Neymar e os nossos malvados favoritos
Não sejamos ingratos. Neymar pode ser marrento, mas joga no nosso time. Ainda bem! Ou será que por pirraça e falta de empatia alguém vai pedir o impeachment dele na seleção?
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Bem, amigos! Finalmente conquistamos a tão sonhada medalha de ouro no futebol masculino. Contrariando as pitonisas e os pessimistas de plantão, Rogério Micale, Neymar, Weverton e companhia chegaram ao lugar mais alto do pódio. Levamos mais de cem anos para conquistar o ouro olímpico com o esporte mais popular do país, mas como somos brasileiros e não desistimos nunca de arrumar um culpado, mesmo na vitória, nosso principal jogador e um dos heróis da conquista, virou o alvo preferido da ira de boa parte da nossa torcida.
Mas analisando bem alguns ditos “heróis” nacionais dos últimos tempos, chego à conclusão que essa relação de amor e ódio é natural e em alguns casos, bem conveniente. Quem não se lembra dos afagos recebidos por Eduardo Cunha, à época da votação do processo de impeachment da presidente Dilma na câmara? Cunha era o craque principal do time dos golpistas. Um verdadeiro “Messi” na armação de jogadas e na aplicação de dribles desconcertantes tanto em seus adversários políticos, quanto na receita federal. E assim ganhou a simpatia e a anistia de muitos cidadãos de bem, que têm com ele uma dívida de gratidão eterna, por ter conseguido dar o pontapé inicial para o golpe.
Frases como: “Somos milhões de Cunhas”, “Cunha, meu malvado favorito” e “Cunha pode ser corrupto, mas está do nosso lado”, ganharam destaque na rede. O curioso é que muitos desses que tinham em Cunha o seu malvado de estimação, estão condenando e colocando no paredão o nosso craque Neymar, por ele ter desabafado em rede nacional após a conquista do inédito ouro olímpico. Não farei aqui a defesa de Neymar, até porque eu acho que ele é muito mimado e egocêntrico mesmo, mas longe de mim, querer exigir que um jogador de futebol tenha a postura de um presidente da república ou de um monge tibetano.
A perseguição e as cobranças ao novo malvado de ouro do nosso futebol são um pouco exageradas. Neymar tem mais virtudes do que Eduardo Cunha e do que todos os outros candidatos a malvados favoritos que andam por aí. O seu dinheiro é fruto do seu trabalho e ainda que sonegue impostos, como diz a justiça espanhola, não deve ser julgado por isso, né? Pelo menos esse deve ser o pensamento de quem teve no corrupto e sonegador profissional Eduardo Cunha um aliado a favor do golpe. Neymar não pede a senha do cartão de crédito dos seus fãs para fazer as suas festinhas privadas e nem promete a torcida, fazer milagres em campo em troca de generosas doações para as suas instituições.
A faixa “100% Jesus” que ele usa na cabeça, se não retrata fielmente a humildade contida em sua alma, parece que não tem fins lucrativos, logo ele não pode ser acusado de heresia. Pelo menos por quem costuma usar o dízimo para comprar bênçãos na igreja da esquina, nas mãos de líderes religiosos que são 1% de Jesus, mas que têm aquele 99% vagabundo. Neymar, pelo que me consta, não falta aos treinamentos, não chega atrasado e não conquistou a faixa de capitão da seleção armando um golpe contra o titular do posto. Sendo assim, não pode ser chamado de mau caráter. Pelo menos por quem apoia um presidente intruso, que conquistou a faixa presidencial jogando sujo e dando carrinho por trás até na própria companheira de time.
Neymar pratica o futebol arte, sabe jogar bonito e eficiente. Jamais faria uma menção honrosa a um torturador da bola. Alguém imagina o Neymar oferecendo a medalha de ouro em homenagem à história do Val Baiano? Ao contrário de outros capitães, ele até merece ser chamado de mito. Compará-lo a um menino rico mimado que faz beicinho quando não fazem a sua vontade, não é apropriado para quem votou no candidato derrotado nas últimas eleições presidenciais. Pelo que consta, Neymar nunca tentou anular o resultado de um jogo que ele tenha perdido, apenas por não se conformar com a derrota.
Pensado bem, acho que o Neymar pode ser considerado o melhor “malvado favorito” que temos por aqui ou pelo menos o que melhor nos representa. Somos milhões de Neymares, deslumbrados com a nossa certeza de que somos melhores do que aqueles que julgamos piores do que nós. Somos milhões de Neymares que guardamos dentro de nós a vontade de mandar alguém engolir uma ofensa que nos foi proferida. Não sejamos ingratos. Neymar pode ser marrento, mas joga no nosso time. Ainda bem! Ou será que por pirraça e falta de empatia alguém vai pedir o impeachment dele na seleção? Pensa bem! Craque interino, não ganha jogo. A não ser que compre o juiz.
Viva, Neymar! O nosso malvado favorito.
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