O combate ao racismo não deve ser seletivo

Estar numa rodinha de amigos brancos e rir da piadinha racista feita por um deles, achando normal tal comportamento, faz de você um cúmplice do racismo. Ainda que você não seja ou não se considere racista

Racismo
Racismo (Foto: Nêggo Tom)


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A estupidez humana não tem mesmo limites. Principalmente quando a intenção é causar. A bola - ou boba - da vez, é uma senhora conhecida como Day Mc Carthy, que se apresentava nas redes sociais como socialite e escritora. Essa mesma mulher já havia protagonizado um episódio, envolvendo a filha do apresentador e empresário Roberto Justus, no qual ela comparou a menina ao boneco Chuck, personagem principal do filme "Brinquedo Assassino" e fez as mais estúpidas observações com relação a aparência da criança, que é portadora de uma síndrome rara. Ouvi dizer também, que ela teria destilado o seu veneno contra o filho da apresentadora Ana Hickmann, fazendo insinuações sobre a sexualidade do garoto.

Mas como tudo que já é ruim, ainda pode piorar mais um pouco, a tal socialite resolveu atacar a menina Titi, filha adotiva dos atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank. A criança, que é preta, foi vítima de comentários racistas, mais absurdos do que a própria existência de pessoas como a referida socialite. Não vou textualizar aqui as expressões usadas pela agressora, mas gostaria contextualizar as reações que elas provocaram nas pessoas, tendo por base o racismo sistêmico e estrutural, o qual a nossa sociedade está submetida. Embora muitos não percebam.

Há poucos dias, a atriz Taís Araújo foi ridicularizada nas redes sociais, sendo tema de memes e de outras manifestações satíricas, por dizer que: "a cor da pele do meu filho, faz com que as pessoas mudem de calçada, segure a bolsa mais forte...", o que, de fato, acontece. Não com o seu filho, que pertence a uma classe social economicamente favorecida e cujos pais, possuem representatividade na sociedade. E ela também não estava se referindo a ele diretamente. O que ela fez - de forma muito empática - foi chamar a atenção para a realidade de outras crianças pretas, que ao contrário de seu filho, não tem quem as defenda da mesma forma, não são economicamente favorecidos como ele e não são filhos de artistas ou de outras figuras ditas de "expressão".

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A repercussão de sua fala, prova o quanto a má intenção de uns e a dificuldade de interpretação de texto de outros, podem ser prejudiciais a um debate sério e pontual e contribuem para desqualificar os sentimentos de indignação de quem sofre, na pele, a agressão do preconceito. O uso do termo "vitimismo", é a nova fórmula aplicada pela sociedade racista, para tirar a legitimidade da luta por igualdade e respeito. Aliás, a história nos mostra que os racistas são bem criativos, no emprego de neologismos que visem adjetivar, de forma pejorativa, seja a nossa luta contra a opressão racial, seja a nossa simples existência. O que quase passa despercebido, é o fato de que as manifestações de apoio as declarações anti racismo de Taís, são infinitamente menores do que as manifestações de solidariedade e empatia, a causa, também anti racista, de Bruno e Giovanna.

O que eu quero dizer com isso? O afago oferecido a pequena e linda Titi, se dá muito mais pelo fato de seus pais adotivos serem brancos e famosos, do que propriamente em função de um real engajamento das pessoas no combate ao racismo. Alguém acha que se a menina fosse pobre e filha de pais que não contam com o apoio da mídia, o caso teria tido toda essa repercussão? Os próprios atores sabem disso. Tanto é, que vale destacar a consciência das declarações de Bruno, reconhecendo que fatos como os que ocorreram com a sua filha, acontecem a toda hora em nossa sociedade, sem que haja uma punição ou manifestação de repúdio por parte de quem os presencia. Ele também chamou a atenção para a necessidade de se combater o racismo, sendo anti racista, o que é diferente de não ser racista. O que ele quer dizer com isso, é que, algumas práticas e aquelas já conhecidas e mais do que esfarrapadas desculpas, que apenas visam camuflar o racismo, devem ser combatidas e evitadas.

