Juntos? Com quem mesmo?
O partido que nasceu sob o signo da social-democracia hoje está resignado à genuflexão contínua a uma violenta versão do neofascismo, diz o professor Roberto Bueno, após o presidente da legenda, Bruno Araújo, anunciar posição contra o impeachment
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Os diversos movimentos em prol da democracia recentemente articulados levantaram múltiplas polêmicas oriundas de diversos setores e também críticas foram endereçadas às mais expressivas lideranças progressistas nacionais que deles se abstiveram de participar. Aparentemente estes movimentos tinham por princípio comum e horizonte enfrentar o Governo militar-bolsonarista, mas nem todos expressaram com clareza a ambição de trabalhar pelo afastamento da atual administração que, é indispensável reconhecer, de forma alguma se resume ao ocupante da Presidência da República.
Uma das polêmicas levantadas foi o real compromisso de enfrentar o Governo que apresenta Bolsonaro à testa, e o real interesse por trás de alguns dos movimentos pode ser avaliado em entrevista concedida a jornal paulistano de circulação nacional neste último dia 12.06.2020 concedida por Bruno Araújo (PDSB/PE). Nela voltou à cena pública Araújo que desde maio de 2019 ocupa a Presidência do PSDB, figura lamentavelmente conhecida em escala nacional por assestar o voto que definiu o golpe de Estado formalizado no processo de impeachment contra o povo brasileiro que legitimamente escolhera Dilma Rousseff para ocupar a Presidência da República. Logo observaríamos que a derrota imporia profundo desgosto e eterna inconformidade na elite brasileira encarnada nas fileiras do PSDB e na triste e viciosa figura de Aécio Neves, todavia abiscoitado sob as amigas plumas do alto tucanato mas que, a julgar por suas declarações, não mantém as relações de parentesco e afetos familiares acima dos interesses econômicos.
Araújo ganhou as manchetes por confirmar o que muitos suspeitavam, a saber, que o PSDB, mesmo que por omissão, não desembarcará do apoio ao golpe de Estado, embora ao extremismo autoritário o próprio Araújo prometera não apoiar em entrevista concedida ao portal UOL no dia 13.08.2019, mas que agora é rompida ao continuar ombreando com o regime militar-bolsonarista. Araújo e o seu PSDB informam ao Brasil que não empregarão esforços para derrocar legalmente o regime que entregou alegre e celeremente em apenas três dias a fabulosa quantia de 1.25 trilhão aos bancos e nega respiradores ao povo sufocado pelo Covid-19, administração que assiste contemplativa à morte de mais de 40 mil brasileiros(as) (em escala velozmente ascendente!) e que quando questionada replica que a morte é mesmo coisa da vida, mesmo quando evitável. O PSDB de Araújo – mas também de Fernando Henrique Cardoso, Aécio Neves, José Serra e Aloysio Nunes (agremiação de quem dezenas de milhões já foram encontrados no exterior) – apoiará o regime militar-bolsonarista que insufla a invasão de hospitais, a administração que não prepara a conversão de indústrias nacionais para a fabricação de todos os equipamentos necessários para enfrentar a pandemia de Covid-19, e que tampouco articula o devido socorro para os cidadãos e pequenas empresas, partido a quem tampouco interessa o propósito do Ministro do Meio Ambiente Ricardo “passa a boiada” Salles, cujas declarações emitidas em reunião ministerial no dia 22 de abril de 2020, em alto e bom som, contém evidente desprezo pela democracia, republicanismo e Estado democrático de direito.
