Danilo Gentili e o perfil do governo Temer

O novo governo de Michel Temer também contribui para que a chama do racismo e do preconceito de gênero não se apague. Entre os novos ministros nomeados, nenhum deles é negro ou do sexo feminino. Talvez o novo presidente concorde com a visão de Danilo Gentili e também entenda que lugar de mulher e de negro é servindo o café



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Como já é de praxe, os nossos humoristas estão sempre atentos e afiados para satirizar tudo o que acontece nesse momento de tragédia bufa que atravessa a nossa política. O problema é que os pseudos humoristas também se apresentam nessas horas, e como já podemos esperar devido à ausência de talento nato para fazer humor, eles perdem a vergonha na cara, mas não perdem a oportunidade de fazer uma piada de mau gosto, e com ela externar o preconceito internalizado em sua consciência. Ou na ausência dela.

Figurinha já carimbada nesse quesito, o apresentador Danilo Gentili não perde uma chance de despejar nas redes sociais o seu preconceito e a sua visão segregacionista disfarçada de humor. A sua vítima da vez foi a Senadora Regina Sousa (PT/PI), negra e fora dos padrões estéticos e da concepção deturpada, que boa parte da elite, cria sobre o que é ser gente de bem e de relevância. Em seu discurso a Senadora criticou o sexismo e a misoginia, que segundo ela, eram fortes componentes no processo de impeachment da presidente Dilma.

Em sua conta no Twitter, Danilo Gentili postou a seguinte pérola: "Senadora? Achei que fosse a tia do café" O post dividiu opiniões, mas gerou eco em alguns de seus seguidores. Um deles postou: "Achei que era a faxineira kkkkk", numa demonstração de que a imbecilidade racista não tem cura. Sempre digo que o racismo é uma patologia hereditária, que infelizmente, é contraída nos seios de muitas famílias ditas de bem, mas que ainda não aprenderam a ensinar as suas crias que o respeito às diferenças também deve fazer parte das regras de etiqueta. Não apenas como uma simples convenção, mas como um ditame básico de convivência social civilizada.

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As mulheres de um modo geral, e em particular, a mulher negra, historicamente estereotipada como serviçal pela população europeia que habita os porões da nossa alta sociedade, ainda encontram resistência quando se colocam em um patamar que alguns entendem que não deveria ser o seu. Piadas como a de Danilo Gentili, corroboram e até legitimam o preconceito de raça e de gênero. Não é falta de senso de humor da minha parte, não aceitar isso como uma brincadeira. Seria sim, falta de consciência social minha e de qualquer outro cidadão que se diga civilizado, concordar que o racismo se perpetue em nossa sociedade, através de comentários humoristicamente preconceituosos.

Se questionem o porquê da senadora Regina Sousa ser confundida com a tia do café. Isso não aconteceria, por exemplo, com as Senadoras Ana Amélia e Gleisi Hoffman, ainda que elas subissem a tribuna trajando um avental e segurando uma bandeja. Se fosse o caso, aposto que alguém postaria no Twitter: "Tia do café? Achei que fosse Senadora" Fica claro, que por mais que queiramos parecer desenvolvidos, ainda somos provincianos, na mentalidade e nas atitudes. Ainda associamos a capacidade, o talento e o caráter das pessoas, ao gênero, a cor da pele e a condição social. Isso é podre demais! Fede a enxofre. Somente aqueles que já estão habituados à sujeira da alma, conseguem conviver com tal odor.

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O novo governo de Michel Temer também contribui para que a chama do racismo e do preconceito de gênero não se apague. Entre os novos ministros nomeados, nenhum deles é negro ou do sexo feminino. Talvez o novo presidente concorde com a visão de Danilo Gentili e também entenda que lugar de mulher e de negro é servindo o café. Eu vi mulheres e até negros justificando essas ausências, com a alegação de que, se ele não escolheu, é porque não tem nenhuma mulher e nenhum negro com capacidade para assumir cargos de alto escalão no governo. O próprio oprimido adota o discurso do seu opressor como a verdade por trás da opressão.