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Estar numa rodinha de amigos brancos e rir da piadinha racista feita por um deles, achando normal tal comportamento, faz de você um cúmplice do racismo. Ainda que você não seja ou não se considere racista. E depois não adianta dizer que a sua bisavó era negra, que o seu melhor amigo de infância era preto, que a babá dos seus filhos era preta e tratada como sendo da família ou que tem muitos amigos pretos e eles não se importam com as brincadeiras racistas que você faz. Nada disso lhe autoriza a ser racista e nem a compactuar com o racismo. E nem deveria. Principalmente para quem diz possuir tantos laços de afetividade com pretos, não é mesmo? O ser anti racista, proposição bem aceita quando feita por brancos, é justamente abolir dos nossos hábitos cotidianos, qualquer tipo de atitude e de comportamento que ajude a perpetuar o racismo em nossa sociedade. Ate mesmo as ditas "brincadeiras", que sempre foram de extremo mal gosto. Só os racista não percebiam.

O sofrimento de quem nasceu com a pele clara e com os olhos verdes de Bruno ou com os azuis de Giovanna, gera mais comoção. Sabemos que isso é estrutural. A imposição dos padrões europeus - sejam eles culturais, sociais ou estéticos - como exemplos de superioridade, de civilidade e de mais merecimento, vem de séculos atrás. Mas vale a pena chamar a atenção para a responsabilidade individual de cada um, enquanto seres humanos. Um exemplo disso, é que na Líbia, cidadãos estão sendo violentamente torturados em sua dignidade, inclusive vendidos como escravos, mas a seletividade dos sentimentos de alguns, não permite manifestações emocionadas de apoio aos pretos que lá sofrem. Não é o suficiente para que se ergam hashtags do tipo:#PrayforLíbia. Se fosse na França, até seria compreensível. É como se o sofrimento de alguns fosse inerente a sua existência e associado com naturalidade, a sua condição. Seja ela racial ou social.

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Eu não tenho a intenção e nem a pretensão de ser um ativista da causa, apenas uso esse espaço para manter viva a chama da resistência. Principalmente naqueles não muito favorecidos como eu. Sem falar que o meu grau de representatividade não me confere tal status. Sei que existe alguns se aproveitando da causa para se promoverem, para ganhar mais likes em suas postagens, mais seguidores no seu canal e serem vistos como pessoas notáveis. E mesmo sendo estes, oportunistas da causa, eles têm lá a sua importância no despertar da consciência. Acredito também que, qualquer cidadão, no seu lugar e do seu lugar, pode fazer a diferença e lutar por uma sociedade mais justa e mais igual. Erradicar o preconceito, não é uma missão apenas de quem sofre os seus efeitos. É uma missão de todo cidadão que seja do bem e que possua o mínimo de respeito pelo ser humano.

Sobre a tal socialite - que parece que nem socialite é - fica claro que a sua intenção era ganhar notoriedade, usando pessoas famosas para se promover e ter os seus 15 minutos de fama. Usou dos métodos mais equivocados possíveis para conseguir o seu intento. Ganhou o seu biscoito, mas deve comê-lo atrás das grades. Esquecida e sem o glamour que ela costumava exibir em suas redes sociais. O figurino de presidiária, assim como um bom tratamento psiquiátrico, também lhe cairá muito bem. Embora eu nunca tenha visto ninguém ser preso por práticas racistas. Será que agora vai? Deveria. É necessário que seja. Para que sirva de lição e iniba outras manifestações como essa. Vivemos um momento triste da existência humana. Onde se exalta figuras tidas como míticas, que promovem o ódio e a violência como solução para os problemas da sociedade. Onde se endeusa líderes religiosos tidos como representantes de Deus, que promovem a intolerância e a divisão, praticando puro charlatanismo. Onde não se reage diante de um governo elitista, que vem acabando com os direitos do povo, normatizando a opressão e reinventando a escravidão de forma moderna.

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O combate ao racismo e a qualquer outro tipo de opressão, não deve ser seletivo. Nenhum tipo de preconceito e discriminação pode ser tolerado! Ainda que não seja com você, Denuncie! Reaja! Se posicione contrariamente, tenha empatia. Todos merecemos respeito!

Viva a resistência!

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