Laços sociais? Sofisticados homens selvagens
O Homem ainda é um animal selvagem, a mediação das palavras não conseguiu banir o seu vampirismo canibal destruidor. Se não ocorre a agressividade verbal e a violência simbólica, o silencioso ato real aflora
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Anterior à invenção do Humano, forjado com o advento do simbólico cultural, a agressividade e a violência inatas pareciam ser o único meio vincular entre as primeiros mamíferos pré-humanos da Terra. A prevalência da força física era a medida de todas as coisas. Não havia o laço social, senão apenas um laço físico-biológico como organizador dos grupelhos, mediado somente por gritos, sussurros e gemidos. Reinava o animal fonético puro associado à selvageria.
Poder-se-á dizer que, com o alvorecer da linguagem falada e escrita, consequentemente com a cissura cultural atravessando-lhe as entranhas, essa vivalma selvagem in natura fônica se ingressa em outra ordem evolutiva, desembocando em um outro ente: o poderoso e falador homo sapiens, artesão de si mesmo e do mundo ao seu redor, proprietário do império da linguagem, a cada dia mais sofisticada, produtora das ciências das imagens e das ações. É a era do chamado Homem, regozijante de si mesmo. Emergem os laços sociais entrelaçados por imagens, palavras e coisas.
Entretanto, ao que tudo indica, a sombra de seu antecessor selvagem ainda habita sobremaneira às suas ações, o fantasma de sua primeira era in natura que se supunha silenciada pelo o seu potente discurso querelante assombra os seus laços sociais atuais, contudo manchado pelas suas permanentes e infindáveis ações abruptas do real de seu passado agressivo e violento.
Apesar da soberania absoluta do Homem, aliado às ciências tecnológicas e ao capital possuidor de tudo e de todos, senhor das palavras e das coisas, criatura inventada, – conforme o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984): "O homem é uma invenção cuja recente data a arqueologia de nosso pensamento mostra facilmente. E talvez o fim próximo. (As Palavras e as Coisas) – paradoxalmente algo o impulsiona para um gozo de destruição de si mesmo, do outro e de toda a natureza terrestre, quiçá extraterrestre, pois já se pressupõe dominar todas as galáxias.
Centrado em seu domínio racional ilusório, pobre criatura humana, não é capaz de perceber abaixo de seu umbigo narcísico a sua própria força constitutiva indelével que o domina, o seu ancestral voraz e sanguinário.
Talvez o laço social que sempre determinou as relações entre os homens insurgentes pós-linguagem sejam mais os fenômenos reais do que uma possível mediação simbólica, são mais coisas do que palavras. Se se observa mais de perto, há mais ações reais do que interlocuções simbólicas. O homem das letras ainda é um ser real das pedras, posto entregue à sua natureza imediata pulsional. Tudo indica que as mais variadas formas de agressividade e de violência, substratos essenciais humanoides, impregnaram-se naquilo que supunha retirá-lo do reino animal selvagem; a linguagem imaginária e simbólica encharcou-se de real, ou melhor, esse real do ato nunca abandonou o novo sujeito efeito da linguagem. O Homem ainda é um animal selvagem, a mediação das palavras não conseguiu banir o seu vampirismo canibal destruidor. Se não ocorre a agressividade verbal e a violência simbólica, o silencioso ato real aflora.
Para além de todo o seu sofisticado repertório significante, talvez a primeira e a última esperança humana, hoje a palavra traz em si o germe da destruição de outrora. A natureza animalesca sem lei nunca abandonou a sua recente trajetória simbólica. Ela apenas se sofisticou. Ao contrário do que se possa imaginar, de forma envaidecida agora, a pulsão de morte sempre retorna, quanto menos se espera, o real zomba do simbólico.
As coisas dominam as palavras? Que desejo de destruição indomável é esse que se aperfeiçoa sempre na contemporaneidade?
Incontestavelmente, é imprescindível a pulsão de morte enquanto reconfiguração da vida, mas não deveria ela se sublimar apenas na via gozosa do simbólico, base constitutiva do Homem semiótico e com a qual ele poderia se reconfigurar?
Fome e agressividade, narcisismo e violência. É a vingança macabra de si contra si mesmo, oh pobre humanoide?
Há um silêncio ensurdecedor que o simbólico não consegue furar.
O homem-cobra insiste em engolir o seu próprio rabo-metafórico, de forma metonimicamente real.
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