Consigna da esquerda hoje: Fora Bolsonaro

A conjuntura do país mudou completamente e está em uma dinâmica de alteração acelerada, o Partido dos Trabalhadores e a esquerda brasileira deve deliberar e assumir institucionalmente a consigna Fora Bolsonaro



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O Brasil está em uma crise de saúde pública, social e política sem precedentes a caminho de uma depressão econômica, a recessão já é inevitável. A conjuntura do país mudou completamente e está em uma dinâmica de alteração acelerada, o Partido dos Trabalhadores e a esquerda brasileira deve deliberar e assumir institucionalmente a consigna Fora Bolsonaro para derrotarmos este governo agora, afastarmos não apenas o presidente Bolsonaro, mas impormos uma derrota global ao governo central - Mourão, Moro, Guedes -, a política econômica ultraliberal e toda a coalizão formada por partidos e instituições da República que só chegou ao Planalto devido ao golpe de Estado de 2016, à condenação injusta de Lula, a interdição de sua candidatura e à fraude eleitoral de 2018.  

Devemos lutar pela convocação de novas eleições presidenciais antecipadas livres e para que seja realmente livre devemos defender que os direitos políticos de Lula sejam reabilitados para que possa disputar a eleição. O PT assumir a consigna Fora Bolsonaro é expressar e manifestar democraticamente o anseio do povo que pede o fim deste governo como tem sido materializado nas últimas semanas mesmo sem a classe trabalhadora poder tomar as ruas e praças devido a pandemia, mas tem demostrado que é esta sua reivindicação nas janelas e além disto é a palavra de ordem já assumida pela Central única dos Trabalhadores (CUT), a maior central sindical do país. Por isto, cabe ao PT em particular e a esquerda como um todo definir Fora Bolsonaro como sua consigna e horizonte tático para ser expressão da vontade do povo. 

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Consigna é uma expressão usual da esquerda original e legítima. Consigna é uma palavra de ordem, um lema que sintetiza uma proposição preliminar ou um teorema. Neste momento a consigna Fora Bolsonaro não cumprirá a função de chamado para a ação política, mas será um slogan para agitação e propaganda para a constituição de um movimento de massa, mesmo que por hora sem a possibilidade de mobilização presencial, em favor da interrupção imediata do mandato do governo Bolsonaro. Este movimento deve colocar concomitantemente em pauta a convocação imediata de eleições presidenciais, a serem realizadas logo após superarmos a COVID-19, para que o povo possa escolher outro governante para o Brasil.  

É preponderante hoje na esquerda brasileira e entre suas principais lideranças que para  salvar da morte de dezenas de milhares de brasileiros e de brasileiras é determinante afastar Bolsonaro, a indecisão reside mais na definição sobre qual estratégia institucional para removê-lo do governo federal. Há setores da esquerda do Brasil que pedem a renúncia, o que tem um importante caráter simbólico e expressa com força a revindicação de tirar Bolsonaro da Presidência, mas a renúncia  do ponto de vista concreto dependeria de um ato do próprio presidente o que parece uma possibilidade longínqua e remota, há ainda aqueles que tentam o instituto do impeachment (hoje existe pelo menos 7 pedidos de impeachment) o que levaria, segundo congressistas experientes, se aceito um dos pedidos pelo presidente da Câmara Federal Rodrigo Maia (DEM/RJ) uma tramitação de pelo menos 8 meses e é urgente a remoção imediata. Além do que é necessário a alteração da política do Estado brasileiro e as alternativas de renúncia ou impeachment conduzira ao Palácio do Planalto o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) ou outros da linha oficial de sucessão e a continuidade da mesma política ultraliberal. 

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Há ainda os que aventam interdição do presidente Bolsonaro por insanidade mental o que é um desserviço a disputa porque despolitiza. Bolsonaro tem consciência do que faz, é coerente com seu programa eleitoral e o implementa de forma coerente. A ofensiva da esquerda deve ter como alvo o programa político bolsonarista, o projeto de país é que deve ser disputado e alterado, não a pessoa que ocupa a Presidência.  

Importante destacar que há uma distensão no interior do governo Bolsonaro, um notório desgaste e isolamento causado pelas posições extremistas de Bolsonaro que produziu atritos e divergências públicas de sua base no Congresso, entre os governadores, prefeitos e grande imprensa tal qual a Globo e Folha de São Paulo que contribuíram para sua eleição em 2018. 

