Lute por seus direitos. A lição de cidadania de uma travesti

Devemos reagir, gritar e subir na mesa se for preciso. Vergonha é se curvar diante do que nos oprime e diminui a existência. Desconstrução de valores injustos e de padrões discriminatórios se faz com atitude. Quem não luta por seus direitos não é digno de tê-los

É difícil reconhecer um travesti
É difícil reconhecer um travesti


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A travesti Lanna Ellen, que foi impedida de usar o banheiro feminino dentro de um shopping de Maceió, acabou nos dando uma lição de cidadania na luta por seus direitos. Não vou entrar no mérito de que ela deveria ou não ter acesso ao banheiro feminino, porque o tema pode ser mais complexo do que parece. Quero falar de sua atitude prontamente reativa, que mobilizou centenas de outras pessoas, independente do gênero destas, a se unirem a ela e protestarem contra a ação dos seguranças do shopping.

Eu daqui, você daí, reflitamos nós. Quantas vezes já tivemos o nosso direito e a nossa liberdade violados, de alguma forma, e não reagimos? Seja por falta de coragem, ausência de argumentos, seja para tentar demonstrar superioridade diante da situação, para não parecer "problemático", ou, simplesmente, para não "fazer vergonha" em público. Eu citei quatro reações muito comuns, e que são estimuladas por uma estrutura social construída e preservada para favorecer o opressor.

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Enquanto os conceitos de reação ao preconceito e às injustiças forem "geridos" por quem os promove, nada vai mudar. Cada um tem o seu lugar de fala nessa história. E quem ainda não sabe se colocar no seu, deve ser ensinado. Não podemos ter medo de lutar por nossos direitos. Doa a quem doer. Incomode a quem incomodar. Existe um versículo bíblico, entre alguns outros que foram adulterados ou acrescentados por algum interesse escuso (Porque nem o mais “terrível” cristão da face da terra, pode acreditar que nada foi alterado nas sagradas escrituras. Seria muita ingenuidade ou desatenção com o que está lendo), que diz, entre outras palavras, que não devemos "arrumar problemas" com os poderosos.

“Não processe nenhum homem poderoso, para não cair nas mãos dele” – Eclesiástico, capítulo 8, versículo 1. Talvez, aqui se faça uma subliminar recomendação de submissão social, sob a égide da obediência à Deus. Ainda que o tal “poderoso” lhe prejudique, seja cruel, excludente, tente cercear sua liberdade ou retirar os seus direitos, “Deus” nos aconselha a ficarmos calados. E pensar que Jesus Cristo foi crucificado, exatamente por "subverter" a ordem imposta e bater de frente com os poderosos de seu tempo, levando sua mensagem de justiça, igualdade e amor ao próximo. Teria ele desobedecido a seu pai?

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Não contestar textos bíblicos está incluído no manual de obediência ao qual estamos submetidos. Deus castiga. É pecado. É blasfêmia etc. Observem que dentro desse contexto "Deus" só castiga os mais pobres, aqueles que não aceitam a opressão imposta pelo sistema ou aqueles que são considerados “diferentes” dos padrões considerados como normativos e aceitáveis. Por que será? Talvez porque o deus apresentado e aceito por muitos como seu senhor, seja o próprio sistema. Blasfêmia! Será?

A mesma Bíblia que diz que o escravo deve ser submisso a seu senhor também diz que Deus nos fez livres e que não devemos nos conformar com as injustiças deste mundo. Ou a liberdade de alguns reside no seu bom comportamento como escravo ou ser escravizado por alguém é algo justo aos olhos de Deus. Alguém mais iluminado ou mais ungido (o que não é muito difícil de se encontrar por aí) fará algum malabarismo teológico e apresentará alguma justificativa divina, para tal contradição. É a pretensão de querer explicar Deus, como se algum homem tivesse essa capacidade, justificando o mal praticado sobre a terra.

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Se a travesti Lanna Ellen e tantos outros que não arregaram para o opressor, cada qual em sua luta, tivessem evitado bater de frente com o preconceito sofrido, apenas estariam contribuindo para a perpetuação do mesmo em nossa sociedade. E assim, a manipulação e as mentiras em nome de Deus, da moral, da tradição e de outros “bons costumes” que subjugam e oprimem as chamadas minorias, sempre estariam com as suas configurações de hipocrisia atualizadas com sucesso. O sistema agradece à sua covardia.

Em muitas situações, a tão falada “vontade de Deus” é definida pelos poderosos para justificar a maldade humana, a desigualdade social, a sede de poder e o desprezo pela vida do outro, que eles nutrem dentro de si. A vontade de oprimir, excluir e dominar é apenas deles. Devemos reagir, gritar e subir na mesa se for preciso. Vergonha é se curvar diante do que nos oprime e diminui a existência. Desconstrução de valores injustos e de padrões discriminatórios se faz com atitude. Quem não luta por seus direitos não é digno de tê-los.
 

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