Esquerda de verdade a um passo do segundo turno na França

O passado recente de conciliação da esquerda tradicional está morto. É chegada a hora de abrir um novo ciclo, e no ciclo, uma guinada



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Oratória possante e clareza programática, de quem sabe que somente uma esquerda de verdade conseguirá deter a avalanche neofascista e vencer. São estas as duas qualidades da vertiginosa ascensão do candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélénchon, na reta final das eleições presidenciais francesas.

As eleições acontecem domingo (23/04). O jornal Le Monde publicou uma pesquisa sábado (15/04). Os dados da pesquisa revelam que Mélénchon (20%), que começou a campanha em quarto lugar, arrancou em definitivo do candidato do PS, Benoît Hamon (7,5%), o espaço de candidatura competitiva de esquerda e embolou com Marine Le Pen (extrema-direita, 22%); Emmanuel Macron (direita liberal, 22%); e François Fillon (direita conservadora, 19%).

Mesmo antes de se abrirem as urnas, o grande derrotado das eleições é o maior e tradicional partido de esquerda na França, o Partido Socialista.

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O partido do presidente François Hollande, eleito em 2012 com um discurso de mudanças e crítico da administração Sarkozy. Mas, uma vez no governo, se prestou ao melancólico papel de desdizer tudo que disse na campanha; prometeu emprego e aprovou uma reforma trabalhista que aumentou a jornada de trabalho; dizia-se "adversário do mundo das finanças" e entregou as chaves do ministério da fazenda exatamente a esse atual candidato Macron, diretor do Banco Rothschild. Aplicou o manual do bom aluno do neoliberalismo.

O programa de Mélénchon é radical e sem subterfúgios. É exatamente por falar o que as pessoas querem escutar que sua candidatura cresceu e está às portas do segundo turno. Ela fala abertamente em sair da OTAN. Afirma que um em cada quatro franceses são filhos de imigrantes e o país deve continuar de portas aberta a receber refugiados. Propõe-se a reexaminar os contratos que beneficiam o rentismo na União Européia. Diz que a partir da sua eleição a posição da França muda na UE, e que se ela não mudar, o governo da "França Insubmissa" irá até a última consequência de propor a saída do bloco.
Impopular a descer os níveis de um Michel Temer, Hollande desistiu de concorrer à reeleição. A bancarrota da gestão Hollande é tão profunda que o candidato de seu grupo, Manuel Valls, representativo da direita do PS, foi derrotado nas primárias, para surpresa geral, por Benoît Hamon. Jovem, ex-ministro da educação de Hollande que saiu rompido com o governo, Hamon, justiça se faça, até radicalizou o discurso, ensaiou uma viragem programática de reencontro do velho partido com tradições sindicais e neokeynesianas, avesso ao neoliberalismo de Hollande, mas já era tarde. O contágio de pertencer à legenda de Hollande inviabilizou qualquer possibilidade de ascensão.

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Definitivamente, a contradição da política vem se deslizando para os pólos de direita e de esquerda no mundo.

O antigo centro neoliberal, que juntou por trinta anos, em um espaço de revezamento de poder e convivência comum, partidos liberais conservadores e social-democratas – exatamente o espaço de trânsito entre Hollande e Merkel, diga-se de passagem -, esvazia-se a olhos vistos nos países da União Européia e no mundo inteiro.

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O esvaziamento não aconteceu por acaso: no plano econômico e social, esse espaço de convivência permitiu, para resumir, a consolidação do capitalismo financeiro globalizado, de um lado, e a precarização do trabalho, de outro. O mundo deixou de ser um espaço entre Estados nacionais autônomos e transformou-se num grande mercado.

Esse esquema de revezamento no poder entre o liberal conservadorismo e a social-democracia – embora sempre com resultados desastrosos para os trabalhadores – , por outro lado, incluía algumas políticas identitárias e de minorias. É o que ficou conhecido como neoliberalismo progressista.

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Assim, a gerência do capitalismo se transformou no programa real executado pela maioria da esquerda, rebaixando o horizonte de expectativas. Deixamos de nos diferenciar.

Nos tempos de hegemonia do capitalismo financeiro, a margem de manobra da parte dos governos de esquerda passou a ser muito menor que no passado.

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Desde a eclosão da grande crise do capitalismo em 2008 – ainda em curso – que corre água no bloco histórico do neoliberalismo. As vertentes neofascistas perceberam a questão e passaram a usar um discurso ofensivo e afirmativo.

A crítica de extrema direita ao neoliberalismo passou a ser contundente, evidentemente que combinada com chauvinismo e repressão social. Foi assim no Brexit e foi assim – em que pese a extraordinária campanha de Bernie Sanders – nos Estados Unidos com Donald Trump. Contudo, talvez, o avanço de Mélénchon na França, um grande país da Europa e um dos centros de poder capitalista do mundo, possam significar a possibilidade de uma esquerda com transparência programática sair da defensiva e disputar de fato o poder político contra seus adversários, seja o velho neoliberalismo ou a nova direita neofascista.

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Mélénchon não é um candidato improvisado, nem um outsider.

Ele compõe uma articulação de novas construções da esquerda européia, a exemplo do Podemos e Esquerda Unida (Espanha), do Bloco de Esquerda (Portugal), ou mesmo as tentativas de lideranças como Jeremy Corbyn em renovar as práticas do Partido Trabalhista (Inglaterra).

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Já nas eleições de 2012, Mélénchon obteve 11% dos votos por uma Frente de Esquerda. Agora, a frente chama-se "França Insubimissa". Há uma linha política por trás do nome: constituir uma maioria popular para além do eleitorado tradicional de esquerda. Parece que vem dando certo.

O programa de Mélénchon é radical e sem subterfúgios. É exatamente por falar o que as pessoas querem escutar que sua candidatura cresceu e está às portas do segundo turno. Ela fala abertamente em sair da OTAN. Afirma que um em cada quatro franceses são filhos de imigrantes e o país deve continuar de portas aberta a receber refugiados. Propõe-se a reexaminar os contratos que beneficiam o rentismo na União Européia. Diz que a partir da sua eleição a posição da França muda na UE, e que se ela não mudar, o governo da "França Insubmissa" irá até a última consequência de propor a saída do bloco.

O passado recente de conciliação da esquerda tradicional está morto. É chegada a hora de abrir um novo ciclo, e no ciclo, uma guinada.

De surgir uma esquerda com mais nitidez programática, que fale mais de socialismo. Que seja social e de massas, mas pense mais em termos de economia política, de Estado e de estratégia. A ascensão de Mélénchon aponta neste rumo e pisa no solo fértil da França, um país de tradições revolucionárias e radicais. Como diz o primeiro verso do hino nacional francês, a belíssima e simbólica Marselhesa, "Allons enfants de la Patri" (Avante, filhos da pátria).

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