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Imperioso apontar algumas movimentações em curso conduzidas pela própria direita para remover o extremismo de Bolsonaro ou ao menos neutralizá-lo para que não comprometa o curso da política neoliberal e do governo de extrema-direita;

a) a “tutela” exercida sobre o presidente por meio de alguns ministros, generais do Exército, vistos como representantes das forças armadas; 

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b) a adoção de um “parlamentarismo informal”, apoiado numa “política de governadores” e no STF; 

c) um governo de “unidade nacional” em torno do vice-presidente Mourão, na hipótese de Bolsonaro vir a ser afastado por razões de saúde, por crime de responsabilidade seguido de impeachment, por renúncia, ou em decorrência de um golpe.

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Seja qual for destas três alternativas descritas acima que definam o destino de Bolsonaro, estas saídas beneficiam apenas as classes dominantes porque servem para a manutenção da mesma política ultraliberal de contracionismo fiscal e de destruição do Estado de Bem estar social que tem subtraído os direitos sociais e destruído as condições de vida do povo. É decisivo uma solução construída pela classe trabalhadora, não operacionalizada por cima, mas que tenha o povo como protagonista e como beneficiário.  

Como visualização do cenário não pode se subestimar a hipótese de a pretexto de garantia da estabilização do país desencadearem o fechamento do regime, a supressão do resquício das liberdades democráticas do país, o encerramento da república liberal e do início do Estado policial aberto.  

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Há também o fato nada desprezível de que Bolsonaro detêm apoio das classes médias e populares, ainda que minoritário, mas uma base eleitoral sólida, militante, fundamentalista, e o mais grave, parte desta base armada. Isto significa que deve-se abandonar análises ingênuas de que o governo Bolsonaro irá sangrar até sua queda ou mesmo o natural reconhecimento do erro por parte dos eleitores que o elegeram e que corrigiram seus votos elegendo a esquerda nas próximas eleições. 

Não subestimar não significa ficar paralisado, pelo contrário, as forças de esquerda tem de operar de forma contundente para a modificação da correlação de forças porque somente a esquerda é portadora do projeto político que é capaz de modificar a ordem econômica que nos trouxe até aqui. Evidentemente, que não há uma perspectiva de que de imediato, do dia para à noite a partir da decisão de se adotar a consigna Fora Bolsonaro aconteça um levante popular de massa.  

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Do mesmo modo não existe uma tendência no Judiciário para uma decisão do TSE para  que neste momento se convoque novas eleições presidenciais. Para isto o pressuposto é um movimento de massa que tem como essencial que a consigna Fora Bolsonaro seja encampado pelo maior partido de esquerda do país e pelo conjunto das forças democráticas, populares e progressistas do Brasil, ganhe apoio da maioria do povo, torne-se uma bandeira nacional. 

Esta condição objetiva pode não esta colocada na sociedade nem nas instituições, mas a dinâmica da conjuntura tem se modificado de forma acelerada e se as medidas do governo Bolsonaro resultarem ao que tudo indica em milhares de mortos, desabastecimento de insumos para a Saúde Pública, produtos básicos de alimentação haverá espontaneamente insurreições populares, a exemplo do que ocorreu recentemente no Chile que após uma crise social houve  uma insurreição popular e a convocação de uma - até pouco tempo impensável – Assembleia Consituinte. O PT e os demais partidos de esquerda - quando as condições objetivas estiverem presentes - precisam estar na vanguarda para conduzir e direcionar o movimento para a solução que é a modificação da política do Estado brasileiro e para uma saída democrática popular e institucional para o afastamento de toda a coalização que sustenta o governo Bolsonaro. 

Logo após o Golpe de 1964 os que se opunham ao regime de exceção, embora tivessem dúvidas sobre qual a melhor tática e estratégia para derrubar o governo militar adotaram a consigna “Abaixo a ditadura”, a palavra de ordem “Fora Bolsonaro” pode assumir diferentes formatos institucionais que pode ser definido pelo conjunto das forças democráticas e populares mais a frente. No caso do Partido dos Trabalhadores, defendemos Fora Bolsonaro, cassação da chapa Bolsonaro-Mourão e convocação em 90 dias de novas eleições presidenciais, conforme o exposto no artigo 81 da Constituição Federal
 

O governo Bolsonaro assume uma postura contrária a majoritária orientação da comunidade científica internacional, se opõe e sabota as medidas de conscientização e as políticas públicas para garantir a quarentena e o isolamento social que comprovadamente objetivam proteger e salvaguardar a vida do povo.  