A resposta do PSDB ao povo brasileiro é a de seguir os ditames do Ministro da Economia Paulo Roberto Nunes Guedes: socorrer às grandes empresas, pois o Governo perderá dinheiro se socorrer às pequenas, mas reservando espaço retórico para tucanamente criticar que o citado Ministro vive em algum espaço da ponte aérea entre o Rio de Janeiro e Chicago, esquecendo que tal só pode ocorrer se ocorrer alguma espécie de transporte no tempo, posto que em Chicago, há muito, já ninguém mais defende as ideias neoliberal-econômicas e pinocheteano-políticas que Guedes alega ser o seu DNA intelectual. Ao apresentar pública sustentação ao regime a resposta do PSDB ao povo brasileiro é de que está de pleno acordo com o declarado propósito de controlar a Polícia Federal, de impedir investigações de pessoas próximas, de obstaculizar o esclarecimento de crimes, de que Fabrício Queiroz apareça a prestar esclarecimentos, de que seja esclarecida a suspeita morte do chefe do “escritório do crime” (conhecido grupo de assassinos carioca), o miliciano Adriano Nóbrega (amigo de Queiroz), que ocorreu em território baiano no dia 9 de março de 2020. Tampouco interessa aos tucanos que o terraplanismo tenha deixado de ser mero aspecto exótico para ser aplicado em diversas esferas do Governo com especial destaque para as posições na área da educação.
As consequências deste conjunto de ações da administração são altamente destrutivas para a nação, mas nada disto parece comover ao PSDB e que seus atores movem uma só pluma. Impávidos, agora expressa a sua vasta indiferença ao apoiar Governo que nutre manifesto desprezo pelas minorias indígenas assim como pela maioria de pretos que habita este país e que são perseguidos cruelmente de todas as formas, desde a desarticulação das instituições para garantir a igualdade de oportunidades à pura e violenta persecução policial passando por humilhações diárias as mais variadas. Tempos atrás, contudo, a demagogia de Araújo o levava a informar que o PSDB não seria condescendente com um regime que discriminasse, que vilipendiasse a memória de assassinados pela ditadura, pois, como dizia em sua entrevista ao portal UOL portal UOL no dia 13.08.2019, “Atitudes como esta chocam o mundo civilizado e contra isso o PSDB sempre vai falar com muita firmeza”. Não vai mais. Agora, o PSDB aderiu ao que no ano passado recentíssimo classificou como “atitudes que chocam o mundo civilizado”.
O argumento do PSBD para manter-se à margem movimento político pelo afastamento do atual ocupante da Presidência da República está ancorado em suposta insustentabilidade derivada do aumento das tensões políticas e que, portanto, dar início ao impeachment implicaria “potencializar uma crise dentro da mais grave crise sanitária e econômica talvez da nossa história”. É indubitável que a descrição dos fatos é adequada e que a crise é gravíssima, mas não menos que dela não extrai o fazer político acertado ao apontar que o PSDB deve seguir no caminho de oposição e fazê-lo de forma “paciente”. Paciência e tolerância com o núcleo duro do poder instalado na Presidência da República que adotam políticas que aumentam a mortalidade de milhares de brasileiros(as)? É isto que o PSDB pretende “estabilizar”? Araújo aponta para “paciência histórica”, enfim, para aguardar as próximas eleições presidenciais em 2022: “O preferível é que possamos chegar com um grau de naturalidade ao processo das eleições de 2022”. Com naturalidade? Com naturalidade à custa de um genocídio planejado e maximizado em suas vítimas por conta da omissão do partido?
O que, afinal, pode pretender um partido político que permanece irresignado com a morte de dezenas de milhares de brasileiros(as) e seus cadáveres expostos a mirar fixamente a todos e cada um dos sobreviventes que negligenciaram as providências para evitar funesta consequência? Como podem arrogar-se a condição de autoridades políticas aqueles que permanecem mais frios do que os cadáveres frios nas geladeiras dos necrotérios lotados? A preocupação de Araújo é explícita em uma de suas respostas na entrevista: “O nosso papel é que, em 2022, possamos chegar com uma frente construída, e o PSDB não quer apresentar prato feito, não quer entregar candidato pronto. O PSDB quer participar de um conjunto de discussões de partidos políticos e da sociedade, que acredite que nós possamos chegar com uma alternativa fora do bolsonarismo e fora do lulopetismo”. Há um projeto de poder e, portanto, nada mais parece importar ao PSDB, nem mesmo quantas dezenas de milhares de cadáveres estejam atiradas ao longo da estrada.
