Jean Wyllys, será que você fez o certo?
Ao comentar sobre o exílio do deputado Jean Wyllys (PSol-RJ), o colunista Ricardo Melo, do Jornalistas pela Democracia, afirma que o parlamentar "demonstrou coragem incomum, mesmo antes de assumir um mandato, ao explicitar sua condição de homossexual num momento em que o respeito aos direitos dos LGBT não ganhara tanta projeção"; "Combateu as teses reacionárias e homicidas do hoje presidente Bolsonaro com altivez, firmeza e destemor", acrescenta; "Desafiou o ex-capitão em público durante a votação do impeachment da presidenta honesta Dilma Rousseff. Sempre militou no campo de defesa das liberdades democráticas"
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Por Ricardo Melo, do Jornalistas pela Democracia
É sempre complicado julgar atitudes individuais quando está em jogo a própria vida. O deputado Jean Willys, do PSOL, tomou uma decisão radical: desistiu do mandato pouco depois de reeleito e mudou-se para o exterior. Alega que no Brasil corre o risco de ser assassinado.
Suas razões não são desprezíveis. O deputado demonstrou coragem incomum, mesmo antes de assumir um mandato, ao explicitar sua condição de homossexual num momento em que o respeito aos direitos dos LGBT não ganhara tanta projeção. Combateu as teses reacionárias e homicidas do hoje presidente Bolsonaro com altivez, firmeza e destemor. Desafiou o ex-capitão em público durante a votação do impeachment da presidenta honesta Dilma Rousseff. Sempre militou no campo de defesa das liberdades democráticas.
Em troca, virou um dos alvos preferenciais da extrema-direita e passou a receber uma avalanche de ameaças da extrema direita. Uma desembargadora pregou abertamente seu assassinato num "paredão". O quadro se agravou quando a vereadora Marielle, também do PSOL, e o motorista Anderson foram executados a sangue frio. O crime, cometido a céu aberto há mais de dez meses, até hoje resta como não esclarecido. Tudo piorou diante das evidências de ligações da famiglia no poder com milicianos paramilitares. Quem não ficaria atemorizado?
Mas há um outro lado na história. Jean Willys foi reeleito. Os apoiadores de sua candidatura e da legenda que representa depositaram nele esperanças de resistência ao processo galopante de retrocesso no país. Uma andorinha apenas não faz verão, mas a falta de uma delas enfraquece a revoada e, sem esta, não há como pensar em dias melhores. Numa época em que o Brasil tanto precisa de combatentes destemidos, a perda de qualquer democrata obstinado é um revés.
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Falo como alguém que atravessou os anos de chumbo da ditadura militar. Muitos se perguntavam, àquela época, se não seria preferível "ficar na sua", concluir o curso e arquivar os desejos de recolocar o país nos trilhos da democracia. Por que arriscar a vida com "nomes de guerra", fazer reuniões clandestinas, ter "dupla personalidade", deixar a família em constante sobressalto e desafiar um inimigo armado até os dentes para aniquilar a oposição? Aí quem decide são as convicções de cada um.
Recorde-se que as condições eram infinitamente mais severas do que as de hoje. Detalhe: Jean Wyllys, como deputado federal, tem condições de "segurança" muito maiores do que os jovens que se dispuseram, durante a ditadura, colocar a vida em risco em nome de ideais. Graças à sua situação de parlamentar, Wyllys tem o benefício de uma exposição com o mínimo de garantias nessa democracia brasileira soluçante. Paradoxalmente, quanto maior sua visibilidade, mais a extrema direita se assanha. Ao mesmo tempo, é essa visibilidade a maior garantia de manter a própria vida. É o jogo da política bruta que vigora no Brasil.
Como disse acima, nesta hora pesam as convicções. Não se trata de uma condenação, longe disso, mas considero que Jean Wyllys errou na sua escolha, principalmente pela sua trajetória. Deixou seus eleitores falando sozinhos, fora aqueles que contavam com o seu mandato para preservar a vida de tantos outros que não dispõem das mesmas garantias, ainda que pequenas. Oxalá não venha a aparecer daqui a algum tempo com uma sunga de tricô em Ipanema renegando seu passado.
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