O presidente Bolsonaro (sem partido) usa a retórica de que se preocupa com as classes populares, mas na atitude concreta coloca em primeiro lugar o interesse do empresariado, de modo global os capitalistas, obstaculariza aqueles que se debruçam baseados na comunidade científica e na experiência de outros países para evitar a morte de milhares de brasileiros e de brasileiras, vítimas da atitude do governo federal frente à pandemia, torna inescapável que a oposição se movimente no sentido de não somente afastar institucionalmente o presidente da República, mas derrotar a política bolsonarista, não em 2022, mas agora.


Neoliberalismo nos trouxe até esta catásrofe


Para além das orientações e avaliações sobre Saúde stricto senso – recomendações sobre medidas de isolamento social etc - noticiado a exaustão na grande imprensa, e que já são consensuais em toda a comunidade científica internacional e até mesmo já são de domínio do senso comum (ao menos nas pessoas com o mínimo de desenvolvimento intelectual), faer afirmações do senso comum como “a vida deve ser radicalmente preservada” é decisivo assumir o que cabe a um dirigente partidário e a um Partido de esquerda, analisar as questões causais da crise política institucional atual brasileira e da crise econômica que de acordo com o professor de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) André Nassif deverá ser “a crise mais séria da História do Capitalismo”. 

No entanto, além de tão meramente descrever a situação brasileira,  para enfrentar a crise sanitária e econômica que é agravada pelo presidente Jair Bolsonaro se faz necessário uma resposta política que não pode se limitar – porque é insuficiente - a elaboração e apresentação de políticas púbicas no Congresso, nas Assembleias, Câmaras de Vereadores, governos estaduais e municipais. 

Obviamente devemos defender publicamente nosso programa de emergência de Saúde Pública e de Emprego e Renda, a direita tradicional se opõe a esta agenda, renda básica, renda mínima são pautas nossas e as classes trabalhadoras necessitam desta proteção social e econômica como uma resposta imediata para a preservação de suas vidas e acesso a produtos dos mais fundamentais para a sobrevivência. 

Mas o Partido dos Trabalhadores e a esquerda brasileira precisamos entrar na questão central que é denunciar o fator responsável pela catástrofe e em que o Brasil se encontra; o neoliberalismo. Se faz necessário antes de tudo entender que o neoliberalismo não é uma política econômica, mas é a fase atual do capitalismo baseada na financeirização. Esta ordem econômica mundial hegemônica nos últimos 40 anos nos trouxe até aqui, isto precisa ser denunciado.  

Devemos fazer o que David Harvey dispõe que é  um mapeamento das contradições internas da circulação e acumulação do capital e a medida que o valor monetário flui em busca de lucro através do que Marx denomina de diferentes momentos; produção, realização (consumo), distribuição e reinvestimento (privatização). Esta expansão do modelo de economia capitalista em permanente expansão deve ser considerada a partir das confrontações geopolíticas, das instituições financeiras, dos desenvolvimentos nacionais desiguais, das novas tecnologias de produção e da contínua mudança das divisões do trabalho e das relações sociais. 

Sobram diagnósticos de economistas e de lideranças de esquerda de que esta nova crise econômica pode derrubar definitivamente o neoliberalismo global. No entanto, esta afirmação não se sustenta quando se leva em conta a História da Economia. Após a crise do subprime de 2008 que foi fundamentalmente uma crise financeira a partir da queda do índice Dow Jones gerada pela recessão de empréstimos hipotecários que levou bancos a situação de insolvência e queda das bolsas de valores o neoliberalismo voltou ainda mais agressivo. A crise atual é ainda mais devastadora, porque além de um crise financeira é uma crise da produção. Parte da capacidade instalada da produção, quando não a sua totalidade em algumas plantas de produção, estão ociosas porque o trabalhadores tem de ficar em casa para preservar a vida. 

Ainda como contraponto a consideração dos otimistas de que o neoliberalismo e o governo Bolsonaro estão em estágio terminal e devem convalescer até sua morte eminente, ao observarmos a crise do pós Segunda Guerra, é verdade que o resultado é de que a esquerda saiu melhor do que entrou naquele conflito internacional. 

