Desmonte do pensamento: a barbárie como projeto de nação

Pior que a retaliação nos investimentos e uma nova investida com matizes ideológicos (sem lastros com a realidade) para justificar possíveis privatizações no futuro é a demonização das atividades intelectuais, estabelecendo um novo grande sofisma de que educar se restringe a aprender uma profissão

Desmonte do pensamento: a barbárie como projeto de nação
Desmonte do pensamento: a barbárie como projeto de nação (Foto: Eduardo Matysiak)


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Os desmontes da Educação pública no Brasil começaram na década de 60, no entanto, o sucateamento físico, moral e intelectual verticalizou-se com força a partir dos anos 90, quando avançaram as políticas neoliberais, transformando a Educação em fardo econômico e não mais como um projeto de nação.

Nos últimos 30 anos o país foi submetido a políticas públicas que desvalorizaram a profissão, relegando os professores praticamente a párias sociais. Além de transformarem a profissão, base de toda sociedade civilizada e desenvolvida, em motivo de vergonha social, dentre outros pontos, complementaram o círculo de ruínas, implantando programas de progressão continuada, uma nomenclatura gourmet que, na prática, passou a despejar despejou milhões de cidadãos no mercado sem as menores condições de interpretar a vida.

No sentido inverso, no mesmo período, a Coreia do Sul, então mais subdesenvolvida que o Brasil, iniciava uma profunda transformação por meio de uma revolução educacional, que fez emergir o país como um dos grandes centros tecnológicos do planeta, formando novas gerações de cidadãos, preparadas, que impactaram positivamente em todos os segmentos.

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Na contramão da História, no Brasil, os governantes "investiram" no desmonte do pensamento, estereotipando a Educação como gasto e não como investimento.

As atuais políticas de cortes na Educação afundam ainda mais o país para a formação de uma nação cada vez menos pensante. As retaliações orçamentárias na educação básica, no ensino universitário e nos programas de pesquisas, fruto de inimigos ideológicos imaginários, desmontam qualquer projeção para a formação de uma nação desenvolvida. Economia não é constituída apenas por números, mas também por pessoas.

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Pior que a retaliação nos investimentos e uma nova investida com matizes ideológicos (sem lastros com a realidade) para justificar possíveis privatizações no futuro é a demonização das atividades intelectuais, estabelecendo um novo grande sofisma de que educar se restringe a aprender uma profissão, direcionando assim, a sociedade para o tecnicismo absoluto.

Segundo estudo conduzido pelo IPM (Instituto Paulo Montenegro) e pela ONG Ação Educativa, em 2016, em que foram entrevistadas 2002 pessoas entre 15 e 64 anos de idade, residentes em zonas urbanas e rurais de todas as regiões do país, apenas 8% das pessoas em idade de trabalhar "capazes de entender e se expressar por meio de letras e números. Ou seja, oito a cada grupo de cem indivíduos da população plenamente capazes de entender e se expressar por meio de letras e números".

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Como se constata a partir do estudo, o descaso das últimas décadas com a Educação já criou uma imensa massa ignara. Fato é que, com estes índices destacados na pesquisa, somos preponderantemente uma nação de analfabetos.

O desdobramento desse vácuo de pensamento poderá ser ainda mais danoso. Em um país politicamente polarizado, a massa, com pouca instrumentação cognitiva por culpa dos governantes, sem conhecimentos históricos mínimos e com a pós-verdade sendo estabelecida via redes sociais, esse contingente revela-se incapaz de compreender a sociedade e, como consequência, começa a reescrever a História através distorções e achismos.

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Educação não pode ser tratada como objeto de esquerda ou direita.

Quando se renega o pensamento como elemento de desenvolvimento em sentido amplo de uma nação, estabelecido por meio de um sistema sólido de Educação, a única projeção para o futuro é da consolidação do tecnicismo simplista e superficial, formando uma sociedade com hordas destinadas à esteira da produção. Em plena Era da Tecnologia, considerada a quarta revolução, o Brasil adota medidas – e cortes - para a formação de "apertadores de parafusos".

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Não há como projetar uma nação desenvolvida sem se considerar um projeto inclusivo de educação.

É necessário um mínimo de bom senso e discernimento para compreender que um povo se desenvolve com pensamento crítico em todas as áreas do conhecimento. Sobretudo, que não se faz uma nação com armas, guerras ideológicas vazias e que transformações reais não se sustentam em redes sociais.

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Por mais que pareça óbvio, é preciso compreender que o mundo mudou. Tentar retroagir a mentalidade das pessoas e as novas concepções sociais é como querer pegar uma canoa e tentar fazer com que ela volte a ser árvore.

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