O PSDB alega encontrar na “paciência” a melhor opção mesmo quando temos a ameaça diária de golpe de Estado por parte do regime ao qual a sua omissão permite deduzir tratar-se de implícito apoio. Não, Araújo prefere manter-se “vigilante”, para assim evitar que o Presidente, sentindo-se “tutelado” e devidamente limitado pela lei e a ordem constitucional, não venha a infringi-las. O núcleo militar-bolsonarista já avisou que não pretende submeter-se a decisões que repute “absurdas”, e com isto resta instaurada a ditadura. Afinal, em que galáxia podem sobreviver politicamente aqueles que apoiam tal sorte de declarações como as de Araújo? O PSDB encontra remédio para a atual crise em apoiar quem a magnifica a cada dia que passa. É isto um ser político que legitimamente possa reclamar votos daquelas vidas relativamente às quais mantém indiferença literalmente brutal? Ou será que o PSDB conta que, opção tão trágica quanto real, já não necessitará recorrer aos eleitores para manter nacos do poder?
Os tucanos alçaram perigosos voos e sem retorno ao anunciar posição pública pela voz de Araújo de que devem “dar as oportunidades a um governo eleito democraticamente eleito se instalar e trabalhar”, e que, portanto, devem assumir posição do alto do bosque para observar como se esboroam os seres vivos cá embaixo enquanto preservam as suas plumas, pois de todas as oportunidades dadas a esta administração já vimos no que resulta através da perfeita síntese de Paulo Guedes que pode ser ampliada para o conjunto da cidadania e não apenas dos servidores públicos: abraçar a todos e aproveitar a oportunidade para (traiçoeiramente!) colocar uma granada no bolso de cada cidadão! Congruência invejável quando analisamos o passado recente, o alto tucanato avalia que deve manter posição de retração em matéria de impeachment para não agravar crise. Mas qual foi mesmo a preocupação do PSDB com o povo brasileiro quando milimetricamente articulou o golpe de Estado contra o voto popular confiado à Dilma Rousseff em 2016? Para o discurso de Araújo aplicável hoje, não há dúvidas: “O instituto do impeachment não é para ser banalizado. Preferimos, respeitando a grave crise que o país vive, permitir que o diálogo, a serenidade, a maturidade das instituições possam nos levar a superar primeiro esse grave momento”. Entre o oportunismo, chicanas, traições, amoralidade e deplorável caráter transitam alguns segmentos da humanidade.
Araújo explicita que o PSDB tem um rumo histórico a cumprir, que sugiro estar demasiado próximo do precipício a ponto de que todavia seja possível a frenagem e evitar desprender-se de lá arrastando consigo todos o seu programa, embora inesquecível o “legado” de ter entregue a preço vil uma magnífica, estratégica e riquíssima empresa nacional como a Vale do Rio Doce sob o patrocínio do Governo FHC. Nada menos, em momento inauditamente duro, sangrento e genocida da vida brasileira, o tucano Araújo encontra espaço em suas declarações para autocontemplar a recente missão do partido em relatar a destrutiva Reforma da Previdência cujas consequências malévolas para o povo brasileiro são sobejamente conhecidas e já sentidas, mas que para o entrevistado trata-se de motivo de orgulho: “O PSDB foi colaborativo. A principal reforma deste governo, da Previdência, foi relatada na Câmara e no Senado pelo PSDB”. Enquanto Araújo gaba-se do sofrimento provocado, o regime que o seu partido evita enfrentar verte sangue diariamente.
Está olimpicamente claro, portanto, que ao PSDB nada mais interessa do que apoiar a agenda econômica do militarismo-bolsonarista, e nenhum dos milhares de cadáveres de brasileiros(as) será motivo suficiente para impedi-lo, simplesmente não importa um himalaia deles. Dos olhos do PSDB não escorre uma gota de lágrima ou comiseração na alma por nenhuma destas milhares de vítimas nem das outras milhares, mantendo-se tão somente à margem em suas administrações com a adoção de políticas que desprezam o real interesse de preservar a vida da grande massa pobre de nosso país. Com a sua política o tucanato enterrará com a gente brasileira o que ainda restava de seu programa político. Junto a cada uma delas o PSDB enterrará o seu passado, pois já não terá futuro.