Todavia o que não pode ser deixado de lembrar é que houveram inúmeras lutas por libertação nacional, independência, e políticas desenvolvimentistas. Houve um reordenamento na geopolítica mundial, mas a rigor este deslocamento do poder derivou de forma determinante de guerras e da luta de classes.  

A fórmula do Ministro Paulo Guedes anuncia em caráter público e oficial para “tirar” o Brasil da crise econômica é ainda mais medidas neoliberais de arrocho fiscal, entrega do patrimômio público, privatizações, redução de salários e retirada de direitos, tal qual a PEC 186 que permite cortar salários de servidores públicos, a PEC 187 que extingue os fundos públicos; e o projeto Mansueto que propõe a liberação de R$ 10 bilhões para os estados com contrapartidas como a privatização de estatais, e a MP 905/19 a Carteira Verde Amarela que retira ainda mais direitos trabalhistas.  

Devemos defender uma Reforma Tributária Justa, Solidária, Progressiva e Sustentável que taxe a propriedade e a riqueza, as grandes fortunas e não o consumo para se combater a desigualdade social e a concentração de riqueza. Não é justo que os trabalhadores paguem com sacrifício a conta da crise e o bancos, o sistema financeiro não faça para desta contribuição e esforço nacional para reerguer o país. 

Na crise atual em que o Brasil está a recessão é inevitável e a trajetória é em direção a depressão econômica. É preciso que a esquerda retome o debate político e ideológico e realize a crítica a economia política do desenvolvimento capitalista brasileiro para bloquear a alternativa de reforma do capitalismo. De início temos que deixar claro que a crise econômica brasileira não é resultado do contexto da pandemia. O Brasil desde o golpe de 2016, após Reforma Trabalhista, Reforma da Previdência, corte de gastos públicos (EC 95) está estagnado, cresce em media 1%, enquanto nos governos do PT crescia a 7%. 

A esquerda agora tem legitimidade, tem de informar a sociedade que nós a esquerda somos portadores de um projeto que rompe com este sistema econômico e é a solução para superação desta crise de forma que beneficie as classes populares. 

Para a análise conjuntural deve-se observar as variáveis estruturais que estão por trás desta crise;

1/ A dinâmica do capitalismo internacional vem sofrendo há anos uma queda na taxa de crescimento e uma ampliação da financeirização. Há um descolamento entre a massa de capitais e aquilo que é propriamente investimento produtivo.

2/ O choque entre China e EUA o choque geopolítico entre a nação hegemônica e a potência ascendente.

3/ A brutal polarização política, social e ideológica que estamos vivendo no mundo; de um lado o crescimento do neofascismo e de outro está em voga novamente a classe trabalhadora adotar métodos de insurreição urbana, pode-se citar como exemplo os coletes amarelos na França, o que vivemos na América Latina, Chile, Colômbia, Bolívia e em vários países da África, volta a ter luta de rua com características disruptivas. A pandemia do COVID-10 não é o vetor desta convulsão social, a crise política, econômica e sanitária é acentuada pelo COVID-19 e é o pretexto a falsa justificativa utilizada pelos líderes de direita e extrema-direita pela catástrofe que a sociedade se encontra.

Eugenia

Esta postura da Presidência da República de se opor as orientações científicas de isolamento social é parte de ideologia própria do neofascismo, a eugenia. A teoria da eugenia que esteve presente no regime nazista dos anos 30/40 do século passado é fundamentada de que é necessário haver uma depuração étnica e social, onde os fracos, deficientes, doentes, idosos devem ser eliminados fisicamente para “depurar” a população.  Assim como motivar para que as pessoas sigam trabalhando normalmente e corram o risco de morte, não é algo novo, é próprio dos capitalistas que sempre alocaram inescrupulosamente trabalhadores em processos produtivos insalubres, de periculosidade, expostos a materiais tóxicos, em máquinas que mutilam, mulheres grávidas em atividades laborais que colocam e risco a gestação. Isto é um projeto de sociedade é uma visão de mundo. O socialismo, não como palavra abstrata, mas como sistema econômico em que os meios de produção sejam preponderantemente de propriedade estatal, a defesa de um Estado forte indutor do desenvolvimento, instituições em que estejam sobre controle da social e da classe trabalhadora, uma nova forma de organização social, este deve ser o projeto na ordem do dia da esquerda brasileira.

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