O desafio de provar que está vivo para quem tem dificuldade de andar a pé
Perdi um dia inteiro em diferentes filas, e vários carimbos depois eu estava quites com a República. Meu desafio anual agora é provar que estou vivo e tenho direito a receber a merreca que me pagam, após 54 anos de trabalho como jornalista, que não dá nem para pagar o plano de saúde
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Por Ricardo Kotscho, para o Balaio do Kotscho e os Jornalistas pela Democracia – A distância continua a mesma, apenas três quarteirões, mas a cada ano aumenta minha dificuldade de andar até a agência bancária para fazer "prova de vida".
Como ninguém pode fazer isso por mim, não tenho mais carro e fica chato pegar um táxi para percurso tão pequeno, encarei mais uma vez o desafio.
Em vários acidentes de percurso na longa estrada da vida, já acumulo fraturas nos dois joelhos e nos dois braços, entre outras quebraduras, o que me deixou meio torto, fora de eixo.
Morro de medo ao atravessar a rua ou andar pelas calçadas da cidade cheias de obstáculos.
Faixas de pedestres, como sabemos, não passam de enfeite em São Paulo.
"Você só não pode cair de novo, porque aí não tem mais conserto", advertiu-me o dedicado e competente ortopedista André Matias, que me operou no ano passado.
Desde então, caminho sempre olhando para o chão para evitar as armadilhas antigas e as novas.
Além dos desníveis, dos buracos, das obras e dos cocos de cachorros, entre outros perigos, agora tem os fanáticos por celular.
Vira e mexe esbarro em alguém digitando furiosamente no seu aparelho, que passa por cima de mim, sem nem reparar que eu existo.
Ando agora com os dois braços esticados para a frente a título de para-choque.
Devem achar estranho, mas é melhor do que levar uma trombada pedestre.
Após algumas paradas no caminho, chego enfim ao destino, uma agência do Itaú nos Jardins, quase deserta de funcionários e clientes na hora do almoço.
Pensei que seria tudo muito rápido, só mostrar os documentos e dizer. "Vim aqui para provar que estou vivo".
Havia só duas caixas atendendo e meia dúzia de septuagenários como eu esperando sua vez na fila com o mesmo objetivo.
A fila não andava e só ao ser atendido descobri o motivo.
O caixa, depois de registrar a sobrevivência do cidadão no computador, condição "sine qua non" para continuar recebendo a aposentadoria, oferece outros serviços do banco que você não pediu.
Para ir embora logo, aceitei fazer um "seguro protetor do cartão de crédito", por módicos R$ 10 mensais, sem entender qual a serventia daquilo.
Já pensaram quanto rende isso para quem tem muitos milhões de clientes?
Mas provar que você está vivo até que não é tão complicado.
Difícil mesmo, no Brasil, é provar que você morreu, como aconteceu com minha mãe, 15 anos atrás.
Já contei essa história aqui no blog, mas não custa repetir, para mostrar porque, entre outros motivos, a previdência está quebrada, e querem tungar a aposentadoria dos velhinhos _ só dos civis, é claro, que recebem pelo INSS, como é o meu caso.
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Mesmo depois de comunicar o falecimento de minha mãe aos órgãos competentes, com o devido atestado de óbito, o INSS continuou depositando a aposentadoria dela, mês após mês.
Como eu trabalhava no governo, fui reclamar até com o ministro da Previdência na época, o Amir Lando, se não me engano, mas não teve jeito. Seguiam depositando religiosamente em dia o valor da pensão, como se ela ainda estivesse viva.
Nesse meio tempo, o ministro caiu, e entrou outro, ninguém menos do que o inefável Romero Jucá. Sim, ele mesmo, aquele do "supremo com tudo".
Pedi a ajuda de um assessor dele para resolver o problema e a resposta do ministro que recebi nunca vou esquecer:
"Fala pro Kotscho que é mais fácil a mãe dele ressuscitar do que resolver este problema aqui".
Só meses depois consegui finalmente receber um documento com o valor dos benefícios indevidos, que deveria restituir ao Tesouro Nacional.
Perdi um dia inteiro em diferentes filas, e vários carimbos depois eu estava quites com a República.
Meu desafio anual agora é provar que estou vivo e tenho direito a receber a merreca que me pagam, após 54 anos de trabalho como jornalista, que não dá nem para pagar o plano de saúde.
"Nos vemos no ano que vem", despediu-se o gentil e otimista bancário que me atendeu, mas eu tenho lá minhas dúvidas.
Ainda bem que só preciso ir lá uma vez por ano, depois que inventaram o caixa eletrônico.
Da próxima vez, ainda espero encontrar lá algum funcionário, já que o grande sonho dos banqueiros é ter um banco sem bancários.
Para quem vou provar que estou vivo, se estiver?
Com atestado de vida no bolso, achei mais seguro voltar de táxi.
Vida que segue.
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