias da mobilidade, ações que priorizavam a vida e dialogavam com a busca de uma cidade mais moderna, mais humana e com a construção coletiva de uma nova identidade local.

Batalha esta que continua na cidade de São Paulo, sobretudo agora com o desmonte de todas estas e outras políticas públicas. O objetivo é implantar outro projeto na cidade, na realidade é mais do que isto, a ideia é disputar outros valores na sociedade.

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Na disputa de concepções de mundo, não basta uma relação de obras a serem construídas. É cada vez mais imprescindível debatermos com a sociedade quais valores se devem consolidar para construir uma cidade mais humana, justa, participativa, solidária e mais aberta aos seus cidadãos. Onde os interesses coletivos se sobreponham ao individualismo; o direito ao deslocamento com segurança se antecipe ao risco de morte pela velocidade excessiva; o da inclusão social e da equidade se sobressaia à acumulação sem limites; a participação social tenha mais valor que as decisões monocráticas. Enfim, buscar uma identidade de cidade para que pessoas sejam coparticipes de sua construção e se sintam contempladas, sobretudo os setores menos favorecidos.

Isso não implica que devemos subestimar o alcance social das intervenções na cidade, como a construção dos 3 hospitais (1 entregue e 2 que deixamos em obras), dos 71 equipamentos de saúde entregues e dos 36 que deixamos em obras. Na área da educação, são 85 equipamentos educacionais entregues (38 creches, 32 EMEIs, 14 EMEFs e 1 CEU) e mais 81 que deixamos em obras (54 creches, 18 EMEIs, 1 EMEFs e 8 CEUs). Na área da habitação, foram entregues 9.590 unidades habitacionais. Essas são apenas algumas obras realizadas para as pessoas de São Paulo.

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Por meio dessas ações, a gestão Haddad, deixou um legado para a cidade de São Paulo, além de ampliar seu compromisso com a cidadania. Mas frente ao desmonte que estamos vivenciando e certa passividade da maioria da população cabe-nos também refletir em estas obras, projetos e programas, foram insuficientes para disputar a hegemonia na Cidade. O que faltou? Apenas comunicação? Presença? Método? Discutir mais com a população? Talvez um pouco de tudo isto.

Esta era do "quero mais" é necessária para uma cidade das dimensões e dos desafios de São Paulo. Mas, a ampliação das conquistas, não pode se resumir apenas na legítima pauta de reivindicações, que reconhecemos e perseguimos, por isso que investimos tanto na realização das obras que atendiam, de imediato, quem mais precisa.

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Essas demandas estiveram presentes nas manifestações de junho de 2013, especialmente, no início. Entretanto, no seu desenrolar, essas manifestações, foram tomadas pela agenda dos setores mais atrasados e conservadores da sociedade.

Tanto no processo de construção, quanto na execução do nosso projeto, não conseguimos explicitar o alcance social, cultural e político das intervenções, propostas e realizadas, os valores que este projeto representava e que defendemos, de forma a buscar o apoio da população às nossas iniciativas chamando-a a participar da construção coletiva dessa identidade.

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Não podemos subestimar também o alcance da estratégia da elite em desconstruir os valores de sociedade que defendemos e para isto desconstruir as políticas públicas que defendemos. A verdade é que, hoje, os interesses individuais se sobrepõem, transformando toda a Prefeitura num instrumento para promoção pessoal, entregando o patrimônio público, o interesse privado se sobrepõe ao público.

Isto vem acontecendo em todas as áreas da administração: o direito ao deslocamento com segurança dá lugar aos poucos que se utilizam da via pública como se fosse apenas sua e leva ao risco de morte pela velocidade excessiva; a acumulação sem limites sobressai à inclusão social e a equidade; as decisões monocráticas tem mais valor que a participação social.

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Enfim, buscar uma identidade de cidade que não é para todos e todas, em que as pessoas não sejam coparticipes de sua construção e não se sintam contempladas, sobretudo os setores menos favorecidos.

Esta é uma disputa de valores, esta é uma disputa de projetos. Nas privatizações e nas "doações" feitas por empresas de serviços e material para a Prefeitura é a tentativa de passar a ideia que a iniciativa privada é melhor e mais eficiente que o setor público.

No sucateamento de toda a política de seguridade social é passar a ideia que cada individuo tem que usar de sua "competência" para resolver "os seus problemas e ser inserido na cidade". E assim por diante, vamos vivenciando a maior de todas as corrupções: que é apropriação do público em benefício de uma minoria.

Esse é o debate que os setores conservadores das elites locais e seus porta- vozes nos meios de comunicação tradicionais, querem interditar, querem impedir que seja feito. É preciso persistir, nos espaços possíveis desses meios de comunicação de massa, nas redes sociais e, sobretudo, nos espaços dos movimentos sociais organizados e daqueles que se identificam e apoiam a construção de um Projeto Democrático e Popular.

A luta por valores está em andamento e os setores progressistas devem fazer essa disputa palmo a palmo, rua a rua, nas suas diferentes dimensões, pois o debate não se manifesta apenas nas ações do nosso e do atual governo, ela envolvem valores que definirão o futuro das cidades. Ele permeia todo o tecido social.

Esse é o chamamento que devemos fazer a todos os setores sociais comprometidos com um projeto mais humano de cidade, moderno e inclusivo, solidário e tolerante às diferenças, democrático e aberto à participação social. Que respeita as demandas de todos e todas, mas que prioriza as dos que mais precisam.

Uma cidade mais moderna e mais humana: não é apenas um slogan, não foram apenas metas, programas e obras, foi um valor que foi construído coletivamente. Uma cidade para todos e todas é um direito a ser perseguido e que queremos conquistar.

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