A posição do PSDB trazida a público por Araújo é tomada em momento crucial da história política brasileira na qual o partido assume posição que o marcará inexoravelmente. Trata-se de contexto em que manifestações e declarações golpistas são entremeadas com a veiculação concatenada de entrevistas e notas oficiais, todas elas com claras pretensões de coagir ou impedir o devido funcionamento das instituições, alertando para que acaso os interesses da atual gestão militar-bolsonarista não sejam preservados, mesmo que ao arrepio da letra da lei, então, não haverá hesitação dos militares em transformar o regime em ditadura aberta. Blefe ou não, por si só as declarações encontram-se à margem da lei.
Nada disto importa para que o PSDB definia a sua posição nesta grave quadra da vida nacional mas, sobretudo, e muito mais grave, a agremiação manifesta sentir-se confortável em apoiar um Governo implicado em sucessivas declarações de apreço pela instauração da ditadura aberta, o que se depreende do fechamento do Supremo Tribunal Federal e, por conseguinte, da limitação do Congresso Nacional a espaço de mero controle, como ocorreu durante grande parte da ditadura militar perpetrada em 1964. O partido que nasceu sob o signo da social-democracia em que formavam figuras como André Franco Montoro, hoje está resignado à genuflexão contínua a uma violenta versão do neofascismo que conjuga pretos coturnos e verde capital. Nada disto importa ao PSDB, cujos quadros permanecem indiferentes aos milhares de cadáveres, pois à frente nada mais visualizam do que o poder e a preservação de interesses que, percebe-se, transcendem a esfera da política.
Por utilizar metáfora corrente nestes dias, o PSDB parece não ter subido no primeiro ônibus que passou neste período de recrudescimento da resistência contra os agentes do golpe de Estado, senão o contrário, permaneceu sentado na primeira poltrona, confortável e à janela, convocando alguns incautos para que nele embarcassem, malgrado acenando em passado recente, demagogicamente, para que em caso de arbitrariedades do atual regime militar-bolsonarista, estaria pronto a empreender reação contra elas com base em todo o arcabouço jurídico nacional. Mas eis que, uma vez mais, Araújo voltou atrás destas declarações concedidas ao portal UOL no dia 13.08.2019.
Tantas vezes reclamada e apontando o dedo para campos da esquerda e muito particularmente ao Partido dos Trabalhadores (PT), acaso o PSDB tem algo a dizer em tom da tão reclamada autocrítica? Em absoluto, a posição de Araújo é firme: “Uma coisa eu posso afirmar: a decisão do afastamento da presidente Dilma Rousseff foi correta porque o país não iria aguentar o caminho que seguia do abismo econômico, social e de descrença interna e externa”. Depreende-se, portanto, que Araújo e o PSDB avaliam que agora sim o país pode “aguentar o caminho e que não seguirá para o caminho do abismo econômico, social e de descrença interna e externa”, mesmo quando tudo e todas as evidências e informações atestem em sentido contrário, não existindo um só dado de percepção externa a reforçar a imagem do Brasil. Mas o PSDB mostra ser isto aí, só isso aí, uma extrema-direita neofascista ultraliberal que demarca o campo de disputa política (nunca econômica) em que pretende enfrentar o neofascismo militar-cloroquina para 2022, e sem o campo popular disputando.
Sob a administração de Dilma Rousseff e o PT não estava contratado o genocídio de dezenas de milhares de pessoas, deposição e golpe, mas o PSDB avaliava que era certo que o “país não iria aguentar o caminho que seguia do abismo econômico, social e de descrença interna e externa”, enquanto agora, lutam surdamente para manter o poder e “estabilizar” um regime que compactua com a morte de dezenas de milhares. Para o PSDB, portanto, que matem o povo, à mão cheia, se for o caso, na casa dos milhares, mas que não toquem, em caso algum, na política econômica que aproveita aos grandes capitais nacionais e transnacionais ou no petróleo e demais riquezas contratadas para entrega a preço vil. Aqui, portanto, cabe perguntar a todos que estão inseridos no contexto político nacional e que estão Juntos: com quem mesmo? Juntos com Araújo e o PSBD, para quê?
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