A ponte para o futuro de Michel Temer está alicerçada sob a mentalidade racista e preconceituosa de Danilo Gentili e aposta na suposta credibilidade branca, machista e aristocrata, para impor respeito e devolver o país a quem de direito. A tal ponte para o futuro mais parece um portal, onde através dele, os descendentes da nossa realeza e herdeiros das famigeradas capitanias hereditárias, poderão viajar no tempo e reviverem os períodos mais ordinários da nossa sociedade. Tempos nos quais o açoite colocava os negros abusados e libertários no seu devido lugar. Tempos nos quais as mulheres não tinham, sequer, direito a voto e viviam sob as ordens de seus maridos, senhores de seus corpos e de suas vontades.

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A ponte para o futuro de Michel Temer, assim como o post de Danilo Gentili, não é apenas uma piada de mau gosto, é também uma represália aos direitos dos cidadãos mais humildes, independente de gênero e raça. É uma forma de recolocar no seu devido lugar, aqueles que adquiriram autoestima e que agora compreendem que o valor de um homem não está na cor da sua pele, no seu sobrenome imponente ou na sua condição social. É uma maneira de intimidar o crescimento dos menos favorecidos e tradicionalmente excluídos. É um método para doutrinar, seja através de um projeto ou de uma piada, o proletariado que eles sempre temeram e que sempre representou um eminente perigo para as suas nefastas ambições.

A tia do café, negra e mulher, estará presente no governo Temer, assim como deve fazer parte do quadro de funcionários de Danilo Gentili, mas outras mulheres negras, como a senadora Regina Sousa, não fazem parte dos planos. Elas não possuem o estereótipo requerido para ocuparem cargos no governo e nem para estarem à frente das câmeras. Elas não possuem o perfil de gestoras da nova ponte para o futuro e muito menos de protagonista de série de TV, mas talvez façam o tipo ideal para se abrigarem em baixo da ponte ou para secar o suor da mocinha branca da novela. Não que haja algum demérito em ser a tia do café ou a camareira do Projac, tenho absoluta certeza de que é muito mais digno do que ser indiciado na lava jato, como sete dos novos ministros de Temer o são, mas esse não pode ser o papel principal dos negros, das mulheres e dos pobres em nossa sociedade.

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O protagonismo para pilotar o fogão, limpar a latrina e servir com zelo aos porcos chovinistas e chauvinistas integrantes da nossa elite autoritária e racista, é atribuído com toda pompa e circunstância aos negros e as mulheres, mas quando eles almejam e alcançam algo mais, logo são adjetivados pejorativamente, como reprovação ao não enquadramento no padrão imposto pela corte real brasileira, detentora do poder universal de estabelecer o limite até onde um simples plebeu pode chegar. As escolhas de Michel Temer e o racismo idiotizado, com o perdão da redundância, de Danilo Gentili, revelam o incomodo causado por um governo que se voltou para as minorias e tentou, ainda que de forma incompleta, diminuir a desigualdade. A repulsa aos movimentos sociais e ao acesso dos menos favorecidos a educação e a outras formas de dignidade humana, eviden cia, o que de fato, boa parte da nossa elite pensa e deseja.

Os ladrões e os corruptos podem e devem fazer parte da equipe ministerial do governo Temer, desde que eles tenham pedigree. As mulheres e os negros, ainda que honestos, devem ficar de fora, em nome da credibilidade e da supremacia machista e ariana. O Dólar cai ao saber que um homem branco, corrupto e aristocrata assume o poder, mas dispara ao ver discursar na tribuna do Senado, uma mulher negra e nordestina e ao saber que uma mulher, que nunca foi indiciada e nem responde a nenhum processo em sua vida política, está na presidência do país.O importante é que os coronéis e os elitistas estejam contentes. O que menos importa é que a ponte para o futuro nos leve de volta para um passado de preconceito, racismo, machismo e desigualdade. Afinal, perde-se o caráter, mas não se perde a piada.

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