Futebol, eleições e democracia

Por mais que se queira rechaçar, fato é que futebol dialoga com a política. E um dos - senão o maior - exemplos disso aconteceu na década de 80, com a Democracia Corinthiana, quando os jogadores do Timão organizaram-se para determinar como funcionaria sua participação no clube e posicionaram-se na sociedade, lutando pelo fim da ditadura militar



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O mundo da bola parece um mundo à parte da sociedade, como se fosse uma bolha dentro do sistema, onde só coexistem gramados, jogadores, gols, torcida, torneios. Mas futebol é uma criação do homem, que vive em sociedade.

E, por mais que se queira rechaçar, fato é que futebol dialoga com a política, quando se discute organização, regulamentos e os poderes nas agremiações, expõe a violência, reflete a estrutura social; os ingressos reverberam a economia do país, entre tantos outros pontos convergentes.

Um dos - senão o maior - exemplos em que o futebol tabelou com política aconteceu na década de 80, com a Democracia Corinthiana, quando os jogadores do Timão organizaram-se para determinar como funcionaria sua participação no clube e posicionaram-se na sociedade, lutando pelo fim da ditadura militar, em defesa dos cidadãos poderem escolher os seus representantes.

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Esse movimento foi registrado magistralmente em "Democracia em Preto e Branco", documentário dirigido por Pedro Asbeg, que todo torcedor, independente para qual seu coração pulsa, deveria assistir.

Asbeg conseguiu escalar jogadores, clube, políticos, bandas. Tudo num só time. E bateu um bolão, mostrando tudo o que envolvia aquele momento do país.

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E foi numa tarde cinzenta de 24 de setembro, no Museu do Futebol, no Pacaembu, onde acontecera o primeiro comício das "Diretas Já", na praça Charles Miller, quem trouxe o futebol para o Brasil, e no auditório "Armando Nogueira", que pude rever esse grande momento histórico do futebol e da sociedade brasileira, que buscava oxigênio frente à censura militar, que desejava expressar seus sentimentos, que tinha o anseio de escolher seus representantes e acabar com aqueles tempos nebulosos.

Amanhã, 2 de outubro, acontecem novas eleições para que os cidadãos escolham os vereadores e prefeitos de seus municípios. Se agora existe a possibilidade de votar é também porque um dia houve uma luta, que incluiu jogadores de futebol, que pressionaram e lutaram por esse direito, que você exercerá no momento que estiver votando nos seus candidatos.

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Inseridos em um país ainda com tantos descaminhos, em que memória sofre de esquecimento, muitos jovens cidadãos e torcedores sequer sabem que um dia, há pouco mais de 20 anos, as pessoas eram submetidos a um sistema ditatorial, sem direito a votar, sem direito a se expressar, sem direito a ser.

Emocionante e esclarecedor poder assistir Sócrates, Wladimir, Casagrande, participando, posicionando pelos direitos das pessoas, bem ali, no Pacaembu, onde praticamente o povo começou a ter voz.

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Amanhã é dia de votar, assim como um dia, em plena ditadura militar, um time de futebol deu o recado no seu uniforme. É dia de exercer a democracia, o que torna o documentário ainda mais vivo, relevante e essencial.

(Para José Trajano)

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