É hora de temer pela TV Pública

O que está em jogo não é apenas a manipulação, mas a conquista de mais um direito público, que escorre pelo ralo, aos olhos inertes de uma justiça completamente desequilibrada

O que está em jogo não é apenas a manipulação, mas a conquista de mais um direito público, que escorre pelo ralo, aos olhos inertes de uma justiça completamente desequilibrada
O que está em jogo não é apenas a manipulação, mas a conquista de mais um direito público, que escorre pelo ralo, aos olhos inertes de uma justiça completamente desequilibrada (Foto: Décio Junior)


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A televisão pública brasileira, cuja constituição é resultado de um amplo debate entre governo e entidades da sociedade civil, está sob ameaça.

Após a Medida Provisória 398/07, que deu o "start" para a criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e, consequentemente da TV Brasil, a grande mídia tradicional e opositores ao então governo Lula, trataram de tachar o novo canal de "TV chapa branca".

A preocupação não era de fato com uma TV Pública que nascera com um share de apenas 2%, diante de um mercado de elevado nível de ibope. Mas com um canal que fosse capaz de promover importantes debates acerca de assuntos que pudessem ampliar a participação de diferentes grupos sociais, intelectuais e outros atores dispostos a compartilhar aquilo que a TV comercial não tem interesse em oferecer ao telespectador.

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É evidente que àquela altura, mais de 50 anos depois da televisão ter sido implantada no Brasil como um modelo de negócio, não caberia ao governo estabelecer, por exemplo, o mesmo sistema de financiamento utilizado pela Grã-Bretanha na gestão da BBC. Era preciso criar um ambiente regulatório que oferecesse autonomia para que a nova emissora pudesse de fato ser soberana e plural.

Por isso, uma das prerrogativas legais defendidas na "Carta de Brasília - Manifesto pela TV Pública Independente e Democrática", documento extraído do 1º Fórum Nacional de TVs Públicas, realizado em Brasília em 2007, foi que o diretor-presidente da EBC independesse do governo do dia. O artigo 19 da Lei 11.652/08, que cria a Empresa Brasil de Comunicação, prevê que o diretor-presidente e o diretor-geral sejam nomeados pelo presidente da República, por um mandato de quatro anos.

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No entanto, Ricardo Pereira Melo, que havia sido nomeado no lugar de Américo Martins, que deixou o cargo no ano passado, foi exonerado pelo presidente interino da República, Michel Temer, cinco dias após sua posse.

A atitude do atual presidente é autoritária, pois fere uma lei federal aprovada pelo Congresso Nacional. Ouso dizer que fere a Lei 1.079, que define os crimes de responsabilidade.

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Sem respeitar ao menos os servidores, há por trás dessa manobra nebulosa um interesse de domínio de informação, programação e, talvez, novo sucateamento ou privatização. Afinal, a que interessa um governo, que conta com grande apoio dos grupos de mídia privada, sustentar uma emissora pública de televisão? Talvez manter uma insolente intervenção, como faz há anos o governo paulista na TV Cultura, emissora que nasceu para ser pública e que hoje se transformou num instrumento político e governamental.

O que realmente assusta é a violação das regras. Não bastasse a traição, o duro golpe contra uma nação que até ontem se considerava democrática, as manobras ministeriais amplamente articuladas para acabar com direitos trabalhistas e sociais conquistados ao longo de anos de lutas, temos agora que vivenciar a violação de um princípio fundamental do Estado de Direito.

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O que está em jogo não é apenas a manipulação, mas a conquista de mais um direito público, que escorre pelo ralo, aos olhos inertes de uma justiça completamente desequilibrada.

É preciso que o Estado brasileiro saiba reagir aos desmandos de um governo ilegítimo e que se mostra ainda mais ilegal e irresponsável. E tenho certeza que essa atitude não passará.

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